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Posts Tagged ‘anos50’

…além do “banco da sogra”, existia a “mala do cachorro”.

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Algumas coisas marcam, não tem jeito. Cresci numa casa cheia de objetos que chamavam a minha atenção. Toda mesinha, prateleira, tudo aquilo em que colocavam o que eu não alcançava era uma tentação. Vasos coloridos vindos do Egito, bonecos de barro, telefone com luz, porcelanas… algumas, inclusive, eu consegui alcançar e quebrar.

Mas a vida no raso plano terrestre dos meus primeiros passos também me era interessante. Havia na sala um rádio que, se não me engano, meu pai que fez. Era ele uma caixa de madeira, bem trabalhada. Nas laterais dois falantes de carro e no centro um toca-fitas e um amplificador tojo.  O centro, aliás, era tapado por um vidro fumê que abria e fechava.

Pensem numa criança feliz. Bom, bastava eu ligar o rádio, fechar a tampa fumê e sentar olhando as luzinhas do tojo e suas piscadelas seguindo os graves das músicas; piscadelas fumês. Em um determinado momento o rádio sumiu, foi levado para a sala de trabalho do meu pai.

Esse rádio ficava sobre um leque de discos de vinil, e os discos em minhas mãos. Era só a casa ficar vazia e lá ia eu. Da coleção, o meu preferido era um que a minha mãe ganhou em 1979. O capricho do encarte dele, a trilha sonora de Grease – Nos tempos da brilhantina, é tão grande que eu achava que realmente pegava o bem mais valioso da minha casa. Tanto que até os dias de hoje ainda o temos por aqui, intacto.

Cresci e o filme também marcou. Esse musical, retrato da vida colegial americana dos anos 50, fisga fácil quem o assiste sem preconceitos. O primeiro amor e a primeira desilusão, o primeiro carro, rachas, músicas, gangues rivais…fórmula seguidamente repetida nos dias de hoje, mas Grease, só ele vem inocente lá da época dos discos de vinil.

Que tal estas três máquinas presentes em Grease?

Primeira) O Ford.

“…this car is automatic, It’s systematic,  It’s hydromatic…”

Com o início da segunda guerra mundial, a produção de automóveis nos Estados Unidos foi interrompida e as fábricas juntaram-se ao esforço de guerra na produção de armamento e do material bélico.

Um desses carros era o Ford De Luxe;  sua produção foi iniciada em 1941, e durou até a interrupção da produção em 1942.

Com o término da guerra e a escassez de aço e outras matérias-primas, a solução encontrada pela Ford foi à continuação da produção dos modelos pré-guerra, com pequenas modificações que agradassem o mercado consumidor.

Com a sua produção retomada em Julho de 1945, a Ford apresentava o mesmo carro, mas agora com três versões: Super, De Luxe e Super De Luxe. Havia três opções de motores, um seis cilindros em linha e dois oito cilindros em V, os míticos Flathead.

Esses modelos traziam soluções diferenciadas em um mesmo pacote, como um dos primeiros sistemas modernos de trava de volante com a chave da ignição, e também, a partida no motor era feita pressionando-se um botão no painel, como nos modernos keyless.

A chave de rodas do carro se transformava em uma antiquada manivela para ligar o motor em caso de pane da bateria, resquícios do pré-guerra.

Modificações eram feitas de ano para ano, a fim de diferenciar os carros. A maioria delas em pequenos detalhes como frisos, grade e outros pequenos detalhes que não mudavam a característica geral dele e nem o desenho de sua carroceria.

Devido á falta de aço para a indústria, uma solução prática criou um dos grandes ícones dos anos 50 e 60. Os woodies e suas carrocerias de madeira.

No filme, um exemplar de 1948 é reformado aos moldes dos hots da época, com peças de origem duvidosa, pela gangue dos “T-Birds”. Toda a operação acontece dentro da oficina do colégio Rydell High, para desespero de um professor. Este carro torna-se um dos personagens da trama, pois é preparado para um racha numa espécie de grande vala de concreto, a Thunder Road. Durante a disputa, o mocinho Danny Zuko deve vencer o líder da gangue rival em um trajeto de ida e volta

Segunda) O Mercury.


“…is necessary more than a shining painting to be successful on Thunder Road…”

O primeiro Mercury do pós-guerra de desenho totalmente novo trazia, além de estilo, um nome próprio.

Até então, todos os Mercury eram batizados pelo ano de lançamento, até o surgimento do Mercury Eight em 1949.

Com sua carroceria longa e arredondada, ele quebrava o conceito dos automóveis da época, que eram mais altos e quadrados, com seus para-lamas salientes e estribos largos.

Trazia um motor Flathead com oito cilindros em V, que geravam mais de cem hp, pouco mais do que os 90 hp do mesmo motor utilizado na linha Ford.

A Mercury era a divisão de luxo da Ford, e, por isso, seus carros traziam um melhor acabamento, com mais frisos cromados e requinte em sua construção. Isto justificava o seu preço mais alto.

Seu estilo e potência chamaram a atenção dos customizadores, entre eles George Barris, da Califórnia. Barris foi responsável, entre outros carros, pelo Batmóvel da série de televisão original dos anos 60.

Barris customizou seu primeiro Mercury Eight ainda em 1949, definindo um estilo que se tornaria à base da Kustom Kulture, com carros rebaixados, carrocerias modificadas e alisadas, pinturas com flames sobre bases candy e acessórios diversos, que valeram o apelido de Led Sleds, ou trenós de chumbo.

Toda gangue tem as suas broncas. A bronca do filme chamava-se Scorpions, a gangue rival. Durante a trama acontece à disputa na Thunder Road contra o Mercury 1951 de Leo, líder dela.

O seu carro, um conversível pintado em preto fosco com chamas, tinha um mecanismo que fazia soltar fogo da descarga. Durante a disputa, foram colocadas lâminas cortantes no eixo das rodas, que eram utilizadas na tentativa de estourar o pneu do carro adversário.

Terceira) A loira.


“…Oh Sandy baby someday when high-yi school is done…”

A Britney Spears está para a protagonista de Grease assim como a Cláudia Leite está para a Ivete Sangalo, e em ambos os casos, a copiada é bem melhor.

A linda Sandy de Grease ralou muito até que sua carreira emplacasse. Olivia Newton-John começou a cantar nos anos 60, fazendo relativo sucesso na Austrália. No inicio dos anos 70, cantando músicas de Bob Dylan, a então moradora da Austrália alcançou sucesso internacional e ganhou certa projeção, mas a carreira dessa cantora country teimava em não decolar.

Ao protagonizar Grease, que teve enredo adaptado ao seu sotaque australiano, finalmente Olivia encontrava o reconhecimento que tanto buscou. Interpretando uma jovem estudante australiana em intercambio nos Estados Unidos, cantando e dançando, o rosto da mulher de 30 anos entrava para a vida de muitas pessoas, pessoas que deram a este filme uma das maiores bilheterias já conquistadas por um musical, e que até hoje é querido.

No filme, a tímida e recatada Sandy passava por uma transformação, virando um mulherão. O mesmo rumo foi dado à carreira da cantora, que deixou o country rock para aventurar-se em músicas dançantes e com letras menos inocentes. Era chegado os anos 80.

P.s.:1) Rodrigo Lombardi (@lombardi13), do blog Hurbanos foi o co-autor desta postagem, ajudando nos assuntos “Vê-Oito-ísticos”

P.s.:2) Existe outra versão do Ford 1948 no filme, o Grease lightning era o carro dos sonhos do mocinho, que no final vira realidade

P.s.:3) Este blog nunca falará de John Travolta 🙂

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