Em uma quadra do bairro Bela Vista, zona norte de Porto Alegre, próximo ao primeiro e ainda bem conceituado Shopping Center da cidade, fica, entre árvores altas e verdes, defronte um grande canteiro central, a lavagem de carros onde Beto, há pouco, tinha assumido a gerência.
Jovem, recém formado em administração, fez da amizade com um dos sócios daquela rede de lavagens porto-alegrense o drible necessário na falta de experiência. Agora ele tinha um bom primeiro emprego, mas sem grandes desafios. A clientela era boa, fiel e caprichosa com seus carros.
O serviço era bom, e se cobrava bem por ele. Beto rápido percebeu que pouco do que foi aprendido no seu curso superior seria aplicado na gerência daquela lavagem automotiva. O público já tinha sido fidelizado, o ponto era ótimo e os funcionários que davam problema já tinham sido excluídos do quadro funcional.
Beto, nas primeiras semanas, pensou num modo de manter a equipe de lavadores motivada, pensou também em pacotes promocionais para clientes com mais de um carro na garagem, pesquisou produtos de limpeza mais baratos que os antes utilizados e tentou implantar uma frustrada mecânica para economizar água.
Mas no oitavo mês de trabalho o tédio já rondava nosso gerente. Já não havia ali novos desafios, o trabalho era uma rotina em torno do ar condicionado do escritório, bate-papo com clientes ao sabor de um café, um que outro puxão de orelha em um funcionário, e o tradicional chimarrão no final da tarde.
E aquela primeira semana de maio não parecia começar diferente. Beto chegou cedo, como todo bom gerente, abriu o estacionamento, separou as contas de luz e água, e, enquanto chegavam os funcionários, pensou em providenciar um chimarrão, estava frio naquela segunda-feira.
Enquanto o computador da sua mesa de trabalho ia ligando, carregando automaticamente as câmeras de vigilância e controle de lavagens, Beto preparava caprichosamente o mate na sua cuia de estimação, devidamente curtida durante os estudos da faculdade e nas rodas de truco com amigos no parque Redenção, e, com ela em mãos, ele viu entrar, então, através da câmera que apontava para a entrada do estacionamento, aquilo que mudaria o andar das suas horas nos próximos dias.
Primeiro gole, ele observa a dianteira de um Chevette parar na calçada, esperar um casal de idosos passar em trajes de caminhada, e acelerar pátio adentro. Vê então que o Chevette era, na verdade, uma Chevy. O primeiro cliente da semana chegava numa caminhonete bastante embarrada e era, agora, orientado por um funcionário do devido lugar para estacioná-lo.
A boca se enche do segundo gole de água amarga, na temperatura de morna para quente, e os olhos notam agora que, na verdade, quem estaciona o carro é uma motorista. Um bocado de cabelo moreno resolve voar pela janela, vidros baixos para enxergar melhor o retrovisor, e ganham a atenção do gerente.
Pela câmera Beto vê a morena descer da Chevy, mostrando um corpo magro, atraente, e o tirando, por alguns minutos, da percepção do tempo. Ela usava óculos de armação escura, da cor do cabelo, saia na altura dos joelhos e bolsa a tiracolo. Mulher de óculos sempre foi um de seus tantos fracos, a panturrilha era linda, marcada, e a bolsa, tanto faz, tanto fez, só as mulheres dão importância para ela. E como se visse a cena de um filme, ele a acompanhou.
Viu-a conversando com o lavador, depois verificando se não esqueceu nenhum pertence dentro do acanhado carro, e depois sair, com seus passos decididos, pelo mesmo caminho por onde antes entrou a bordo de, quem diria, uma embarrada Chevy.
E a manhã retornou ao seu ritmo normal, o telefone tocou pela primeira vez na semana, alguns clientes vieram ao escritório conversar, enquanto a caminhoneta começava a ser lavada.
Saindo mais cedo para almoçar, querendo pagar logo contas agendadas e poder tomar um banho antes de voltar ao trabalho, Beto abriu mão de ver novamente a morena, pois ao retornar para o turno da tarde, o carro já havia sido entregue.
Perguntou ao funcionário se tinha corrido tudo em ordem, se ela saiu satisfeita, e recebendo as respostas prontas, virou-se ao escritório, pronto para voltar à sua rotina.
‘’ Bonita a dona, né, patrão?“
“ A da caminhonete? Nem reparei. Como ela era? “
“ Morenona, daquelas de apresentar pra mãe com gosto. Boazuda, cheirosa, sorridente, dentes branquinhos, e uma tatuagem no pulso, agora é moda, né, patrão…“
“ O que ela tinha tatuado no pulso?“
“Um mapa desses do mundo, faltando pedaço, patrão. “
E agora, sim, os passos rumavam ao escritório, o telefone tocava, e a imaginação trabalhava.
(…segue)




















































































































































