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Posts Tagged ‘Alicia Silverstone’

Os olhos curiosos daquele garoto de quatro anos procuravam captar tudo que acontecia dentro do lar daquela família. Corriam ligeiros os anos oitenta.

O pai, sempre ocupado, trabalhava o dia todo. Era visto no café da manhã, camisa alinhada, jornal do dia em uma mão, suco de laranja em outra, e depois novamente apenas no horário da janta, camisa já amassada, alguns botões abertos e toda a atenção voltada agora para o telejornal; que era transmitido na cozinha por uma Telefunken prateada, com cores saturadas e o seu irresistível botão do “vertical”.

A mãe, sempre às voltas com as suas atividades domésticas e as não menos importantes conversas com vizinhas da rua. Criativa ao extremo, quando não estava presa ao fervilhante ferro de passar ou nas sete novelas que acompanhava, fazia surgir de bolas de lã roupas coloridas e quentes que eram feitas com capricho e depois distribuídas para toda a família. Bem como as curiosas meias sem o pé, de usar na canela, que surgiam dos restos dessas lãs e eram ainda mais coloridas. Elas iam depois direto para a gaveta proibida da irmã mais velha.

A irmã, essa já passava mais tempo fora de casa do que dentro. Quando dentro, era vista sempre no canto do sofá, próxima ao telefone. Sobre o telefone, mais precisamente. As coisas dela eram tão estranhas ao seu mundo que ele preferia manter distância. Não entendia como ela conseguia falar tanto com tanta gente enquanto lia revistas e escutava música.

“Muito diferente esta minha irmã.” Pensava. Raramente entrava no quarto dela, território estranho, mas como a sua porta ficava no corredor que era caminho para o quarto do irmão do meio da família, acabava sempre cruzando por ele.

O irmão de dezesseis anos era o ídolo do garotinho. Procurava observá-lo sempre e imitava tudo o que ele fazia. Aprendia o modo “afuzel” que ele falava e queria as mesmas roupas “transadas” que ele usava. Mas não existiam calçados M2000 no tamanho infantil e muito menos moletons Benneton com estampas que brilhavam no escuro do seu tamanho.  Por isso o caçula não tirava a camisa azul de flanela que ganhou para fotos de um álbum de família. Era o mais próximo que conseguia chegar do estilo do irmão.

O irmão do meio era mesmo um tipo esquisito. Vivia cuidando da pele brilhosa e cheia de espinhas, com fios perdidos de barba que nem de perto apareciam ainda nas bochechas do caçula. Quando ele não estava no colégio, ficava trancado no seu quarto, com as mesmas músicas altas, na mesma seqüência de sempre. E de lá, como num ritual, saía para os intermináveis banhos, só interrompidos pelos gritos da mãe.

A memória visual de um garoto de quatro anos só não é maior do que a sua curiosidade. Certa vez notou que a porta do quarto do irmão não estava fechada. Enquanto a música alta rolava lá dentro, abriu fácil uma fresta e enfiou a cabeça porta adentro. A pequena tabela de basquete presa na parte de dentro dela fez barulho, mas o som alto abafou o ruído e, sem que o irmão notasse, parte de seu ritual foi descoberto.

O irmão do meio via, sem piscar, os clipes de uma banda de rock gravados em seqüência numa fita VHS, já gasta de tanto ser usada. Naquele momento ele repetia sem parar uma parte onde as duas “tias” que apareciam na tela eram tão mais bonitas que a sua irmã mais velha, e brincavam naquela música fazendo caras e bocas com tão menos roupas que a sua irmã mais velha, que mais uma vez o irmão caçula imitava o do meio. Ambos de olhos arregalados, impressionados.

Depois daquele dia, toda vez que o caçula ouvia de longe aquelas mesmas músicas  vindas do quarto fechado, sabia o que o irmão estava olhando. O coração curioso então disparava e a mente ia trabalhando. Mas a memória visual no mês seguinte já não era mais a mesma. Agora a imagem delas tomando banho de rio, antes de um trator grande andar sem um “tio” dirigindo, parte que mais o impressionou, ia sendo substituída pelos bonecos inocentes dos gibis que tinha.

E quando surgiu a oportunidade de reverter este processo, nosso pequeno herói não titubeou.

No café da manhã, família reunida, pai lendo o jornal, irmã mais velha e os dois garotos comendo as suas torradas, a mãe pergunta:

“Bebê, depois a mãe vai ir ao super, quer uma revistinha nova?”

“Quero!”

“E a mãe compra do Mickey ou da Mônica?”

“Quero a do trator mãe!”

“Será que o nosso pequeno será um engenheiro?”

P.s.: Singela homenagem para aqueles que, como eu, viveram esta época e agora terão a chance de ir ao show do Aerosmith

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