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Archive for março \30\UTC 2010

Chevy 500 (1/2)

Em uma quadra do bairro Bela Vista, zona norte de Porto Alegre, próximo ao primeiro e ainda bem conceituado Shopping Center da cidade, fica, entre árvores altas e verdes, defronte um grande canteiro central, a lavagem de carros onde Beto, há pouco, tinha assumido a gerência.

Jovem, recém formado em administração, fez da amizade com um dos sócios daquela rede de lavagens porto-alegrense o drible necessário na falta de experiência. Agora ele tinha um bom primeiro emprego, mas sem grandes desafios. A clientela era boa, fiel e caprichosa com seus carros.

O serviço era bom, e se cobrava bem por ele. Beto rápido percebeu que pouco do que foi aprendido no seu curso superior seria aplicado na gerência daquela lavagem automotiva. O público já tinha sido fidelizado, o ponto era ótimo e os funcionários que davam problema já tinham sido excluídos do quadro funcional.

Beto, nas primeiras semanas, pensou num modo de manter a equipe de lavadores motivada, pensou também em pacotes promocionais para clientes com mais de um carro na garagem, pesquisou produtos de limpeza mais baratos que os antes utilizados e tentou implantar uma frustrada mecânica para economizar água.

Mas no oitavo mês de trabalho o tédio já rondava nosso gerente. Já não havia ali novos desafios, o trabalho era uma rotina em torno do ar condicionado do escritório, bate-papo com clientes ao sabor de um café, um que outro puxão de orelha em um funcionário, e o tradicional chimarrão no final da tarde.

E aquela primeira semana de maio não parecia começar diferente. Beto chegou cedo, como todo bom gerente, abriu o estacionamento, separou as contas de luz e água, e, enquanto chegavam os funcionários, pensou em providenciar um chimarrão, estava frio naquela segunda-feira.

Enquanto o computador da sua mesa de trabalho ia ligando, carregando automaticamente as câmeras de vigilância e controle de lavagens, Beto preparava caprichosamente o mate na sua cuia de estimação, devidamente curtida durante os estudos da faculdade e nas rodas de truco com amigos no parque Redenção, e, com ela em mãos, ele viu entrar, então, através da câmera que apontava para a entrada do estacionamento, aquilo que mudaria o andar das suas horas nos próximos dias.

Primeiro gole, ele observa a dianteira de um Chevette parar na calçada, esperar um casal de idosos passar em trajes de caminhada, e acelerar pátio adentro. Vê então que o Chevette era, na verdade, uma Chevy. O primeiro cliente da semana chegava numa caminhonete bastante embarrada e era, agora, orientado por um funcionário do devido lugar para estacioná-lo.

A boca se enche do segundo gole de água amarga, na temperatura de morna para quente, e os olhos notam agora que, na verdade, quem estaciona o carro é uma motorista. Um bocado de cabelo moreno resolve voar pela janela, vidros baixos para enxergar melhor o retrovisor, e ganham a atenção do gerente.

Pela câmera Beto vê a morena descer da Chevy, mostrando um corpo magro, atraente, e o tirando, por alguns minutos, da percepção do tempo. Ela usava óculos de armação escura, da cor do cabelo, saia na altura dos joelhos e bolsa a tiracolo. Mulher de óculos sempre foi um de seus tantos fracos, a panturrilha era linda, marcada, e a bolsa, tanto faz, tanto fez, só as mulheres dão importância para ela. E como se visse a cena de um filme, ele a acompanhou.

Viu-a conversando com o lavador, depois verificando se não esqueceu nenhum pertence dentro do acanhado carro, e depois sair, com seus passos decididos, pelo mesmo caminho por onde antes entrou a bordo de, quem diria, uma embarrada Chevy.

E a manhã retornou ao seu ritmo normal, o telefone tocou pela primeira vez na semana, alguns clientes vieram ao escritório conversar, enquanto a caminhoneta começava a ser lavada.

Saindo mais cedo para almoçar, querendo pagar logo contas agendadas e poder tomar um banho antes de voltar ao trabalho, Beto abriu mão de ver novamente a morena, pois ao retornar para o turno da tarde, o carro já havia sido entregue.

Perguntou ao funcionário se tinha corrido tudo em ordem, se ela saiu satisfeita, e recebendo as respostas prontas, virou-se ao escritório, pronto para voltar à sua rotina.

‘’ Bonita a dona, né, patrão?“

“ A da caminhonete? Nem reparei. Como ela era? “

“ Morenona, daquelas de apresentar pra mãe com gosto. Boazuda, cheirosa, sorridente, dentes branquinhos, e uma tatuagem no pulso, agora é moda, né, patrão…“

“ O que ela tinha tatuado no pulso?“

“Um mapa desses do mundo, faltando pedaço, patrão. “

E agora, sim, os passos rumavam ao escritório, o telefone tocava, e a imaginação trabalhava.

(…segue)

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O BOM – O Polonês R. Kubica sempre foi considerado um dos melhores pilotos das últimas temporadas, mas nunca teve carro para transformar o seu valor em luta pelo título. A pista molhada das primeiras voltas do GP. da Austrália nivelou os equipamentos, Kubica, através de uma largada perfeita, mantendo-se livre dos incidentes, e do bom trabalho de box da Renault, levou seu possante amarelo da nona para a segunda colocação. A tocada técnica e o bom acerto do carro salvaram os pneus, deixando uma boa impressão de todo o conjunto que subiu até o segundo degrau do pódio.

O MAU - Depois de um desempenho pífio na primeira etapa do campeonato, Button lembrou quem é o atual campeão mundial. Pior, enquanto ele fazia uma corrida perfeita, levando de forma constante seu equilibrado McLaren da quarta posição inicial para a vitória, seu companheiro de equipe, Hamilton, passou a corrida tendo contratempos, terminando por ser atingido por Webber e chegar apenas em sexto. Button sai da Austrália prestigiado pela vitória, com a terceira posição do mundial e jogando mais pressão no seu ainda imaturo companheiro de equipe.

O FEIO - Desconforto no Kremlin. Uma nova bomba Russa está sendo revelada ao mundo. Petrov foi fraco durante o final de semana todo. Enquanto seu companheiro foi um dos principais personagens, Petrov se qualificou apenas na 18˚posição do grid de largada, e, na corrida, com a pista ainda molhada, cometeu um erro sozinho, perdendo a tangência da uma curva e acabando na área de escape. É cedo para qualquer conclusão, mas o dinheiro investido na entrada do primeiro piloto Russo à Fórmula 1 precisa ser revertido em aprendizado. Kubica pode ser um bom professor, dêsde que, para isso, o aluno tenha uma boa base técnica. A Renault espera melhores finais de semana para o seu russo.

A segunda etapa do mundial de 2010 premiou os brasileiros que ligaram a televisão às 03 horas da madrugada. O traçado interessante  e a chuva fina transformaram a corrida em um jogo aberto, cheio de alternativas. A saída de Vettel foi uma surpresa, afinal ele dominou a classificação com a sua Red Bull. Button e Kubica se distanciavam, enquanto Webber, Alonso, Massa, Nico e Hamilton fizeram uma bela disputa. O piloto da casa, porém, decepcionou, jogando fora pontos preciosos para ele e sua equipe.

Das equipes novas, decepção total da Virgin, afinal, Chandhok, o indiano da Hispania, completou a prova. Existe um longo caminho a ser percorrido pelas três novatas, entre elas, a velocidade em que a Hispania se aproximou do bolo foi maior do que qualquer evolução dos belos carros Virgin. Um mistério a ser desvendado, a aparente fragilidade dos bicos da Sauber de Kobayashi.

P.s.: Para melhor visualização das tabelas, abrir em uma nova guia.

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A nossa qualidade

Motor de combustão interna, elétrico, carro movido pelo vento, carrinho de lomba no declive. Um veículo sobre rodas, uma equipe batalhando para deixá-lo mais veloz e confiável que os outros, pilotos disputando quem terminará em primeiro na corrida, seja ela qual for.

Gostar realmente de automobilismo não se resume em acompanhar a categoria máxima, acomodado no sofá, para depois confrontar os veículos de comunicação e seus comunicadores. Isto é muito pouco.

Existe uma história para ser estudada. Os principais cenários, fatos, carros e equipes. Quais foram às referências dos pilotos atuais, quais foram os diferenciais de cada um. Quem gosta, fuça.

Existem diversas categorias. Muitas atraentes, outras nem tanto. Com disputas corpo-a-corpo ou contra o relógio. Provas de longa duração, Rally de regularidade, de velocidade, monopostos, protótipos, turismo, categorias amadoras ou não. Quem gosta, acompanha.

Existe o cheiro de borracha e combustível queimado, o barulho do motor, do deslocamento de ar, do incentivo da torcida, do contato do veículo com o solo. Quem gosta, vai ver in loco. Se possível, até participa. Sai de casa, da comodidade. Vai à campo, vive o esporte.

Exatamente como no futebol, onde a camiseta de última geração, que faz o atleta transpirar menos pela metade do peso, a chuteira colorida feita com algum material exótico, que potencializa o chute, o tapete verde que é o gramado da arena que vira estádio coberto em dias de chuva. Estas e outras “bio-tecno-novidades”, nenhuma o representa verdadeiramente.

Na rua sem tráfego, no campo de várzea, na série C, com bola de meia, com uma surrada perdendo gomos, num campo marcado com riscos de tijolo, na trave montada com pares de calçados, no bate-bola com o filho num domingo no jardim; quem gosta de futebol não se contenta com a televisão.Vai à campo, vive o esporte.

Quem diz que torce apenas para a seleção nacional em Copa, por exemplo, não gosta deste esporte.

A internet facilita a vida de todos. Ela possibilita que todos nós acompanhemos em tempo real os eventos que a televisão não transmite, ou que o carro da nossa família não alcance. Nela existem os portais especializados, independentes ou não, com equipes que buscam cobrir o esporte, e as suas histórias.

Quem se prontifica a fazer uma cobertura, não pode reduzir o mundo do seu trabalho a apenas uma categoria, ou pior, captar a audiência através da torcida pelos patrícios, nem sempre eles existirão.

Não só no automobilismo, mas também na vida, gostar realmente de determinado assunto sempre leva a observação e ao estudo; esse processo resulta na qualidade das opiniões próprias. Cabe a cada pessoa filtrar o material que tem acesso, descartar o que não acrescenta, procurar alternativas e querer aprender sempre mais. Assim nos preparamos para a vida, aprendemos uma profissão, e através desta mesma fórmula realizamos diversas tarefas menores do nosso dia-a-dia.

O telespectador que conhece bem o assunto veiculado tem noção da qualidade das informações que nele chegam. Ele ridiculariza quem as manipula, quem não dá créditos para fontes, quem tenta formar ídolos na marra ou ignora outros. Ele sabe também que o responsável pelo produto veiculado, os patrocinadores, merecem total reconhecimento.

Automobilismo é um esporte rico, amplo e global. Este último, com “g” minúsculo.

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Nostálgico Blues Subterrâneo

Johnny está no porão

Misturando medicamentos
Eu estou no pavimento

Pensando no governo

O cara de sobretudo
De distintivo, ferrado

Diz que está com um nó na garganta

Quer pagar para se livrar

Olhe garoto

Foi algo que você fez

Deus sabe como

Mas você está fazendo de novo

Melhor você cair parque abaixo

Procurando por um novo amigo
O homem de chapéu de guaxinim
Com a grande caneta
Quer onze notas de dólar

Você só tem dez

Maggie vem ao pé do comboio

Cara cheia de fuligem preta
Falando que o calor pôs

Ervas na cama, mas

O telefone está desligado, mesmo assim

Maggie diz o que muitos dizem

Precisa atacar no começo de maio
Ordens do departamento
Olhe garoto
Não importa o que diz

Ande na ponta dos dedos

Não ande com deslocados

Melhor se manter afastado destes

Do que se meter em bizarrices

Mantenha o nariz limpo

Observe as roupas da moda

Você não precisa do homem do tempo

Para saber de que lado o vento sopra

Fique doente, fique bem

Arrume uma tatuagem legal

Balance o pinto, é difícil falar

Se alguém vai vender

Vá atrás, seja barrado

Volte, escreva em Braille

Seja preso, salte a cerca

Entre para o exército, se falhar
Olhe garoto

Você vai arrasar

Mas usuários, trapaceiros
Completos perdedores
Rodeiam os teatros

Garota na piscina

Procurando um novo otário
Não siga líderes

Observe os medidores dos parquímetros

Ah nasça, fique calmo

Calças curtas, romance, aprenda a dançar

Vista-se, seja abençoado

Tente ter sucesso

Agrade-a, agrade-o, compre presentes

Não roube, não furte
Vinte anos de escola
E eles o colocam no turno diurno

Olhe garoto

Eles mantêm isso escondido

Melhor pular num bueiro

Acenda para si uma vela

Não use sandálias

Tente evitar escândalos
Não queira ser um vagabundo
Melhor mascar chiclete
O barril de bebida não funciona

Pois os vândalos levaram a alavanca

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No começo dos anos 90, era tradição meu avô materno, o Sr. José Silveira, receber os filhos e netos em uma praia minúscula do litoral gaúcho, chamada Santa Terezinha. Ele teve quatro filhas e um filho, somando-se os netos, a casa ficava lotada, e as histórias rolavam soltas entre um chimarrão e um doce caseiro.

Meu avô materno é um cara admirável, daqueles com uma vida recheada. Violinista aposentado da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, dois casamentos, muitos filhos. Aliás, sou abençoado por, aos 27 anos de vida, ter os dois casais de avós vivos e fortes. Meu paterno, Ramos, que chamo carinhosamente de Capitão Durepox, soldado aposentado da ONU, hoje morador da linda Florianópolis, é outro que logo pintará por aqui.

Pois no segundo veraneio em Santa Terezinha, eu já conhecia toda a praia. Jogava bola com os mais velhos, fabricava “carros” a partir de caixas de papelão, para competir na descida das dunas. Jogava também canastra e truco na casa dos vizinhos, criava valetas para sacanear os carros argentinos que exageravam na velocidade, e tentava namorar uma menina da casa de tijolos à vista, a do começo da rua.

E junto de tudo isso, escutava as muitas histórias do Sr. José, que sempre chamei, carinhosamente, de Pedro Bó. Ele, apaixonado por corridas, e pelo Internacional, acompanhou o desenvolvimento dos dois, e vendo que seu neto era gremista, sabia qual assunto me interessava mais.

Contava-me histórias sobre as baratinhas e carreteras, que corriam em provas de longa duração, pelas ruas de Porto Alegre e estradas do Rio Grande. Que levava a família toda para a curva da Praça da Tristeza, bairro da zona sul da capital, e, de lá, via os desengonçados vê-oitos, e outros carros menores, contornarem a curva, para depois, subirem a Av. Otto Niemeyer.

Contava que, na estrada de santo Antônio da Patrulha, antiga rota para o litoral gaúcho, havia uma curva apelidada de curva da morte, depois de uma descida, o terror dos freios a tambor das pesadas carreteiras, que rumavam numa disputa Porto Alegre/Capão da Canoa.

Adorava ouvir sobre tudo aquilo. Sempre pedia para ele repetir o causo do carro que se perdeu na curva da penitenciária da Brigada Militar, no bairro Tristeza. E ele contava, rindo, da carretera que entrou muro adentro, causando o maior estrago. Que a corrida seguia, os presos fugiam, e o piloto recebia voz de prisão. Minha mãe jura que a história é verdadeira.

No Rio Grande do Sul da década de 50, praticava-se um automobilismo diferente. Como não havia autódromos fechados, as corridas aconteciam em provas nas ruas das cidades, e em estradas intermunicipais estado adentro. O calçamento geralmente não existia, era chão batido e buracos. Os carros para essas provas deveriam ser rápidos e confiáveis. Para tal, os insanos pilotos desta época pegavam os Chevy’s e Ford’s americanos, retiravam o que podiam de peso, apimentavam os motores, e alinhavam a sua carretera.

A ligação de meu avô com esses carros aparece até quando relembra uma das maiores decepções que já teve. Ele possuía um dos carros mais bonitos que circulavam por Porto Alegre, um Citroen  Traction Avanti 1954 preto, que parava o trânsito. Meu avô conta que, onde quer que fosse, recebia propostas de compra. E acabou cedendo numa irrecusável, ganhou, assim, um gordo cheque sem fundos. A briga para reaver o carro foi grande, mas quando colocou os olhos nele novamente, já tinha sido picotado, transformado em uma carretera.

O Sr. José tinha como ídolo Catharino Andreatta. Mas lembra com carinho de Breno Fornari, Feoli e Menegaz. Ele me ensinou que, passados alguns anos, em provas de estrada, as carreteras comandavam, mas nos circuitos de rua, os DKW, Fusca , Aero-Willys, Berlineta e Gordini davam trabalho. E diz que juntando tudo, o carro mais bonito que já correu por essas bandas é a carretera do Camillo.

Camillo Christófaro tinha velocidade no sangue. Sobrinho de Chico Landi, cresceu vendo os carros de Grand Prix do tio,  tornou-se mecânico e piloto. Morador do Canindé, decorava seus carros com um lobo dos gibis do filho, daí o apelido de Lobo do Canindé. E sempre levava o número 18 nos carros, uma homenagem para a sua esposa.

Camillo viu a invasão das carreteras gaúchas nas primeiras Mil Milhas em Interlagos, construiu as suas, e quando percebeu a desvantagem que elas tinham nos circuitos fechados, montou a definitiva, a Carretera n˚18.

Um pacato Chevrolet 37, que servia para transportar a família, foi severamente cortado. Teve seu entre-eixos encurtado e altura diminuida. O pára-brisas foi inclinado, a frente foi substituída por uma de alumínio, inspirada nos charutinhos da F1 dos anos 60. Os freios eram a disco, para frear a cavalaria do motor Corvette.

Camillo possuía uma Ferrari 250TR. Esse carro sofrera um acidente em 1962, onde morreu o piloto Fernando Mafra Moreira, conhecido como Rio Negro. Ele ganhou a sucata de presente de Aguinaldo de Góes Filho, o dono. Deste carro, aproveitou a suspensão traseira De Dion em detrimento dos feixes de mola e também o tanque de combustível, na sua carreteira.

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Desta mistura inusitada nasceu o carro mais marcante e vencedor do automobilismo brasileiro. De aspecto único, a carreteira de Camillo angariou uma legião de fãs. O carro correu de 1963 a 1971, nos últimos anos, ganhou largos pneus slick, que lhe deram mais competitividade.

Sua principal conquista foi a lendária Mil Milhas de 1966. Mas tanto ela, como o Brasileiro de Velocidade na Marginal do Rio Pinheiros, sobre um Lamborghini Miura, mais as participações em provas como a inauguração de Tarumã, no RS,  em Curitiba, na Guanabara, colocaram esse carro no imaginário de muitos amantes de velocidade do país inteiro, gente como o meu avô, que viu esse esporte surgir e ganhar corpo, e hoje relembra seus heróis e seus carros.

Hoje essa carretera descansa, restaurada, e entusiastas como eu e meu avô, não entendem como empresas brasileiras criam réplicas de AC Cobra e afíns, carros estrangeiros, quando poderiam oferecer aos consumidores uma réplica deste sonho, nascido no Canindé.





Bibliografia para este post:

Livro Mil Milhas Brasileiras – 50 anos ; Lívio Oricchio

http://www.obvio.ind.br/

http://brazilexporters.com/blog/index.php?blog=5&title=a_carretera_18&more=1&c=1&tb=1&pb=1

http://www.ruiamaraljr.blogspot.com

http://www.blogdosanco.blogspot.com/

www.interney.net/blogs/saloma/

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“Racing is life. Anything that happens before or after is just waiting.”

Steve Macqueen – Le Mans

Valeu Sr. Senna!

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(Se possível, ver o vídeo antes de ler o texto)

Era o brinquedo dos sonhos de qualquer guri daqueles anos oitentistas. Ciente disso, a Estrela, no mês anterior ao Natal, preparou uma mega-propaganda, a isca perfeita, que ia mais ou menos assim:

Um garoto como qualquer outro caminha por uma praia, com seu short curtinho, e, na cabeça, as preocupações de praxe que qualquer garoto daqueles anos tinha. Não perder o episódio dominical da Super-Máquina, do Esquadrão Classe-A ou do Águia de Fogo, perfeito seria ver os três logo, em ritmo de jazz.

E ele vai, no andar arrastado dos pés que deslizam na areia dura, fazendo desenhos de canaleta com o dedão cravado, como qualquer garoto que caminha em qualquer praia de qualquer ano sempre faz. E o foco fecha então no rosto do garoto, mostrando a transformação de semblante que se segue.

A cara, que antes era de Trakinas, aquela da bolacha, de quem provavelmente escondeu a caixa de chocolates surpresa da irmã caçula, transforma-se em dois olhos arregalados e curiosos. Ali, parado na areia, em frente a ele, vermelhinho, imponente, está um Maximus.

E o garoto se ajoelha ao lado, olha para os lados. “De quem será?` Agora é meu!”

E foi só esticar as mãos para o ágil brinquedo se mandar. Começa a perseguição menino-objeto de desejo, mostrando as virtudes off-road do carrinho de controle remoto mais caro do mercado.

E o menino corre atrás, se joga, mas o Jerry rádio-controlado sempre dá um jeito de escapar. E agora, sapequinha, se exibe aos pés de uma linda andante com seu biquíni asa-delta. Afinal, esperta a Estrela, quem paga pelo Maximus é o pai do telespectador-mirim.

Mas o protagonista não tem olhos para a moça, e num afã, consegue encurralar o carrinho. Mas o Maximus, num salto à Gordini e seus 40 HP’s de emoção, passa por cima do obcecado Tom pré-adolescente, caindo aos pés do adulto, o sádico algoz, munido de seu controle remoto.

A isca estava lançada, era o brinquedo mais desejado pelos portadores das caras de Trakinas, que agora escreviam suas cartinhas ao bom velhinho, prometendo, angelicalmente, menos travessuras no ano seguinte. Politicagem pura.

Não era um brinquedo novo, eu já tinha o meu, ganhei de um dindo no ano anterior. E sempre que assistia à propaganda, lá ia eu retirar as rodas, colocar óleo de máquina de costura nos rolamentos, deixar os pneus pretinhos, mimar o brinquedo.

Mas aquele brinquedo me afastava dos meus amigos. Talvez por isso o tenha, até hoje, quase novo, e na caixa. Sempre que eu o levava para a rua, atraía muita gente, todos me olhando de longe, distantes. Os meninos da minha idade, assim como eu, tinham poucas condições de ter um carro daqueles, então, mal se aproximavam. Um que outro pedia para brincar, sentir como é controlar um motorzinho com rodas. Mas muitos apenas olhavam mesmo, e eu me sentia só, e a bateria acabava, e o carrinho voltava para a sua caixa, não sem antes ser limpo novamente, e lá está até hoje.

Pois ano passado eu senti muita vontade de ter algo especial, algo meu, que me tirasse da mesmice em que estava, e que pudesse aproximar meu pai da brincadeira. Resolvi seguir o coração e iniciei um belo projeto.

Sempre gostei de história, e de coisas que carregam histórias. Decidi comprar um carro que sempre me despertou muita simpatia, passei, então, a procurar um fusca da década de 60, o chamado oval, ou goleirinha.

E eu achei o meu, o “Almôndega”. Este projeto, que está apenas começando e promete ser longo. Pois o carrinho que me escolheu estava, provavelmente, fadado à morte. Bonito por fora, com muita mecânica e interior por fazer, virar doador de peças e ter baixa no DETRAN, ou nem isso, deveria ser o destino dele.

Pois vejam, meu Fusquinha 1969, no momento, não apresenta segurança nenhuma para rodar nas ruas. Preciso refazer os freios, a suspensão dianteira, trocar o setor da direção que tem a famosa folga, colocar o forro de teto original que comprei e o courvin marfim nos bancos, e claro, um belo bagageiro com ripas de madeira no teto. Então, no ritmo que meu dinheiro permite, vou fazendo meu brinquedo.


Mas antes de decidir pará-lo, eu fiz com ele alguns passeios por Porto Alegre, e, em cada nova volta, tive uma confirmação de que fiz algo que me fazia bem. O carrinho é macio, gostoso de dirigir, a pintura brilha, vai interagindo com o trânsito, confrontando as suas mesmices, sendo um refresco para aqueles que o compõem, pessoas que construíram umas histórias, e, de dentro de seus prateados de plástico, veem um pouco dela passar na mesma pista, vivo, bem cuidado, com aquele barulhinho característico do motor boxer.

Ninguém resiste a um simpático Fusquinha, eu não resisti.

Cada pessoa tem a sua definição de felicidade, e, no dia-a-dia, batalha pelo que acredita para chegar a ela. Comigo, claro, não é diferente. Mas por ver felicidade em coisas simples, como no meu Fusquinha pronto, do jeito que eu quero, com amigos dentro e um CD dos Beatles nos falantes, rumando ao litoral, me sinto, por vezes, muito deslocado do padrão que vejo quem me rodeia seguir.

E por estar fora do padrão, alguns me olham de longe, distante, feliz com meu brinquedo, mas diferente. E eu, enquanto cumpro lentamente as etapas da minha reforma, quase no passo do menino no começo do comercial, vou me sentindo como quando ainda novo brincava com o Maximus aos olhos dos outros, mas sei que agora é diferente.

Quando esse projeto estiver concluído, me sentirei vencedor. O carrinho certamente já me é caro, mas terá um valor inestimável. Através dele eu já fiz, e venho fazendo muitas amizades e isto deve aumentar, assim que com ele estiver indo aos encontros e passeios que planejo, ou mesmo cruzando Porto Alegre num trajeto cotidiano, ele saberá retribuir o tempo, a paciência e o dinheiro que estou destinando para ele.

E quem sabe em um desses passeios, em uma ironia que apenas eu entenderei, levo no bagageiro de teto, bem amarrado por nylons, o Maximus, dentro da sua caixa.

P.S.: Este texto é dedicado ao Douglas  e ao rodrigo Lombardi, que se ligam num Maximus, e ao DuCardim, que está obcecado pela Caloi Ceci da minha irmã.

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O BOM – Na primeira corrida da temporada 2010 da Fórmula 1, o papel de “O Bom” ficou com aquele piloto que ganhou um péssimo presente de natal. E ele se saiu muito bem no primeiro teste. Nico Rosberg assimilou com maturidade e certa tranquilidade a presença do multi-campeão Michael, andando na frente do compatriota o final de semana inteiro. largou na frente na disputa interna, caso se mantenha, estará valorizado.

O MAU – Na abertura da temporada, “O Mau” foi revelado na primeira curva. Fernando Alonso não quis perder tempo, e, ao final do trecho reto da largada, retardou a freada, entrando por fora na primeira curva do “s”, e ganhando assim a preferência da seguinte. Massa fez bem em não dividir, não era o momento, mas o cruel companheiro de equipe deixou claro que a briga será complicada.

O FEIO – Um dos galãs da temporada, segundo elas, assumiu o contraditório papel de “O Feio” , tendo uma atuação apagada. O atual campeão Jenson Button terminou apenas na sétima colocação, atrás do ex-aposentado Michael, e, principalmente, do companheiro de equipe Hamilton, que, para piorar o quadro, terminou no último degrau do pódio. As coisas começam feias para aquele que mandou nas primeiras etapas da temporada passada.

Não posso deixar de falar do belo trabalho da estreante Lotus, que viu seus dois lindos carros irem até bandeirada final. Trulli e Kovalainen certamente estão felizes com o resultado, assim como Tony Fernandes, que deve estar todo orgulhoso do trabalho feito por sua equipe. Fica a torcida para que o carro evolua, e que as demais estreantes sigam o seu caminho.

P.s.: Para melhor visualização das tabelas, abrir em uma nova janela.

 

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Sampa no Walkman

Sou gaúcho de Porto Alegre, nascido em 1982 no Hospital de Clínicas, morador desde sempre da zona sul da capital. O bairro Tristeza sempre foi a minha casa, apenas mudei de rua; Dona Paulina, Pereira Neto e atualmente Dr. Barcelos. Cada vez mais perto do Guaíba.  O “rio” e seu característico pôr-do-sol são magnéticos.

Não me considero um cara bitolado, apesar da imagem provinciana da cidade em que cresci ser uma auto-propaganda apaixonante, sempre fui ciente das qualidades e dos defeitos dela, e, estudando o seu desenvolvimento, sei o quanto as coisas pioraram nos últimos 40 anos, mesmo assim, temos uma bela capital.

Como todo morador de fora do eixo sudeste, cresci com a imagem de São Paulo que a mídia mostra. O estereótipo, nesses casos, é uma via de duas mãos, pois, o mesmo acontece com todo o resto do Brasil em relação ao distante Rio Grande do Sul.

Sobre São Paulo, a canção de violência, sujeira, trânsito caótico e gente descortês, cantada repetidamente num sotaque carregado à Faustão, abafa facilmente qualquer voz que mostre o lado bom e gostoso da cidade, de longe, as coisas negativas cada vez mais se sobrepõem.

Sempre tive muita curiosidade em passar alguns dias por lá, conhecer, sem pressa, essa cidade que tomou gosto pelo crescimento desenfreado, e, tudo o que ele trouxe de bom e de ruim para seus habitantes. E parecia que nunca deixaria mesmo de ser uma mera curiosidade, até que amizades e um empurrão das redes sociais ajudaram, e pessoas incríveis me receberam durante um período de férias, também me ciceroneando pelos quatro cantos de Sampa.

Vindo de uma breve estada na linda Joinville, desembarquei curioso na rodoviária de São Paulo, e, de dentro do táxi que rumava para a casa da família que muito gentilmente me recebeu, tive a primeira amostra de que as minhas ideias em relação às coisas de São Paulo não condiziam com a realidade. “ –O Playcenter ali, lembro bem dele…” ‘’- O Playcenter não está com nada, decadente, existem outros melhores.” Quando eu era menor,  sonhava com as máquinas do Playcenter, enquanto comprava as fichas de fliperama no centro de Torres.

Os paulistas têm seus hábitos peculiares, entre eles, o de fazer da ida a padaria um evento. As padarias de São Paulo são um mundo. O café da manhã acompanhado de uma comanda eletrônica e o tanto de opções típicas de um supermercado colocou o turista acostumado a pedir pão, frios e leite no seu devido lugar.

E como turista que fui, conheci  diversos locais da cidade. Caminhei pela Av. Paulista e perdi bons minutos no MASP. Gostei do astral do MASP, mais do pátio do que do interior, que é lindo. Mas o pátio não parece fazer parte daquele contexto, me senti muito bem vendo a parte de baixo do museu, vendo os casais descolados, olhando o movimento da avenida além das estátuas de bronze, e entre elas, um homem, que calmamente enfileirava bitucas de cigarro ao longo do pátio, tudo isso ali, na Paulista.

A cidade exagera nas possibilidades. Os Paulistas comem e bebem bem, tem diversas opções de restaurantes, lojas e programas noturnos. Adorei o Mercado Municipal, com arquitetura externa que lembra o de Porto Alegre e interior mais aconchegante. O sanduíche de mortadela do mercado é um mundo, e o chopp vira ritual em cada local que a gente para.

Na frente do mercado me chamou a atenção o prédio abandonado chamado de “Treme-Treme”, o Edifício São Vito. É uma construção bonita, devia encher os olhos nos seus bons tempos, mas perdeu-se no tempo. Outrora invadido por “sem-tetos” e viciados, hoje aguarda a demolição, imponente, carregado de informações. Uma frase em cada andar, janelas tapadas, quebradas, vãos vazios, um meio arco no alto, entrada vedada, de certa forma o “Treme-Treme” me atraiu, vou me lembrar disso tudo quando ler que ele foi finalmente  implodido.

São Paulo cobra bem pela diversidade de opções que possue. O custo de vida lá é mais pesado que em outras capitais que conheci. A cada débito no meu cartão notava que gastava em média o dobro que na minha cidade natal. Mas como Sampa é um mar de gente, se o serviço é bom ou diferenciado, tem público consumidor. Eu consumi.

Conheci uma capital bonita, diferente. Com as regiões bem divididas, Armênia, Liberdade, Vila Madalena, Freguesia do Ó. A proibição da poluição visual ajuda a notar-se as silhuetas dos prédios, e como eles se multiplicam. Algumas vezes com aparência cansada, restaurada, junto deles, os modernos espigões. Um passeio noturno pela maioria das avenidas da cidade parece uma volta numa loja de árvores de natal com o teto pintado de cinza claro. Não existe breu em São Paulo.

Essa cidade que não escurece me colocou no meu lugar também com a sua rede de transporte público ferroviário. O metrô foi uma grande surpresa. Grande, limpa e bem cuidada surpresa. Por uma extensa malha, que deve ganhar novas linhas nos próximos anos, a população transita de forma rápida por todo o subsolo das principais regiões, vez por outra sobre as avenidas. Mas o volume de pessoas que trafegam pelas estações é grande, e, mesmo com uma boa freqüência de trens, o empurra-empurra é grande nos horários de pico.

Em alguns trechos, todo o sistema é aéreo, e isso me fez pensar na quantidade de melhorias no dia-a-dia do porto alegrense que três simples linhas destas trariam a capital gaúcha. Imaginei uma grande estação na área central da minha cidade, com um generoso estacionamento público ao seu redor, de onde partiriam três rotas. Uma para a zona sul, outra para a zona norte e terceira para final da Av. Ipiranga, cada um com seus grandes estacionamentos públicos nas estações mais movimentadas. São Paulo dá a dica para Porto Alegre.

São Paulo também dá os seus avisos. A falta de gramados nas casas e calçadas eleva a temperatura e judia da população. Senti o mormaço da Avenida em que trabalho em Porto Alegre caminhando em ruas simples, coisas do excesso de cimento nas calçadas e pátios, que colabora para as freqüentes enchentes.

Evidente que os problemas crônicos da cidade, só os moradores sentem. É na correria do dia-a-dia que eles surgem. A violência urbana, que não tem hora para aparecer, mostrou-se o grande trauma das pessoas com quem conversei. Escutei muitas histórias de assaltos, sequestros e outras ações criminosas. Mas Sampa, que não é mais a terra da garoa, ela cai em outra região, e nem do Carandiru, no lugar hoje existe um parque, não pode se entregar as consequências da desigualdade social e do descaso com a segurança pública.

Voltei  para minha terra natal, feliz pela oportunidade que tive, pelas pessoas que conheci, pelos momentos que passei e passeios que fiz. Agora tenho a minha opinião própria sobre Sampa, e sei que nunca vou esquecer a primeira vez que pisei em Interlagos, e tudo que lá aconteceu, mas isso merece um texto inteiro.

Parabéns paulistas por sua capital, não se curvem à violência.

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Os anos 80 foram, no Brasil, um interessante período, onde, enquanto muitos buscavam esquecer a era de cerceamento da liberdade de expressão e dos direitos constitucionais, uma nova leva de brasileiros ia nascendo livre dos traumas carregados pelas gerações anteriores.

A redemocratização do país, junto da luta pela construção da nova Constituição Federal, deu para estes novos brasileiros a garantia de um futuro amparado por direitos e garantias, e a chance de eleger seus governantes, fazer assim, o pleno exercício da cidadania.

Nas rádios, as vozes vinham agora de uma juventude que cresceu no entremeio destas duas situações. Não precisando mais submeter suas letras aos censores, inspirados pelos punkies modernos de Londres, por engajados irlandeses e pela new wave sintetizada oitentista, as cenas de todos os estados brasileiros ferviam.

E de uma conturbada Brasília, surgida da cena punk local, a voz de Renato Russo, líder da sua Legião Urbana, tornou-se uma das principais bandeiras deste novo período. Com um discurso equilibrado entre o politizado e o romântico, arranjos musicais simples, que só realçavam as suas letras, a Legião fez dos seus primeiros discos tiros certeiros numa juventude carente de lutas e referências.

“Somos os filhos da Revolução, somos burgueses sem religião, somos o futuro da nação…”, o Brasil, país do futuro, colocava nas próximas gerações, que não seriam mais restringidas pelo poder militar, a esperança de consolidação de uma sociedade justa e próspera.  A agora auto-intitulada ‘’geração Coca-Cola’’ dava início a essa luta.

A Fórmula 1 também, curiosamente,  teve nesse mesmo período a sua revolucionária “geração Coca-Cola”.

Antes de essa nova geração surgir, Colin Chapman iniciou, nos anos 70, a era do “carro-asa” na Fórmula 1, isolando o ar que passa pelo assoalho dos monopostos, através de minissaias móveis feitas de material flexível e instaladas nas laterais. Elas deveriam estar sempre em contato com o solo, gerando assim o efeito invertido de uma asa de avião, aumentando a aderência, e, consequentemente, a velocidade nas curvas, devido ao efeito-solo criado.

Essa nova estrutura devolveu a hegemonia para a equipe Lotus , e, logo, todos os carros do grid a tinham, dando às corridas um avanço na sua média horária. E expondo toda a insegurança das pistas do calendário vigente.

O Arrows A2, de 1979, levou este conceito ao extremo. Nele, todo o carro funcionava como uma asa invertida: os aerofólios dianteiros foram reduzidos a abas sobre a suspensão dianteira e os traseiros ligados ao corpo principal. Mas as pistas onduladas tornavam a sua condução muito difícil, e Riccardo Patrese e Jochen Mass não conseguiram retirar nenhum resultado positivo desta bela tentativa da Arrows de crescer em importância no pelotão.

E foram os circuitos da época, com trechos ondulados e poucas áreas de escape seguras, que fizeram a FIA frear, em 1983, o ritmo de seus bólidos. A temporada de 1982 serviu de alerta, o esporte estava inseguro demais. Instituiu-se o fundo plano obrigatório, fazendo as equipes projetarem seus futuros carros a partir de um novo conjunto de regras.

A então decadente McLaren vai buscar, na América do Norte, o projetista que vinha fazendo sucesso na Fórmula Indy.  Ele era o britânico Jonh Barnard, que já tinha uma história prévia de sucesso na própria McLaren, e que, em 1980 foi responsável pelo Chaparral 2k, carro da categoria americana que venceu as 500 Milhas de Indianápolis e que deu o título de pilotos daquele ano para Johny Rutherford.

John Barnard deu início a sua “geração Coca Cola”, trazendo as pistas da Fórmula 1, em 1981, o McLaren MP4/1, primeiro carro construído com chassi em fibra de carbono na categoria. Desde o princípio mostrou-se um carro bem nascido. Era forte, estável e seguro para o piloto, mas o fraco Ford Cosworth não era páreo para os propulsores turbinados da época. E foi através do dinheiro de Mansour Ojjeh, sócio de Ron Dennis, que nasceu um projeto vencedor, sucessor dos MP4/1.

Com o sinal verde dado pelas verdinhas de Mansour, a Porsche passou a desenvolver um propulsor sob medida para o novo chassi que Barnard vinha desenvolvendo. Nascia o modelo MP4/2, que afirmaria o estilo que passaria a ser marca registrada de Jonh Barnard, os carros com perfil “garrafa de Coca Cola”. Conduzidos pela excepcional dupla de pilotos Niki Lauda e Alain Prost, os equilibrados MP4/2, com seus fortíssimos e econômicos TAG-Porche, deram as cartas na metade da década de 80, dando dois títulos a Prost (1985/86), e um para Lauda (1984).

Como tudo que aparece e dá certo na Fórmula 1 é copiado, o novo e elegante perfil criado por Barnard não fugiu à regra,  e, logo, todas as equipes passaram a projetar as laterais e as traseiras dos seus carros de acordo com o modelo das McLaren, onde um afunilamento canalizava o ar para a traseira do monoposto, de modo que houvesse melhor refrigeração do propulsor e  maior pressão aerodinâmica na traseira, melhorando a tração e lembrando, visualmente, a garrafa do famoso refrigerante.

O trabalho de Barnard continuaria com outra joia rara, desta vez sob as cores da italiana Ferrari. Em 1989 ele acomodou um potente V-12 em mais um de seus belos desenhos, aliando o já característico formato “coca-colesco” dos seus chassis a uma frente fina, semelhante ao bico de um pato ou cisne, criando a linda Ferrari 640.

Este foi o primeiro carro da categoria a possuir o cambio semi-automático.  Já em 1988, Roberto Pupo Moreno, secretamente, fazia as trocas de marchas através de duas borboletas atrás do volante, nas pistas de testes da Ferrari. A Ferrari 640 estreou com vitória de Nigel Mansell em Jacarepaguá, mas depois não manteve o caminho das vitórias, culpa da pouca confiabilidade da pioneira caixa de mudanças.

Curiosamente, duas novas gerações, ligadas ao refrigerante americano, surgiram no mesmo período. Mas as comparações não devem ir muito além de uma simples analogia, o argumento deste texto.

Barnard tropeçou no desenho do refrigerante de fórmula secreta quando terminou as suas soluções aerodinâmicas, compensando com criatividade a perda de sustentação que o efeito solo provocado pelos “carros-asa” tinha. Da sua criatividade nasceu um novo e vencedor modo de se pensar os carros de corrida. Até hoje vemos heranças dos primeiros McLaren dos anos 80 e dos projetos seguintes de John Barnard nos carros da categoria, da construção em fibra de carbono dos freios, do chassi e de seu perfil, ao posterior câmbio semi-automático com trocas no volante.

No Brasil, a “geração Coca-Cola” de Renato Russo segue a sua até hoje perdida luta. Cidadãos submissos e conformados, que não apresentam poder de reação a fim de mudar o quadro vivido, continuam assistindo e elegendo maus governantes, usando o triste “jeitinho brasileiro” em detrimento de esforço e de dedicação, freando, assim, o desenvolvimento deste país, que tem um enorme potencial de crescimento, mas não tem foco no que precisa para alcançar a sua verdadeira revolução.

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