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Archive for the ‘Sobre a vida’ Category

To Ramona*

Olha só esse brinquedo que deixo sobre a pequena tv do meu quarto. Hoje um simpático aposentado, robozinho íntegro que, embora cheio de marcas do tempo, figura como um singelo enfeite fazendo o lugar mais alegre.

Essa sua aparência frágil, bran-qui-nha, engana; nos tempos de batalha a intrépida engenhoca trabalhava duro. Segurando um mapa azul que indica um objetivo, lá ia ele procurando seu rumo pelos caminhos da casa, aos trancos e barrancos em um bate-e-volta angustiado que era seguido de perto por mim.

Havia horas em que as rodinhas fraquejavam e ele perdia a força. O chão que se pisa parece ser sempre o problema, não é? (Pelo menos para quem procura o seu caminho.) O carpete alto do quarto – daqueles que acumulam o pó que irrita o teu nariz – exigia demais das pilhas. Nele as tralhas que teimavam em serem vistas espalhadas pelo lugar também dificultavam a caminhada: a meia do futebol, o cadarço da chuteira, os carrinhos de metal, o jogo de pega-varetas, bolinhas de gude e gibis – não é fácil ser um brinquedo que procura seu rumo onde tudo é caótico e insalubre – mas ele ia, até onde a energia deixava.

Viu só? Pois então não desanima não, coração, que teu mapa azul também mostrará um rumo certo – mesmo que o pó irrite esse seu nariz de-vez-em-quando-sempre – e trate de fazer sempre o que acredita que devas fazer. Pinte o Sete, depois venha aqui assistir um pouco de tv.

*”carta” escrita em 10.08.12

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Como combato o ladrão da minha fé na raça humana? Esse tal parece estar sempre de prontidão. Na espreita, observando tudo, espera o momento certo e aparece num repente levando o que puder – a fé no ser humano sempre vai junto, de arrasto.

Ser uma pessoa do bem – e não “de bem”, esse tal modelo subjetivo de bondade usado por certas pessoas –  é estar sempre nadando contra uma forte corrente.

Nessa semana o pungista atacou novamente, roubou a nós todos de uma só vez.  Protagonista na estreia de um filme bobo de heróis, ele assassinou 12 pessoas e feriu outras 59 – famílias que foram apenas ver um filme bobo – vestido com roupas a prova de balas e carregando quatro armas. Antes, aparelhou todo o apartamento em que mora com explosivos que derrubariam o prédio.

Então, como venço o ladrão da minha fé na raça humana? Peço a legalização das drogas; critico a onda do desarmamento; voto por acreditar que algo mudará no governo; acho um absurdo o número de sinaleiras na minha cidade, mas esqueço de que demos totalmente errado.

A melhor forma de superar um roubo é reconquistando aquilo que foi perdido – humana e honestamente. Então. Lá vou eu novamente andar no meio da multidão, correndo riscos com a minha carteira no bolso, alguns trecos na mochila e o meu resto de fé nas pessoas à tiracolo.

* Texto escrito em um ônibus, na manhã de 20.07.

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Porto-alegrenses e cariocas em breve terão algo mais em comum, duas grandes pistas de corrida na sua “Sessão Nostalgia”.

Alguns bairros da capital gaúcha convivem com a rica memória dos circuitos da Cavalhada-Vila Nova e da Pedra Redonda, desativados no final da década de 60 em prol do Autódromo de Tarumã.

A capital carioca, por sua vez, relembra saudosa a pista com quase 12 quilômetros de extensão que, entre as décadas de 30 e 50, cortava a sua bela natureza. O Circuito da Gávea teve em suas curvas nomes como Barão de Teffé, Pintacuda, Landi, Hellé-Nice, trazendo ao Rio de Janeiro máquinas como os Auto-Union alemães – histórias, causos e velocidade no Trampolim do Diabo.

Agora é  Jacarepaguá, ou Autódromo Internacional Nelson Piquet, que virará passado ao dar lugar para um complexo olímpico. Este tomará o espaço ocupado antes por Piquet, Senna e Emerson (juntos na pista), Prost, Mansel… outros tantos nomes que aceleraram forte em categorias do automobilismo brasileiro e até da norte-americana Indy –  não se resume à Fórmula 1.

Assim como Porto Alegre, a cidade do Rio de Janeiro montou diversos circuitos além dos já citados – se acelerava onde fosse possível – todos viraram história.

É por essa rica tradição que o Rio não pode ficar sem um Autódromo.

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O filósofo e professor alemão Nietzsche criticou a industrialização quando essa modernizava e acelerava o mundo. Seus alunos estavam perdendo a imaginação, ficando menos inventivos – doavam mais tempo às máquinas bitolantes do que aos livros.

Ler, ler, ler…desde a antiguidade poucas atividades liberam mais a mente do que uma boa história. Intimamente, cada leitor molda seus personagens à trama proposta, desenha seus heróis e seus vilões, pinta o cenário, viaja no enredo – Nietzsche se surpreenderia ao ver como a imaginação tem vencido as seguidas modernizações, mesmo depois dos “dois mil”.

Imagina, Homem-Tempo*. Tu que sopras o teu sax sem medo, de bar em bar pela década de 40, tendo como estrada uma base bop de um conjunto de jazz maroto e nela deixando a imaginação criar de improviso frases e solos, senhor do tempo, do ritmo e do compasso; imagina pois ter o teu melhor solo tocado em outra época, num outro contexto – por outro artista, com outro instrumento – difícil funcionar, né?

Admiro a coragem do ótimo Walter Salles em abraçar o projeto de levar Jack Kerouac às telas do cinema, mas On the Road não deu certo. Talvez porque exista um Kerouac na mente de cada leitor – seu texto é pura imaginação; talvez porque não parece possível que uma reprodução de um improviso de jazz soe autêntica – o texto é um longo solo; ou simplesmente porque o resultado da minha leitura é mais denso e recheado que o produto que vi no cinema.

Achei o filme cheio de belas imagens, mas superficial e raso naquilo que realmente me fisga na obra – a reflexão de se estar em busca de um norte tendo diversos ímãs confundindo a bússola.  Marcante nas páginas do manuscrito, quase nada na tela do cinema.

* Homem-Tempo é o apelido que um músico virtuoso, Rollo Greb no livro, recebe quando os personagens do filme o observam no palco.

” (…) Quero ser como ele. Ele nunca se atrapalha, é capaz de entrar em qualquer uma, põe tudo pra fora, saca qual é a da vida, não tem nada a fazer senão seguir o ritmo. Cara, ele é o máximo!”

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Ano passado o Rodrigo Lombardi fez a arte abaixo. (Aqui o link do post)

Ele pegou uma foto que tirei  e mesclou com uma foto da “visita” que o Seu Breno fez à delegacia do Bairro Tristeza, em 1968.

1968 foi o último ano de corridas nas ruas de Porto Alegre, com Pedra Redonda e Cavalhada-Vila Nova.

Pois esses dias o filho de Breno Fornari, Alexandre, postou em seu Facebook a foto abaixo – Em outro ângulo vemos bem  o baita estrago que o Breno fez. Que pancada.

Então lá vamos nós para mais um “ontem e hoje”:

Lembrei do jogo Pedra, Papel e Tesoura. A pedra venceu? O artista Rodrigo responde abaixo:

 

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Levando para casa

Sim, é uma Monareta.

Não, eu não compraria as bicicletas do meu tempo. As tais Cross, BMX, cheias de plástico, apoio para pés e estranhas combinações de cores.  Prefiro  uma Berlineta, da Caloi, ou uma Monareta, da Monark.

A minha é de 1978. Eu nem era nascido, não foi meu sonho de criança, comprei pelo prazer de ter a magrela.

Pintura original, adesivos, banco, freio torpedo, buzina de carretilha – A Laranja Mecânica será bem cuidada e bastante pedalada.

Sid Barret, em sua psicodelia,  já cantava: “I’ve got a bike. You can ride it if you like. It’s got a basket, a bell that rings and things to make it look good.”

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Um dos grandes mitos dentro dos festejos juninos é a Barraca do Beijo. Não existe beijo de prenda bonita em troca de míseros cobres; ou talvez eu tenha freqüentado os arraiais errados – de família, alheios a momentos fugazes.

O condomínio em que eu moro costumava promover festas juninas. Os preparativos envolviam os antigos vizinhos na função das pizzas e cucas, fogueiras e barracas, bandeirolas e quentão flambado; a cadeia funcionava enquanto a fogueira ardia.

O clima para a criançada era muito bom. Aliás, junho deveria ser também o mês das crianças; não se faz outra coisa nessas festas senão brincar. A minha mesada, sagrada, contada, coitada, ia para o espaço feito balão. Meus cobres preciosos eram todos gastos em comida e nas barracas de jogos.

Até a abertura da festa o estoque das barracas era uma espécie de Segredo de Estado, era na casa do síndico que os prêmios eram escondidos.  Aliás, deve existir um código caipira que determina a hierarquia dos prêmios em disputa nas barracas: Tiro ao Alvo com Bola de Meia e Latas de Azeite, prêmios pouco atrativos – jogo de lápis, giz de cera, cadarços, bonés de loja de material de construção; Jogo das Argolas, prêmios medianos – shampoo, prendedor de roupa, sabonete, perfume, camiseta das últimas eleições; Barraca da Pescaria, abençoada seja – kit de maquiagem para elas, bola de futebol para eles, copos, canecas, cerveja, vinho, livros.

Aprendam, pequenos caipiras: os melhores prêmios saem na pescaria. Anzol de arame, vara de taquara, peixes de cartolina numa caixa de areia; foi em uma dessas que pesquei o meu.

No final da festa presume-se que o quentão está menos flambado e que os melhores prêmios já se foram, mas após pegarem o meu peixe, a surpresa: Veio do estoque um disco de vinil – sem arranhão, papelão perfeito, capa em preto e branco com um dirigível  – tinha 14 anos e pela primeira vez escutaria Led Zeppelin, disco de 1969.

“(…) O balão vai subindo, vem caindo a garoa. O céu é tão lindo e a noite é tão boa. São João, São João..”

P.s.: Para a pequena Mari, que viaja no balão de chumbo.

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