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Archive for junho \27\UTC 2010

Neste domingo, em um momento da corrida de Valência, tive um daqueles momentos em que temos a sensação de reviver algo. Um Déjà vu me levou, em tempo recorde, para 1993.

Quando Webber decolou, arregalei os olhos, como fiz 17 anos atrás. Olhava então o Grande Prêmio de Monza, como via todas as corridas daquela época feliz, na cama dos meus pais. Senna brigava contra as Williams, um alemão começava a despontar na Benneton, a Ferrari de Alesi e Berger não era nem sombra do que viria a se tornar, anos depois, nas mãos do já maturado alemão.

Pois, na última volta daquela corrida, Christian Fittipaldi, que tinha feito uma grande prova de recuperação, atacava seu companheiro de equipe Pierluigi Martini. As lindas Minardi disputavam a sétima colocação, e, na saída da Parabólica, Christian embutiu na traseira do companheiro e tocou a sua roda traseira, decolando, completando um looping e, ainda assim, completando a corrida, com o bico apontando para o sentido correto da prova.

Nas palavras dele: “Tudo aconteceu em segundos, mas para mim durou uma eternidade. Fiquei rezando para que as rodas tocassem no solo antes de qualquer outra parte do carro. Estava de olhos bem arregalados e esperando o impacto. Foi um alívio quando meu monoposto aterrisou. Mesmo sem freios, sem direção, sem uma roda traseira, consegui cruzar a bandeirada final. Senti apenas uma dorzinha nos cotovelos, em vista do barulho da batida, até que a aterrissagem foi suave.” Eu nunca mais esqueci.

Pois hoje repeti o “puta merda” que foi dito 17 anos atrás. Desta vez,  Mark Webber que foi catapultado. Da mesma maneira, ao forçar a barra com Kovalainen. Por sorte novamente ninguém se machucou. Nas palavras de Webber: “Foi um incidente desagradável. É evidente que eu fiquei surpreendido com o que estava acontecendo naquela curva. Para começar eu pensei que ele fosse me deixar passar porque obviamente a diferença de ritmo entre os dois carros é enorme. Mas então ele começou a fechar a porta e fazer pequenos movimentos. Pensei: “Onde ele está indo?””

O que me impressiona, mais do que o fato de Webber pensar que Kovalainen não devesse brigar pela posição, é que, a minha memória visual, a forma como reagi, todas essas coisas juntas me colocaram novamente em uma época que há muito não vivo.

O esporte é mesmo algo incrível.

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O BOM – É verdade que o trabalho de Rubens vinha sendo exaltado ao longo do ano pelos principais cabeças da equipe Williams. Como também é que, uma atuação segura somada à uma pontuação farta, ainda não tinha ocorrido. Pois em Valência, o experiente brasileiro, que passou a semana empolgado com o novo pacote do carro, teve o seu ponto alto na temporada.

Partindo na nona colocação, Rubens logo passou o companheiro de equipe e, aproveitando-se da confusão gerada pelo acidente de Webber, passou a figurar entre os ponteiros. Impulsionado pelo nova versão do motor Cosworth utilizado pela sua equipe, ajudado pelo circuito com poucos pontos de ultrapassagem, Rubens manteve Kubica atrás de seu carro, chegando na quarta posição.

Com o resultado da corrida, Barrichello passou Liuzzi no campeonato, mas, outra importante marca foi atingida. Agora ele é o quarto piloto que mais pontuou na categoria, com 626 pontos. E terá ainda mais um bom número de corridas para somar pontos à sua estatística.

O MAU – De la Rosa é um dos pilotos mais apagados do ano. Dificilmente aparece em destaque nas transmissões, em algumas corridas, sequer é notado.

Para piorar mais ainda sua situação, seu companheiro de equipe é aquele japonês que sacudiu as últimas corridas do então já definido campeonato de 2009. Pois em Valência, aquele Kobayashi resolveu dar novamente as caras, mais precisamente no final da corrida.

Andou boa parte do tempo em terceiro, beneficiado pela batida de Webber.  Mas como seu cavalo precisava trocar os cascos, foi chamado aos boxes quase no final, voltando em nono. Pois Koba, calçado em pneus novos e com o carro leve, partiu para o ataque, ultrapassando Alonso, que não quis disputar posição e, para festa da equipe do “branco mais branco”, jantou o Buemi, na última curva. Koba terminou em sétimo.

Momentos como este ainda mantém o seu nome em evidência, o que ajuda na sua luta por um carro mais competitivo no futuro.

O FEIO – Webber teve um péssimo domingo. Perdeu posições na largada, ficou encaixotado atrás de carros mais lentos, foi chamado aos boxes para mudar a estratégia de sua corrida e, no retorno, afobou-se atrás da Lotus, forçando uma ultrapassagem. Talvez contando que o piloto adversário não fosse se opor. Pois Webber passou por cima da Lotus de Kovalainen, dando um quase looping, e, tendo a sorte de não se machucar gravemente.

Mas este acidente movimentou a corrida, Webber está, pois, perdoado.

Schumacher fez uma corrida coerente com quase toda a sua temporada. Discreta. Não figurou nas primeiras colocações, não fez grandes ultrapassagens, não andou melhor que Nico Rosberg. Mas, quando viu que estava sumindo na prova, foi aos boxes, e passou a correr para fazer voltar rápidas. E assim ele terminou ela, deixando a impressão de poder ser rápido, quando quer. Está, pois, perdoado.

Os feios do domingo são o arquiteto Tilke e o manda-chuva Ecclestone, que fazem este tipo de corrida acontecer. O lugar é lindo, o dia foi lindo, mas a corrida, se não fosse Webber meter os pés pelas mãos, seria tão chata quanto a primeira rodada desta Copa do Mundo. E assim, feios, nos empurrarão futuramente coisas como Roma e Austin, que serão tão chatas quanto.

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O meu Saramago

Saramago partiu.

O escritor, que afirmou que a pior coisa da morte é o não mais estar, faleceu, aos 87 anos de vida.

Saramago foi daqueles seres que, em vida, ganharam dimensões extraterritoriais, atemporais, muito maiores que as do seu corpo velho, que tanto em vida produziu.

Tornou-se cidadão do mundo, pelo alcance e influência de sua obra. Nunca mais Saramago do Distrito de Santarém, Saramago do mundo! Da mesma turma dos não mais Quintana de Porto Alegre, Drummond das Minas Gerais, Cervantes da Espanha… Todos, patrimônios culturais, acima das fronteiras desse mundo.

E sem fronteiras, Saramago viveu nesta nossa época de rápido deslocamento físico pelos continentes, e de informação, pelos meios que dispomos. E, como cada um de nós, fez uso das ferramentas disponíveis.

Conectou-se na rede através de um blog , defendeu as suas ideologias políticas em fóruns e palestras mundo afora, e, talvez,  toda essa contemporaneidade de atividades, para muitos, o tenha restringido como aquele escritor ateu, comunista, pessimista e de longas frases,  saído de Portugal.

Triste estereótipo, aceito apenas por quem nunca o leu, ou, por aqueles não tenham a capacidade de retirar de um texto mais do que as letras ditam, no seu preto no branco.

Eu ingressei, alguns anos atrás, na Faculdade de Engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Chegar lá foi uma luta, era o meu êxito e a realização de todos os meus familiares. Mas, a vivência do curso, o dia-a-dia dos estudos, cada nova cadeira, tudo, era uma nova confirmação de que estava fora do meu lugar.

E, em meio a esta frustração que era a minha realidade, resolvi passar os intervalos vagos entre as cadeiras dentro da biblioteca do campus. Lá, encarei o meu primeiro grande livro. Com o Jesus Cristo humano e questionador de Saramago, com o Deus de um plano imperfeito de “O evangelho segundo Jesus Cristo”, eu, nada ateu, nada comunista, longe da idade e do brilhantismo no autor, entendi que a minha cruz não deveria ser carregada por aquele caminho, e o mudei, e o estou mudando, desde então.

Faleceu o nosso Saramago, mas ele sempre estará por aí. Vivo, influente e desafiador, nas linhas que escreveu.

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Donington Park

A segunda metade da temporada 2010 da Fórmula 1 começará com a liderança de uma equipe inglesa no campeonato de construtores, a McLaren,  e também com os ingleses Hamilton e Button, os dois pilotos desta equipe, ocupando respectivamente a 1˚ e a 2˚ colocações entre os demais pilotos.

Esse domínio inglês surpreende apenas se levamos em conta a força dos demais pilotos e de outras equipes, como a Red Bull, já que como nação, a Inglaterra cultivou bem a sua imagem de “terra do automobilismo”.

O Reino Unido sempre figurou na elite das artes que exigem força, técnica e precisão. Durante a Guerra dos 100 anos, por exemplo,  guerreiros dedicados vergavam exaustivamente seus pesados arcos de teixo, até dominar completamente a arte de fazer uma flecha encontrar letalmente o seu alvo; corrigindo vento, elevações do solo e demais obstáculos até o objetivo. Ninguém desejava enfrentar um arqueiro inglês bem posicionado.

No automobilismo, muito da tradição construída ao longo dos anos se dá pelo nascimento, no inicio do século passado, de três circuitos que moldaram o surgimento de heróis e, também, o gosto inglês por corridas de automóveis: Brooklands, Silverstone e Donington Park. Este último, objeto deste texto.

O desenho inicial de Donington Park surgiu, assim como nos mais tradicionais circuitos europeus, da ligação de estradas riscadas no solo. No condado de Leicestershire, em um terreno irregular e cercado de verde, no anos de 1931, Fred Craner realizou seu desejo de ter um local para realizar corridas de motocicletas em um belo trecho de 3518 metros.

No ano de 1933, Craner consegue a permissão para construir um circuito permanente, Donington é então extendida e aprimorada, passando a receber, já em 1933 corridas de automóveis, na primeira delas, vitória de Earl Howe a bordo de um Bugatti Type 51.

Em 1934 a pista é extendida novamente, recebendo eventos maiores, como as 300 milhas de Donington Park em 1935, prova vencida por Richard Shuttleworth e seu Alfa Romeo, após 4 horas e 47 minutos de corrida.

No ano de 1937 Donington recebeu sua maior ampliação, ganhando uma reta e a curva Melbourne, quase na divisa com o condado vizinho.

Esta configuração recebeu, nos dois anos seguintes, edições do Grande Prêmio de Donington. Prova que em 1937 e 1938 colocaram em disputa os carros mais avançados da época. Sob a sombra nazista, as flechas prateadas, Mercedes Benz 125 e os poderosos Auto Union Type C, esmagaram a concorrência.

Bernd Rosemeyer, Tazio Nuvolari, Hermann Lang e outros assombraram a Inglaterra com a superioridade da esquadra alemã, fazendo o circuito conhecer, no seu auge, o poderio tecnológico desta. Poderio este que, com o advento da Segunda Guerra Mundial, decretou, em 1939, o fim das atividades na pista, convertida em depósito de veículos militares, oficina de guerra e esconderijo de armamentos.

O circuito permaneceu fechado nos anos seguintes, até que, em 1977, o milionário britânico Tom Wheatcroft comprou o complexo, o transformando em museu vivo para sua vasta coleção de carros históricos de corrida, construindo prédios para abrigá-la e recuperando a pista.

Apesar do traçado original não ter sido completamente recuperado, devido as mudanças realizadas ao longo dos anos de inatividades, o circuito ressurgiu com sua identidade e suas características originais. Trechos de alta velocidade, muitos desníveis, pouca largura, o que dificulta as ultrapassagens, e, muito verde ao seu redor.

Com seu renascimento, passou a receber provas tanto de motos quanto de carros e, em 1993, com uma falha de Silverstone, Donington Park recebeu a sua única prova de Fórmula 1.

Os carros mais famosos do mundo rasgavam novamente o solo que nasceu para abrigar corridas de moto, em 1931. A corrida foi disputada sob condições irregulares e o mundo viu uma das atuações mais espetaculares de um piloto. O brasileiro Ayrton Senna fez uma primeira volta espetacular debaixo de muito chuva e ganhou a prova com quase uma volta de vantagem para o segundo colocado, Damon Hill.

Cultivar a tradição, resgatar, preservar e manter os sítios. Os Ingleses o fizeram com Donington Park no pós-Guerra, a pista que teve o auge no final da década de 30 recebeu a Fórmula 1 apenas uma vez, e foi uma corrida inesquecível.

Hoje segue viva, pulsante, esperando outra brecha por parte de Silverstone para receber novamente os carros da categoria.

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Bibliografia para este post:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Página_principal

http://www.silhouet.com

Poderá gostar também de:

Spa: https://areadeescape.wordpress.com/2010/04/14/spa-francorchamps-patrimonio-belga/

Avus: https://areadeescape.wordpress.com/2010/01/26/o-paredao-da-morte-de-hitler/

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Linha do tempo

Divirta-se reencontrando os carros e as pinturas que marcaram determinadas épocas, agrupados em um mural.

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O Bom – As provas tradicionais deveriam ter cadeira cativa em todo santo campeonato da Fórmula 1, mas, os novos mercados, a sede expansionista de Bernie, a conta bancária do Tilke e dos seus empreiteiros, esses e outros fatores, volta e meia, afastam pistas que nunca deveriam ficar ausentes do campeonato.

Hoje o Canadá voltou a receber os carros da categoria. E que corrida o lindo circuito da Ilha de Notre-Dame nos brindou. Disputas em todos os setores do traçado, inclusive entrada e saída dos boxes, as confusões de sempre na complicada primeira curva, nos pontos de ultrapassagem  e no muro ameaçador que antecede a linha de chegada.

Não afastem mais o Canadá do calendário.

O Mau – Na oitava corrida do ano houve a quinta mudança de líderança. Lewis Hamilton fez uma etapa perfeita, largando na pole, obtida com o carro beirando a pane seca, e lutando sempre para terminar na frente do pelotão.

Perdeu a liderança por duas vezes durante a etapa, as paradas nos boxes jogaram bastante com as posições, mas, enquanto esteve em pista, foi sempre determinado e veloz.

Não me surpreenderá se o desempenho das McLaren na próxima etapa já se equiparar por completo aos dos equilibrados Red Bull. No campeonato de construtores, graças ao ótimo trabalho de seus pilotos, a equipe inglesa já abre vantagem.

O Feio – O brasileiro Felipe Massa, agora de contrato renovado com a Ferrari, teve mais um péssimo final de semana.

Largou três posições atrás de seu companheiro de equipe, e, da primeira à segunda curva da corrida, enroscou -se com Liuzzi, jogando fora a corrida já no começo.

A volta dos boxes depois da troca do bico quebrado foi o reinício de uma série de eventos que mostraram um Massa lento, nervoso e afoito. Os encontros em pista com Liuzzi e Michael foram problemáticos e lhe deram apenas a décima quinta colocação final. Seu companheiro de equipe, Alonso, fez uma corrida além das possibilidades do carro, subindo no degrau mais baixo do pódio.

Uma pena uma corrida tão boa estar inserida num contexto de mobilização total em torno da Copa do Mundo;

Os institutos de meteorologia não acertam uma;

Koba San é a decepção do grid;

As equipes impulsionadas pelos Cosworth arrastaram-se;

Di Grassi chegou a virar 1:44.070 , 24 segundos mais lento que o líder.

A McLaren passou a dominar a temporada. Sua cor de origem é o laranja; amanhã a Holanda estreia na Copa jogando contra a Dinamarca. Para um simpatizante da laranja mecânica como eu, este sinal é um aviso divino, a Copa há de ser laranja.

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Salvo você ter cabulado essa aula, a física nos ensinou, nos tempos de colégio, que as ondas são perturbações que se propagam por alguns meios, levando energia, mas não matéria.

Ela ensina também que as partes da onda que não vibram, os chamados nós ou nodos, ao se encontrarem, criam as interferências destrutivas.

Durante as próximas linhas, contarei uma passagem dessa semana que me fez comparar realidades e desconstruir por completo o estudo de ondas que tive no colégio.

Dezoito horas da tarde, fim do expediente. De barriga cheia e corpo quente me desloquei, numa vibração positiva, para a parada de ônibus.  Cabeça nas nuvens pelas compras para meu carro, feitas pela internet minutos antes, e também pelas músicas do último do Vitor Ramil; agora elas também povoam o meu mp4, que desde ontem, quer trocar o “mp” pelo “Iphone” no seu nome.

Em uma rápida caminhada de alguns estribilhos, lá já estava eu em pé, no meio de muitas outras pessoas e suas respectivas vibrações. Na minha direita, em determinado momento, uma fila impaciente aguardava alguém descer da porta de entrada de um coletivo, para, então, poder tomar o seu rumo.

Do frio de treze graus, vi sair corrido daquele ônibus um garoto que deveria ter por volta de catorze anos. De chinelo de dedos, bermuda, e camiseta de mangas compridas, ele deslocou-se para uma região menos povoada da estação, retirou da mochila que carregava nas costas uma caixa de sapatos cheia de tubos de balas de goma, sortidas, daquelas que todos compram por causa das vermelhas. As balas de goma eram a matéria que aquele garoto trazia, e, tentaria vender com a sua energia para aqueles que, como eu, aguardavam o seu ônibus.

De canto de olho, acompanhei algumas abordagens dele pela minha direita.  Vi que era simpático o rosto sofrido do guri, os pés brancos me lembraram do frio que fazia, o vento o trazia junto de um pouco de cheiro de cola. Sim, o garoto trazia consigo cheiro de cola.

O guri chegou então a mim, de frente, olhos meio perdidos, me encarou. Sem pensar em nada tirei os fones, desarmado, para ouvir:

”Tio, compra uma balinha? Para me ajudar…”

De pronto veio à mente algumas lembranças. Nos meus catorze anos, na minha turma, ainda poucos amigos tinham computador. O Geovani do 101, companheiro de artes aprontadas, tinha um pc com Windows 3.11. Aquela máquina rodava tudo que existia na época. Para mim, tudo que existia na época em matéria de informática eram os jogos que vinham nas revistas, após passar pelas páginas dos consoles.

Para adquirir esses jogos, fazíamos vaquinhas para comprar caixas com quinze disquetes. Depois, pegávamos os classificados de domingo, escolhíamos o jogo do mês e íamos até algumas galerias do centro rechear aqueles disquetes. Cada jogo custava tanto quanto o número de discos que ele ocuparia, assim, Prince of Percia  foi um jogo barato de um disquete, enquanto Monkey Island  custou o valor referente a seis. Tudo isso era um luxo para a época, e eu tive esses luxos.

Hoje, teríamos algumas dificuldades para lidar com a (falta de) tecnologia de dezessete anos atrás. Internet engatinhando, fila de espera para telefone fixo, celular tão grande e pesado quanto caro…

Esse garoto que me abordou representa um atraso pré-histórico até mesmo para o garoto de catorze anos que eu fui, com meu conforto classe-média baixa e todas as minhas oportunidades, e falo isso no ano de dois mil e dez.

Não comprei as balas. Nunca compro nada e nem ajudo alguém que me aborde em sinais vermelhos e afins. Não cabe a mim prover um dinheiro mínimo, que certamente não alterará em nada a vida do cidadão que está pedindo. Isso é tarefa daqueles que agora, empurram com a barriga o começo das obras para um futuro evento internacional no nosso país, já pensando em mais verbas futuras e menos controle nos gastos, pois, certamente, assim que a coisa ficar realmente feia, um plano emergencial para a Copa do Mundo será instituído.

Naquele momento houve em minha vida, diferente das ondas que viajam em um meio, um encontro de dois nós, ou melhor, dois de nós, que provocou, sim, uma interferência construtiva. Me fez refletir.

Como será a vida daquele garoto nestes próximos quatro anos de “investimentos”, dos Pac’s, dos novos estádios e das prometidas mudanças de infra-estrutura e mobilidade?

E nós com isso?  Grandes chances de, em breve, sermos atores perante os olhos estrangeiros, escondendo a sujeira embaixo de um tapete novo e, muito provavelmente, super-faturado.

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