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Archive for junho \12\UTC 2014

Vai ter Copa

Charge genial de um jornal dinamarquês

dinamarques

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LesMisBarricade

Pedro transformou-se em Pierre. E, apesar da torrente de suor que descia pela testa, viu-se atento, esguio e ágil, empreendendo forte luta armada. À semelhança do que seria um perfeito sans-culotte, trajes rotos e empoeirados, ele corria entre homens exaustos tendo em sua cabeça – realçado pelas chamas que atingiam um dos flancos da Grande Barricada – um típico barrete avermelhado.

Eau! Couvertures! Sand! Gritos de comando eram lançados aos montes atrás do imponente colosso, barreira com engenharia aperfeiçoada no passado recente em que os seus construtores eram amotinados fervorosos incendiando Paris. Barricada erguida rapidamente como parte de uma série de bloqueios criados para impedir o acesso à Assembleia Nacional e proteger a massa de Guardas Nacionais e de vários outros miseráveis que, no momento, apagavam os focos de incêndio e reforçavam as estruturas – homens que defendiam apaixonadamente as grandes conquistas populares dos anos anteriores, soltando na atmosfera a fé de que se repetisse a mesma eficiência que outrora transformou os bairros parisienses em espaços fechados de resistência. Ah! Aquela Revolução! …desses eventos que resultam em ruptura, mudança de rumo – por vezes são ruins, mas aquela foi boa!

Vindo ao encontro de toda essa massa, os invasores. Pedro, ardendo em febre, se contorce na cama sob forte delírio. O suor agora banha as roupas e chega aos punhos que se cerram. Em direção da Grande Barricada que uns tantos Pierres defendem – como uma torre cruzando a linha de um tabuleiro de xadrez imaginário erguido em plena Champs-Elysées – a Bastilha em escombros marcha sedenta de vingança. Sua torre surge no outro lado da murada, e apenas ela impede o passado odiado de desconstruir a nova ordem. E a resistência delirante fraqueja no primeiro golpe da Bastilha ao paredão, que recebe o improvisado reforço ombro-a-ombro de seus defensores.

E a odiosa instituição, já derrubada, sem poder, sem prisões, sem vigias ou paióis carregados, busca reaver o antigo espaço através de diversos golpes que se repetem teimosos… E o delírio ganha ares anacrônicos: outros chegam para somar ao cerco, formando um bloco desejoso em tomar de assalto as conquistas de tantos outros Pierres. E um rei do Antigo Regime, seguido de seus fiéis aristocratas, empurra a Bastilha em direção à Grande Barricada; e atrás desses aristocratas um Diretório corrupto faz sua parcela de força contrarrevolucionária, seguido de um Bonaparte derrotado e humilhado com seu exército imaginário dentro de um chaveiro de Santa Helena; e a Inglaterra imperial passa a colocar suas chaminés acinzentadas e suas máquinas a vapor ao trabalho, também para derrubar a Grande Barricada; e os burocratas perfeitos de Hannah Arendt se juntam a empurrar, enquanto fazem chover propagandas e panfletos ilusórios sobre as cabeças dos perseguidos Pierres; e um gelado exército vermelho de armas defasadas se soma à força, seguidos por incontáveis contingentes de homens de pescoços vermelhos e uniformes verde-oliva, todos procurando no céu outro Enola Gay que voe em direção à resistência, todos empurrando a massa disforme enquanto arrastam carroções carregados de produtos chineses.

E Pedro acorda, encharcado e exausto, exatamente 30 minutos antes do horário usual do seu despertador tocar. O mal-estar que o acompanhava durante a noite anterior agora deu lugar a uma fome que desde muito tempo não aparecia nessas horas da manhã. No canto do quarto, repara nos apontamentos da aula que aprontou para o dia organizados na escrivaninha. Uma classe de alunos o espera, embora o sonho delirante não lhe saia da cabeça – enquanto empurram contra, forçam passagem e tentam destruir as conquistas e os direitos adquiridos, lutam seguidamente as novas gerações em busca de preservação, fortalecendo as antigas e construindo muitas novas barricadas.

de rendre à l’antique esclavage!

Rafael Dias Santos, 05/06/2014.

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