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Posts Tagged ‘analogia’

O amarelho voltou ao abrigo com cara de poucos amigos, exausto, todo descompassado. Ainda tonto pelo enorme sol que encontrara, olhou para os diversos companheiros inquietos e também cansados, observando a tudo desalentado.

Verde e roxo, quase sumidos, aproveitavam suas últimas horas de vida útil jogando forca após enfrentarem uma ave exótica. Enquanto tentavam esquecer a dura jornada, ouviam o marrom espalhando as últimas novidades do lugar: “O laranja dedurou a chegada de um suposto novo conjunto na gaveta, coisa fina, rosa púrpura é 4B parece(…)”.

O vermelho, muito impaciente e cheio de ideias, subiu em um resto esquecido de borracha e passou a bradar fortemente, completamente inspirado pelo Manifesto Cartunista ao qual vinha fazendo marcações: “Camaradas, essa opressão tem que terminar! Gastamos nossa energias para colorir o jardim dos outros! Fomos afastados do campo para nos desgastarmos até o fim aqui na cidade! Camaradas, só temos nossa cor para vender! Uma revolução se faz necessária!”

O azul, do outro canto, respondia igualmente aos gritos: “Colaboradores! Precisamos fazer o sistema funcionar, ele deve se reproduzir! A mão-nada-invisível deve nos utilizar até o nosso esgotamento para que então um novo conjunto seja aberto e passe também a colorir!”

Branco, nunca utilizado, fazia um ar blasé de quem nada compreendia – olhava fixamente para o competente apontador metálico enquanto tomava seu anti-depressivo com risco de tinta nanquim. E o cor-de-pele, causando ainda mais alvoroço na cena descrita, tentava organizar uma marcha para conscientizar a todos da herança racista que carrega…

…e o amarelo coitado, ainda tonto, a tudo olhava e apenas pensava: “maldita seja essa interminável moda dos livros de colorir!”

pencils

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Divido aqui uma tese nem tão absurda assim. Eu penso que, em uma pequena parte disso tudo, exista também culpa da Bosch.

Sim, jogo nas costas da empresa de Stuttgart um pouco da razão desta cada vez menor amabilidade humana. O pavio está curto demais, o raciocínio comprometido e as coisas boas e simples quase despercebidas.

A tecnologia escraviza o homem.  Aí está uma frase conhecida e batida. Afinal, não somos hoje totalmente dependentes da comodidade surgida ontem? E não optamos por ela, mesmo sabendo que as conseqüências nem sempre são as melhores?

O fato é que, na correria que eu observava no dia-a-dia dos adultos em meus tempos infantis, em alguns momentos notava um gesto de paz e reflexão. Na mesa de jantar, na cerveja em frente à televisão, na pescaria do feriado… Eles existiam e eram válidos.

Mas nenhum chegava perto daqueles que eu percebia durante os três, quatro, talvez cinco minutos que hoje, por culpa da Bosch, não existem mais. A máquina precisava de tempo, o homem o dava.

Ignição virada, afogador ou meia aceleração no pedal, olho no marcador de temperatura e a mente refletindo. Problemas, soluções, planos do dia revisitados e definidos enquanto o ponteiro da temperatura levemente se mexe. A aceleração vai sendo aliviada, testando a lenta do motor até o momento certo de sair.

Injeção eletrônica de combustível. Aí está uma parte do conjunto de motivos da atual falta de trato com o próximo percebida, do motorista que dobra a primeira curva ainda dando o nó na gravata, do cidadão que não respeita simples filas, daqueles que se satisfazem tirando de outrem qualquer tipo de vantagem inútil, de não mais existir a lei natural de que a minha liberdade termina quando começa a do próximo.

Talvez, e ai a minha tese deixa de ser esdrúxula, talvez apenas três, quatro ou cinco minutos de reflexão pela manhã fariam toda a diferença.

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Quem entra naquele estacionamento não demora a perceber que ali existe algo estranho. Entre as sessenta vagas existentes, uma ficou fora das últimas duas reformas do local; pintura da parede encardida, chão com vegetação alta, um Del Rey estacionado.

A cápsula do tempo, que volta para o início de 1988, época em que o carro foi desligado pela última vez, não é nada discreta. Externamente aparecem sinais da distância com o ano em que José Sarney começou a presidir o Brasil – talvez um observador mais atento e curioso perceba o jornal amarelado, com Marco Van Basten e sua Bola de Ouro, no banco traseiro. A ação do tempo sobre o imponente Ford é cruel.

O luxuoso  três-volumes do ano de 1984, na cor champagne-metálico, apodrece dignamente em meio aos seus nômades e frios colegas modernos. Ferrugem e  poeira são abundantes em toda a extensão de sua lataria, alinhada, com todos os frisos pedindo polimento, assim como os seus pneus murchos pedem por ar.

Mesmo quem apenas passa os olhos sobre o sedan nota, por culpa do cenário preservado, o respeito do dono do estacionamento por aquele veículo. E ele faz questão de contar para qualquer novo cliente sobre os curiosos anos de imobilidade do fordinho no seu pátio, e sobre alguns causos que o cercam.

E conta sobre como certa vez uma senhora, dona de um Fiat Prêmio vermelho que estacionava na vaga ao lado, descuidada abriu muito uma das portas, batendo no Del  Rey com força. A tinta vermelha marcou por um tempo a porta do carro, como um ferimento aberto que cicatriza; o Prêmio, dias depois, foi atropelado quando estacionado no centro da cidade por um Ford 11000, sem freios e carregado de brita.

Conta também da quantidade de pedreiros que se afastaram dos trabalhos para cuidar de ferimentos durante obras da primeira reforma do local. Uma pá caiu sobre o pé de um quando este tentava empurrar o carro para fazer o piso, outro caiu do telhado enquanto trocava a cobertura; hoje, nem a lâmpada queimada mais próxima é trocada, nem mesmo os cães do pátio se aproximam do Del Rey quando algum gato gordo foge para baixo dele.

E sempre fala que a mensalidade é depositada de forma exemplar, sem um dia de atraso.

O que ele não conta é que existe uma chave reserva daquele carro no seu escritório, e que nos tempos do Collor ele entrou nele para bisbilhotar. Encontrou um interior impecável, bancos praticamente novos, painel sem marcas ou riscos, 51100 km marcados no hodômetro e, no porta luvas, um mistério escrito à mão, guardado dentro do manual do proprietário:

1000km –  revisão

5000km  – revisão + balanceamento + alinhamento e rodízio

7500km – troca de óleo

15000km – Revisão + bateria + troca de tapetes de borracha (cortesia Ford)

(…)

31000km – Lua de Mel em Garopaba

(…)

45000km – Busquei o primeiro filho na maternidade

(…)

51100km – Restauração integral – lataria e mecânica.

Aquele carro espera o seu dono.

***

P.S.: O estacionamento da foto fica ao lado da minha casa. Aquele Del Rey está parado há muito, muito tempo.

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