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Archive for the ‘Contos’ Category

LesMisBarricade

Pedro transformou-se em Pierre. E, apesar da torrente de suor que descia pela testa, viu-se atento, esguio e ágil, empreendendo forte luta armada. À semelhança do que seria um perfeito sans-culotte, trajes rotos e empoeirados, ele corria entre homens exaustos tendo em sua cabeça – realçado pelas chamas que atingiam um dos flancos da Grande Barricada – um típico barrete avermelhado.

Eau! Couvertures! Sand! Gritos de comando eram lançados aos montes atrás do imponente colosso, barreira com engenharia aperfeiçoada no passado recente em que os seus construtores eram amotinados fervorosos incendiando Paris. Barricada erguida rapidamente como parte de uma série de bloqueios criados para impedir o acesso à Assembleia Nacional e proteger a massa de Guardas Nacionais e de vários outros miseráveis que, no momento, apagavam os focos de incêndio e reforçavam as estruturas – homens que defendiam apaixonadamente as grandes conquistas populares dos anos anteriores, soltando na atmosfera a fé de que se repetisse a mesma eficiência que outrora transformou os bairros parisienses em espaços fechados de resistência. Ah! Aquela Revolução! …desses eventos que resultam em ruptura, mudança de rumo – por vezes são ruins, mas aquela foi boa!

Vindo ao encontro de toda essa massa, os invasores. Pedro, ardendo em febre, se contorce na cama sob forte delírio. O suor agora banha as roupas e chega aos punhos que se cerram. Em direção da Grande Barricada que uns tantos Pierres defendem – como uma torre cruzando a linha de um tabuleiro de xadrez imaginário erguido em plena Champs-Elysées – a Bastilha em escombros marcha sedenta de vingança. Sua torre surge no outro lado da murada, e apenas ela impede o passado odiado de desconstruir a nova ordem. E a resistência delirante fraqueja no primeiro golpe da Bastilha ao paredão, que recebe o improvisado reforço ombro-a-ombro de seus defensores.

E a odiosa instituição, já derrubada, sem poder, sem prisões, sem vigias ou paióis carregados, busca reaver o antigo espaço através de diversos golpes que se repetem teimosos… E o delírio ganha ares anacrônicos: outros chegam para somar ao cerco, formando um bloco desejoso em tomar de assalto as conquistas de tantos outros Pierres. E um rei do Antigo Regime, seguido de seus fiéis aristocratas, empurra a Bastilha em direção à Grande Barricada; e atrás desses aristocratas um Diretório corrupto faz sua parcela de força contrarrevolucionária, seguido de um Bonaparte derrotado e humilhado com seu exército imaginário dentro de um chaveiro de Santa Helena; e a Inglaterra imperial passa a colocar suas chaminés acinzentadas e suas máquinas a vapor ao trabalho, também para derrubar a Grande Barricada; e os burocratas perfeitos de Hannah Arendt se juntam a empurrar, enquanto fazem chover propagandas e panfletos ilusórios sobre as cabeças dos perseguidos Pierres; e um gelado exército vermelho de armas defasadas se soma à força, seguidos por incontáveis contingentes de homens de pescoços vermelhos e uniformes verde-oliva, todos procurando no céu outro Enola Gay que voe em direção à resistência, todos empurrando a massa disforme enquanto arrastam carroções carregados de produtos chineses.

E Pedro acorda, encharcado e exausto, exatamente 30 minutos antes do horário usual do seu despertador tocar. O mal-estar que o acompanhava durante a noite anterior agora deu lugar a uma fome que desde muito tempo não aparecia nessas horas da manhã. No canto do quarto, repara nos apontamentos da aula que aprontou para o dia organizados na escrivaninha. Uma classe de alunos o espera, embora o sonho delirante não lhe saia da cabeça – enquanto empurram contra, forçam passagem e tentam destruir as conquistas e os direitos adquiridos, lutam seguidamente as novas gerações em busca de preservação, fortalecendo as antigas e construindo muitas novas barricadas.

de rendre à l’antique esclavage!

Rafael Dias Santos, 05/06/2014.

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Circuito de La Sarthe, amanhecer de 24 de junho de 1951. Edmond Mouche contorna mais uma vez Le Tertre Rouge, dessa vez sem nenhum farol alto na sua traseira – logo começaria a cruzar os longos seis quilômetros da Ligne Droite des Hunaudières. Tão logo entra na reta o piloto leva o carrinho de alumínio de encontro à margem direta da pista, atitude nobre que adota para deixar aos competidores mais velozes um traçado livre. A reta longa recém recomeça e, enquanto o carro lentamente se aproxima dos 160 km/h, o corpo vai acusando o cansaço acumulado. Mouche se movimenta no banco, ergue o braço esquerdo, fecha e abre a mão. O sangue circula e ele confere os mostradores de pressão do óleo e nível de combustível, projetando quantas voltas ainda terá que realizar até entregar a direção para Auguste Veulliet e poder, enfim, se esticar um pouco.  Uma neblina deixa o horizonte da cor do carro #46. Através dela ele enxerga se aproximar a Mulsanne, um cotovelo que encerra a grande reta. Mouche olha para o seu único espelho e volta ao traçado para depois, habilmente, começar a diminuir a velocidade usando os quatro tambores e a sua caixa de marchas. Contornado o cotovelo, viriam os demais desafios da longa pista de 13.492 quilômetros – depois de tudo, novamente na longa reta, o cansaço lançaria a sua luz alta.

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O final da década de 40 foi um marco para os Porsche. Em 1949 eles puderam retornar para Stuttgart, onde consolidaram uma nova marca de carros que viria a ganhar status de ícone mundial – Ferdinand Porsche e seus familiares estavam desde 1944 refugiados em Gmünd, esperando pelo fim da guerra em uma fazenda austríaca. Em 1946 fundaram a Porsche, num primeiro momento consertando jipes, tratores e máquinas agrícolas. Em 1947 Ferry Porsche, inspirado no conceito do Cisitalia 1100, decidiu construir um esportivo sobre a plataforma do Volkswagen (fusca).

Nasceriam os projetos 356/1 e 356/2, ambos construídos em alumínio. O primeiro, um esportivo conversível de dois lugares com motor entre-eixos e um leve chassi feito de arranjos de tubos metálicos; o segundo, em estilo berlineta, com espaço para bagagem e banco traseiro, construído sobre a conhecida mecânica Volkswagen.

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356/1 – protótipo inspiraria o futuro 550

O primeiro projeto, embora revolucionário, ficaria na fase do protótipo devido ao alto custo final. O segundo viria a tornar-se um dos carros mais desejados ao longo dos anos.

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356/2 – Construídos com itens dos Wolkswagen

Em Gmünd foram construídos, entre 1947 e 1949, aproximadamente 50 modelos 356/2. Estes eram artesanais, feitos muitas vezes com sobras de guerra e peças vindas da fábrica da Volkswagen em Wolfsburg – em 1950, já em Stuttgart, uma linha de produção mais eficiente seria implantada (e o alumínio abandonado).

Em outubro de 1950, no Paris Salon de l’Automobile, foi feito um convite formal para que os novos esportivos participassem da próxima edição das  24 Horas de Le Mans, que ocorreria nos dias 23 e 24 de junho de 1951. Para divulgar o produto e alavancar as vendas, Ferry Porsche decidiu inscrever dois carros na categoria 1.100cc. Era o retorno do sobrenome às pistas – Ferdinand Porsche, falecido em janeiro de 1951, foi um dos capitães das emblemáticas Auto-Union e Mercedes do pré-guerra .

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Dois modelos produzidos ainda na Áustria, o chassi 356/2-055, marcado com o número de corrida 47, e o chassi 356/2-063, com o 46, foram levados para a prova. Durante os treinos o #47 acabou avariado, não podendo ser recuperado a tempo. Isso fez com que a Porsche fosse apenas com uma força para a sua estreia nas pistas, sendo o carro pilotado pelos franceses Auguste Veuillet e Edmond Mouche .

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Estes dois carros foram especialmente preparados: os freios por tambor ganharam sistema hidráulico, substituindo os cabos dos carros produzidos na Áustria; a carroceria teve as rodas cobertas, herança das flechas-de-prata do pré-guerra; o motor teve que atender aos requisitos da classe 1100 cc de corrida, reduzindo a cilindrada do boxer Volkswagen de 1131 cc para 1086 cc, aspirado por dois carburadores Solex 32 PBI, levando com confiabilidade o carro de cerca de 640 kg a velocidades próximas aos 160 km/h.

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Sucesso surpreendente já em sua primeira aparição. Ao final da prova, Auguste Veuillet e Edmond Mouche levariam o time a vencer pela primeira vez, triunfando na sua classe e ficando em vigésimo na geral. Percorreram ao total 1.765 milhas, conseguindo terminar à frente de todos os carros da classe 1500 cc. Era o primeiro triunfo alemão em corridas após a Segunda Guerra, e a equipe repetiria o feito no ano seguinte, terminando em décimo-primeiro na geral.

Nascia o belo casamento da Porsche com as competições de longa duração.

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Este carro, o de chassi número 55, atualmente repousa no acervo de uma bela coleção.

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P.S.: A primeira parte, em itálico, é apenas um delírio meu.

Bônus:

Clicando aqui você confere a características técnicas do 356/2-55 da Mans/51, no site da Porsche.

Clicando aqui você confere um radar de busca dos cerca de 50 carros produzidos em  Gmünd/Áustria.

Bibliografia que usei para escrever esse post:

Livro;

Sandler, Paulo Cesar – Porsche. O homem, o mito, o carro.

Sites; (todos acessados entre 26 e 29 de abril de 2013)

Ficha da prova de 1951 -> http://www.lemans-history.com/provas.php?ano=1951

http://www.porsche.com/

http://histomobile.com/

http://autoconcept-reviews.com/

http://www.ultimatecarpage.com/

http://legacymotorsport.com/

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Fiquei extremamente feliz ao ver, no blog do meu amigo Rui Amaral, o vídeo que reproduzo abaixo.

O Rui e sua turma fantástica e ligeira nos fornecem onze minutos de história pura. Temos imagens ricamente gravadas, com vários momentos dos 500 km de Porto Alegre do ano de 1962. É muita sorte que esse material tenha se preservado e agora ganhe as telas, como também é que o responsável pelas cenas tenha acompanhado a prova percorrendo o trajeto, nos mostrando assim muito da dinâmica e do entorno do evento.

É o mítico circuito da zona sul Porto-Alegrense pulsando em vida, com carreteras cruzando os bairros Tristeza, Ipanema e Cavalhada numa época em que a urbanização engatinhava e as pessoas perambulavam pelas calçadas, das saídas de curvas, com a prova em curso.

Fico emocionado por ver essas pessoas, que estão distantes fisicamente da capital dos gaúchos, fazendo algo pela preservação da memória de uma cidade que cada vez mais se desconhece. Infelizmente uma fração mínima da população que cruza essas ruas atualmente clicará em alguns dos posts da barra lateral do meu blog para saber o que por ali acontecia, ou assistirá o vídeo abaixo identificando os locais, ou mesmo comprará bibliografias especializadas como o Automobilismo Gaúcho – Levantando Poeira, de Gilberto Menegaz.

Compete a poucos fanáticos  lutar pela preservação do que o automobilismo brasileiro produziu. E também corrigir erros comuns das histórias passadas de forma oral, como exemplo a confusão recorrente entre cenários, fotos, personagens e historias das 500 milhas de Porto Alegre, que acontecia no Circuito da Pedra Redonda, e 12 horas de Porto Alegre, que ocorria no Circuito Cavalhada – Vila Nova.

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O vídeo mostra os preparativos para a largada, corrida em curso e a chegada. Era 23 de setembro de 1962. Esta prova foi vencida por Orlando Menegaz de Chevrolet, seguido de José Galina/Genuíno Scarton, de Ford, e João Galvani/Gastão Werlang de Chevrolet.

O circuito de 12,5 km era completado pelos carros mais velozes em tempos de até 5 min e 12 seg, o que dá uma média de 144 km/h. Catharino Andreatta, da Galgos Brancos, perdeu a vitória na penúltima volta, abandonando por problemas mecânicos.

Orlando Menegaz, piloto de Passo Fundo, vencia completando as 40 voltas em 3 horas e 40 minutos, numa velocidade média de 136km/h

Vamos ao vídeo, e compartilho também as minhas observações:

1min18seg: O lugar da largada era no começo da Avenida Otto Niemeyer, calçada em paralelepípedos, e nesta região ficavam os “boxes” onde os últimos ajustes eram feitos nos possantes.

1min35seg: O Fusca-Porsche que largou tem receita e visual muito semelhante ao carro que participou das Mil Milhas Brasileiras de 1956, este só não tirou a vitória da carretera de Catharino Andreatta por culpa do seu cabo do acelerador. Esse fusca foi preparado por Jorge Lettry e completou a prova de Interlagos na segunda colocação.

1min50seg: Largada no começo da Avenida Otto Niemeyer, próximo a atual Rótula da Cavalhada, com os carros partindo em direção a Praça da Tristeza.

2min: O câmera provavelmente recuou, depois da largada, para onde fica a rótula atualmente, dali ele pega os carros vindo embalados da Cavalhada e dobrando para a Otto. Uma curva de 90 graus onde vemos o trabalho pra domar as carreteras.

3min: Agora avançamos para a região da Praça da Tristeza. Os pilotos chegam novamente embalados da descida da Otto e tomam o rumo da perigosa descida da Pedra Redonda, para entrar então na Av. Coronel Marcos, em Ipanema.

3 min 50 seg: Estamos agora no final da Wenceslau Escobar, prestes a fazer a perigosa descida da Pedra Redonda.

4 min 27 seg: QUE IMAGEM! O começo da descida, com o Rio Guaiba e a praia de Ipanema ao fundo.

4 min 55 seg: Agora estamos na Coronel Marcos, cenário muito parecido com o atual. As grandes pedras em torno do asfalto ainda podem ser vistas.

4 min 56 seg: Para de caminhar na saída da curva, rapaz burro.

5 min 47 seg: Acredito que sejam meninos como estes, sentados na cerca com capacete e óculos de aviador/motoqueiro, que hoje preservam estes eventos

6 min 10seg: A famosa Rótula da Caixa da água.

7 min 35 seg: Agora estamos na Estrada da Cavalhada, retornando para a Otto Niemeyer

8 min 20 seg: Agora tudo acontece na Tristeza, era ali que a bandeirada da chegada da prova era mostrada. O público se aglomerava perigosamente nas calçadas, tomava a delegacia da Brigada Militar e vibrava com o movimento.

Obrigado Rui, obrigado Graziela Marques da Rocha e obrigado Jô e Nelson Marques da Rocha – ponho vocês junto com Orlando Menegaz após a bandeirada do III 500 km da Pedra Redonda.

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Travessuras atômicas

O dicionário Michaelis tenta por que tenta me convencer que “travessura” pode ser “maldade infantil”. Como se adultos não fizessem das suas; como se toda traquinagem fosse oposição ao bem.

Como exemplo concreto, vejam o que este meu amigo aprontou já do alto dos seus 1m90cm de altura – princípios morais não me permitem revelar o seu nome.

Piloto querido da D3, defendendo a cor vermelha do seu “pinico atômico”, ele penava para acompanhar os Fuscas de Ricardo Mogames e Laércio, culpa de uma primeira marcha pra lá de longa que amarrava a sua largada. Pois o pequeno travesso, após uma noite de cálculos, decidiu apostar em uma relação de marchas onde a 1ª e 2ª fossem mais curtas, alongando a 3 ª e 4 ª, e com ela foi aos treinos.

Assim como criança que fez arte treme ao ser pega por um pai brabo, varinha de marmelo em mãos, piloto foge de chefe de equipe/preparador/mecânico furioso. O ponteiro espia do conta-giros, que marca o giro máximo alcançado e só pode ser “zerado” com uma chave, faz o papel de dedo-duro nessa história.

Acompanhem e imaginem a cena, no começo do treino:

“Mandaram eu dar umas voltas só para experimentar, ver se não vazava nada e estava tudo certo, para depois andar forte. Sempre deixava um Rolex que ganhei de minha mãe quando fiz 14 anos, uma relíquia, com alguém da equipe. Nesse dia escutei: Pô, para dar umas voltinhas, vai até sem luvas!

Quando estava saindo do Box, já entrando no Retão, vi que o espelho da esquerda estava fora do lugar e tentei colocar a mão pela vigia para arrumar. Todo desajeitado, coloquei a mão na vigia e meu precioso relógio soltou! Quando fiz o movimento para segurar, acelerei a barata – Acho que na 2ª marcha, quando vi o motor estava voando!!!! Olhei o conta-giros e estava a uns 9.000 rpm.

Fez um buraco no bloco, uma parte da biela foi parar uns cem metros longe, fiquei lá com cara de bunda esperando a bronca.”

Pois como também diz o Michaelis, travessura pode ser “malícia”. E por saber que iriam fazer arte esse meu amigo conta, ele que vive várias histórias, que vários pilotos entravam no carro com uma chave secretamente copiada na manga – assim podiam zerar o seu conta-giros e voltar aos boxes com caras de santos.

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Este post é uma homenagem ao amigo Rui Amaral, do baita blog Histórias que vivemos, e que se estende a todos os pilotos e fãs dos saudosos pinicos atômicos.

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Aquela morena, acostumada a virar pescoços por onde passava, andava agoniada. É que Vanessinha não mais encontrava a sua tão apreciada marca de bala de anis para comprar.

Linda como só ela, pela cidade com seus cabelos ondulados, olhar forte, barriga malhada, dois gatinhos tatuados, um em cada lado da cintura fina. Na sua pele sempre úmida, volta e meia, trilhas de suor desciam e levantavam pêlos; ela sentia muito calor.

Pois poucas coisas causam insegurança ou desconforto em Vanessa, a falta da sua bala preferida na bolsa é uma.  Nada a ver com código de cores ou afins. Embora a bala azul, sim, lhe trouxesse um pouco de calma. Em Minas era galo, todas as paredes de sua casa eram brancas, é nova demais para saber quem são os smurfs e dentre suas roupas de malhar, nenhuma era dessa cor.

Ocorre que Vanessa passou boa parte de sua adolescência enfrentando fortes cólicas. As balas de anis, com seu poder da erva-doce, viraram vício passeando na boca da morena e melhorando seus males físicos e espirituais.

As crises voltaram fortes e as balas sumiram do mercado.

As coisas também não andavam boas para o Jorge. Luthier de profissão, desiludido de ocasião. É cada vez mais raro alguém mandar fazer seus instrumentos musicais, e instrumentos musicais raramente quebram. Muito mais prático e rápido comprá-los prontos, mesmo que montados dentro de fórmulas pré-estabelecidas. “Artistas sem alma…” Resmungava.

Final do horário de almoço, no restaurante. Ao pagar a conta com a sua última nota de R$ 20,00, afasta o rock progressivo dos ouvidos para escutar de um constrangido funcionário:

Posso lhe dar o troco em balas? …é que fomos assaltados, o caixa está vazio…

Já em pé, na parada de ônibus, não tinha onde colocar as mãos. Num bolso da calça um Walkman, no outro, R$ 6,00 em bala de anis. As últimas da cidade, recebidas assim.

Olhando desanimado para o nada, achincalhando os deuses, reparou sem reparar na bela morena que parou do seu lado, suspirou, tirou uma bala do bolso e a abriu.

Vanessa estremeceu junto de suas cólicas . O cheiro, anis! Ela sempre conseguia o que queria, com sobras, então pediu uma, u-ma-zi-nha, para aquele estranho.

E sua bolsa pesou com aqueles R$ 6,00 em balas azuis.

E a tarde/noite daquele luthier desiludido foi inesquecível.

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O ano de 1988 teve uma temporada de Fórmula 1 que é lembrada com carinho pelos brasileiros. Senna vencia a briga com Prost na Mclaren Mp4/4, correndo longe do resto do pelotão e vencendo o campeonato mundial. O domínio da equipe inglesa era tamanho que obteve 15 vitórias em 16 provas. Berger levou o GP da Itália para a sua Ferrari.

Nesse ano comecei a acompanhar corridas de automóvel junto do meu pai. Era um barato começar a tomar gosto por elas desse modo. O grid da Fórmula 1 era bem povoado, colorido, havia a vibração natural pelo Senna, mas o carro que chamava a minha atenção era um pintado de azul.

A March afastara-se da Fórmula 1 em certas temporadas dos anos 70 e realizou um forte trabalho em categorias menores e na Fórmula Indy, com muito sucesso. No ano de 1987 retornou com força à principal categoria, tendo o aporte de uma imobiliária japonesa e utilizando uma adaptação do seu chassis de F3000 para o motor Cosworth V8. Aos trancos e barrancos a equipe dava novamente as caras com um único piloto, Ivan Capelli, e reforçava a sua identidade visual.

Era linda a combinação do tom de azul com o simpático logo da equipe.

Se nessa primeira temporada o time teve em pista apenas 1 ponto conquistado num sexto lugar em Mônaco, nos bastidores o trabalho para 1988 era forte.

Adrian Newey criava um dos carros mais belos que a categoria já teve, o March 881. Com motor Judd num sensual e envolvente desenho. Esse carrinho me fez torcedor fiel do time até o seu fim.

A bala de anis do colorido e cheio grid de 1988 trazia como pilotos o italiano Ivan Capelli, que entrava no seu segundo de cinco anos no time, e o brasileiro Maurício Gugemin. O motor Cosworth dava lugar ao competente Judd V8 de 3.5cc e aspirado, acomodado no chassi criado por Newey.

Na pista o carro chamava a atenção pelo lindo layout e por um belo estilo “garrafa de Cola-Cola”. Mas agora também havia bom rendimento e resultados em pista. A belezura incomodava a concorrência.

Vejamos. Capelli fechou a temporada na sétima colocação, tendo uma temporada regular e como melhores resultados a terceira posição na Bélgica e a segunda em Portugal. Gugelmin fecharia o ano na décima-terceira colocação, vivendo seu ponto alto em um quarto posto na Inglaterra.

Mas o carro de Newey tinha lá os seus problemas. Projetado em túnel de vento, de fora para dentro, deixava o piloto em apuros. No vídeo abaixo vemos Jackie Stewart avaliando, sem papas na língua, o carro para um programa de tv. O espaço para o piloto no habitáculo era mínimo, acomodar braços e pernas era um martírio, a ponto de membros ficarem dormentes durante a corrida. Tudo relatado pelo escocês, que concluía ser impossível retirar tudo que o carro podia dar de performance nessas condições.

Com beleza, velocidade e lá os seus defeitos, esse carrinho trouxe uma legião de fãs para a simpática equipe que, infelizmente, não emplacou e ficou pelo caminho no início dos anos 90.

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Obrigado, vô

Difícil. Aos 28 anos de idade perco meu primeiro parente próximo. Meu avô paterno acaba de ficar um pouco mais longe.

Ramos, nome do vô, foi um baita cara e teve uma bela vida. Soldado da ONU, patrulhou a Faixa de Gaza quando foi criado o Estado de Israel, depois foi professor universitário, pintor e chefe escoteiro.

O texto abaixo faz parte das suas memórias sobre o período em que participou do Batalhão de Suez. Seus diários dariam um belo livro.

DE MEU CADERNO DE VIAGEM

Através do Atlântico – O “Show” das Toninhas –

O Cemitério Brasileiro no Mar – Viajores Luminescentes

Vejam, são três aqui!… Não, são cinco, olhem!…” Correria sobre o chão de ferro, vai ribombando como num gigantesco tambor. E a calma do banho de sol é rompida.

Todos se apinham no bico da proa para ver o “ show das toninhas”, dizia o Paulo de Tarso, meu companheiro de missão. Vinham, graciosas, de todos os lados, e parecia que sentiam alegria ao encontrar o navio. Cinzentas e roliças, dois metros, contorcendo-se em lances coleantes e rápidos, o suficiente para manter-se alinhadas, lado a lado; sem atraso, por uma hora, junto da quilha. Ao saltarem até fora da água para se adiantar, elas tinham o cuidado de virar-se de lado e nos olhar, como se entendessem os nossos aplausos. Estamos a recordar momentos vividos a bordo do ‘’Ary Parreiras’’, navio transporte de tropas de nossa Marinha, no rumo do Oriente Médio, integrando a Força de Emergência das Nações Unidas, na missão de guardar a integridade da Linha de Armistício estabelecida entre árabes e israelenses, na Faixa de Gaza.

Agora, atravessando o Atlântico. Este oceano, hoje tão calmo, nos deu, por vezes, alguma preocupação, quando violentos vagalhões se voltavam contra nós.

Era a luta de Netuno contra Éolo pelo domínio desta imensidão. E o ‘’Ary Parreiras’’, com seus cento e vinte metrinhos de comprimento, vai seguindo, firme na sua rota …Dois dias fazia que alguém gritara: ‘’ Meu Deus, isso que é Fernando Noronha? … Só se vê pontas de pedra espetando o céu”, enquanto eu admirava o contraste das linhas duras do mastro e da sua amarração, a suavidade do céu, o seu azul lá em cima, o seu rosado era tão pálido e bonito no horizonte… mas aquela coluna densa de fuligem que o chaminé despedia em baforadas, à cadência em que pulsavam as máquina, subia quase perpendicular e, muito alto, espargia-se num cogumelo, sujando o azul tão puro. Tudo justificava aquele mormaço; nem brisa, só calor… O mastro então, é um pêndulo preguiçoso, enfiado no meio do cordame, teso e mudo…parece a piteira do meu companheiro aqui do lado, muito comprida e metida entre os fiapos do bigode… tudo é calma, calma demais….também pudera! O sol está gostosamente morno, parece estar aqui fumando, a olhar o céu. Mas de repente, toda a calma se esboroa. Jato de vapor muito branco insurge-se contra a coluna negra que sobe da chaminé e vai abrindo caminho para um desagradável silvo: “Puhuuu…” Soprado rouco, intempestivo e desagradável mesmo! É de pensar-se: “Será que este maquinista não respeita a” Lei de Sossego Em Alto Mar?”… Mas todos se levantam, embora de cara azeda para ouvir o alto-falante: “Golfo vinte e uno”– código de identificação do navio-“ Atenção tropa” – isso e pra nós, pensei – “ Atenção Guarnição!”- ih… não , é pra todo o mundo- conclui; mas talvez seja um daqueles exercícios de “abandono de navio,’’ quando a gente só tem que correr e se procupar com duas coisas: o salva-vidas e o lugar junto ao bote de borracha

‘’– Atenção! Em trinta minutos, formatura geral. Uniforme: O de Parada’’.

Na corrida para não se atrasar, não sentimos aquela meia-hora passar, então, já o sol era uma linda laranja, mergulhando no oceano e pintando de bronze a face dos oficiais reunidos no convés superior. O Comandante diz , emocionado, algumas palavras e lança ao mar uma grande coroa de flores. No mesmo instante a bandeira nacional, acompanhando o movimento do sol, desce do mastro, para repousar também, enquanto a coroa desliza sobre o cemitério brasileiro… nesta região, onde mais de trinta navios brasileiros foram torpedeados e afundados por submarinos alemães, durante a II Grande Guerra. O primeiro navio torpedeado foi o “Cabedelo’’ e o último foi o ‘’Campos’’, levando para as profundezas um milhar de criaturas, nos anos l942-43.. E a travessia continua. Você sabe como é o brasileiro, para cada momento, às vezes mesmo triste, arranja um piada. E isso muito ajuda para quebrar a monotonia de uma viagem longa.’’…Doze nós… desse jeito tiraremos nosso tempo como marujos…soltou essa alguém, mas já ouviu; ‘’Cala-te seu trouxa, o negócio é demorar mesmo, para ganharmos do Tio Sam, tutu verde, seu paspalho, verdinho, tá ?… De outra feita: sol fazia brilhar o dorso de uma baleia que esquichava no azul ao longe. Diz o ingênuo virtuoso ‘’Olhem, é toda branquinha, é a Moby Dick…. já alguém rebateu: É sim, pateta, mas a tetra-netinha dela, eu sou o Qui-Que-Quod e tu seu… és o filhote dela mesmo!’’ Vejam que coincidência e a ironia do momento. É que quem recebeu toda a carga de ironia, foi o pobre do gordinho Frederico. Nova ordem, ressoa, cortando nossas risadas: ‘’Golfo Vinte e Uno – o código de nosso navio- Amanhã, às cinco horas e trinta mintos, atravessaremos a Linha do Equador…’’

À noite, para evitar o beliche e o enjôo, fui esperar o sono bem sentado lá no meio da “ balança”- espaço no centro do navio. Mas queria olhar o mar. Então entrego-me à contemplação da massa leitosa que, ciclicamente, vem chocar-se contra o casco do navio. Referve espumante, afasta-se e deixa à mostra uma escuridão intensa, para depois tornar a investir, tão branca… rugindo agressiva. Num desses intervalos dos choques surdos na muralha ir de e férrea, fascinaram-me o olhar, milhares de estrelinhas convergindo para mim. Parecia que todas combinassem ir de encontro a um ponto situado a dois metros abaixo da linha da água e do meu olhar. Aglomeradas, agora, num foco grande e esférico, quase me ofusca a vista e, repentinamente, com uma explosão de luz silenciosa, afastam-se rapidamente, como se um circuito acumulado de carga elétrica fosse deflagrado.O que tanto me encantou, nada mais eram que esses maravilhoses viajores luminiscentes que se chamam “planctons”. Micro-organismos constituídos de moléculas de magnésio. São radioativos, portanto, e comestíveis. Enfim, uma curiosidade que se revela àqueles que contemplam a magnitude das pequeninas coisas deste grande mundo, tão pouco conhecidos por muitos.

Às duas da matina, encantado com reflexões, com essas visões fascinantes, tonto de sono, fui em busca do meu beliche no alojamento Avante I, arrastando os pés para não tropeçar em nada, ouvia o rugir das ondas que se agitavam por sobre a proa…. a porta de ferro ringiu para eu entrar. Alguém acordou e quis me gozar, vendo minha chegada como um duende madrugador: “Malandro, hein?, foi dar uma voltinha na praça…”

(Continua)

Sim vô, continua!

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Quem entra naquele estacionamento não demora a perceber que ali existe algo estranho. Entre as sessenta vagas existentes, uma ficou fora das últimas duas reformas do local; pintura da parede encardida, chão com vegetação alta, um Del Rey estacionado.

A cápsula do tempo, que volta para o início de 1988, época em que o carro foi desligado pela última vez, não é nada discreta. Externamente aparecem sinais da distância com o ano em que José Sarney começou a presidir o Brasil – talvez um observador mais atento e curioso perceba o jornal amarelado, com Marco Van Basten e sua Bola de Ouro, no banco traseiro. A ação do tempo sobre o imponente Ford é cruel.

O luxuoso  três-volumes do ano de 1984, na cor champagne-metálico, apodrece dignamente em meio aos seus nômades e frios colegas modernos. Ferrugem e  poeira são abundantes em toda a extensão de sua lataria, alinhada, com todos os frisos pedindo polimento, assim como os seus pneus murchos pedem por ar.

Mesmo quem apenas passa os olhos sobre o sedan nota, por culpa do cenário preservado, o respeito do dono do estacionamento por aquele veículo. E ele faz questão de contar para qualquer novo cliente sobre os curiosos anos de imobilidade do fordinho no seu pátio, e sobre alguns causos que o cercam.

E conta sobre como certa vez uma senhora, dona de um Fiat Prêmio vermelho que estacionava na vaga ao lado, descuidada abriu muito uma das portas, batendo no Del  Rey com força. A tinta vermelha marcou por um tempo a porta do carro, como um ferimento aberto que cicatriza; o Prêmio, dias depois, foi atropelado quando estacionado no centro da cidade por um Ford 11000, sem freios e carregado de brita.

Conta também da quantidade de pedreiros que se afastaram dos trabalhos para cuidar de ferimentos durante obras da primeira reforma do local. Uma pá caiu sobre o pé de um quando este tentava empurrar o carro para fazer o piso, outro caiu do telhado enquanto trocava a cobertura; hoje, nem a lâmpada queimada mais próxima é trocada, nem mesmo os cães do pátio se aproximam do Del Rey quando algum gato gordo foge para baixo dele.

E sempre fala que a mensalidade é depositada de forma exemplar, sem um dia de atraso.

O que ele não conta é que existe uma chave reserva daquele carro no seu escritório, e que nos tempos do Collor ele entrou nele para bisbilhotar. Encontrou um interior impecável, bancos praticamente novos, painel sem marcas ou riscos, 51100 km marcados no hodômetro e, no porta luvas, um mistério escrito à mão, guardado dentro do manual do proprietário:

1000km –  revisão

5000km  – revisão + balanceamento + alinhamento e rodízio

7500km – troca de óleo

15000km – Revisão + bateria + troca de tapetes de borracha (cortesia Ford)

(…)

31000km – Lua de Mel em Garopaba

(…)

45000km – Busquei o primeiro filho na maternidade

(…)

51100km – Restauração integral – lataria e mecânica.

Aquele carro espera o seu dono.

***

P.S.: O estacionamento da foto fica ao lado da minha casa. Aquele Del Rey está parado há muito, muito tempo.

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