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Posts Tagged ‘Bird Clemente’

Dou risada, debochado, cada vez que me lembro da grande possibilidade do quinto filme da franquia “Velozes e Furiosos” ser rodado aqui, em terras tupiniquins.

Eu não desgosto dos filmes da série. Pelo contrário, passo olhando as suas cenas, tranquilamente, por uns bons e despretensiosos minutos, acompanhado de pipoca e refrigerante. Quase tudo que envolve carros me atrai.

A indústria e o comércio também não desgostam dele. No embalo, tentam ganhar o seu dinheirinho lançando produtos similares aos que lá aparecem. Os neons pulsantes no assoalho dos carros, as calotas que giram independente da roda, adesivos de péssimo gosto, músicas grudentas como aquele Hip-Hop em japonês, os “Drifts” empurrados goela abaixo como se fossem a maior arte sobre rodas, jogos eletrônicos… estes são alguns dos modismos que cada edição trouxe, e que quero bem longe de mim. (O jogo, porém, eu aceito.)

Olhando para o meu redor, não vejo como ser feito aqui um filme que agrade ao público americano, e nem qualquer outro público que se enquadre como alvo dos produtores. A qualidade das nossas estradas, o nosso trânsito caótico sinalizado em português, os nossos carros sem cor, sem graça, sem cavalaria, sem tração traseira e sem qualquer outra coisa vista na série, exceto as mulheres.

Como fazer um produto desses dentro da realidade brasileira, que agrade gregos e troianos, sem que o resultado fique extremamente falso e caricato? E mais, que seja livre dos problemas com os sindicatos dos motoboys e dos taxistas das nossas cidades?

Difícil, mas vou brincar, criando um pedaço de roteiro baseado em história real e que certamente agradaria quem gosta do assunto.

Os primeiros fios de luz solar ainda tardariam a aparecer, mas o cenário estava longe de um óbvio e silencioso breu. À noite naquele outrora pacato terreno de aproximadamente 923.000m² fervia pela atmosfera da competição que rolava no caminho de asfalto, caminho este que já era reverenciado como parte de um templo para pilotos e suas máquinas.

A densa e costumeira neblina desceu com ainda mais energia. Nas arquibancadas da reta principal, um público umidificado pelo orvalho noturno colocava em teste o seu amor pelas corridas, e a força contra o sono, enquanto tentava acompanhar o que se passava na pista durante as Mil Milhas de 1967. O som vindo da nebulosa Junção indicava que subiam carros, em disputa, mas os fortes faróis ainda impossibilitavam qualquer identificação.

Dentro daquele Mark I amarelo, um piloto completava mais uma volta, acossado por dois perseguidores. Sereno no nebuloso traçado, ele deixava por hora de lado as orientações dos boxes, concentrado nos pontos referenciais para a perfeita tangência da veloz Curva 1. Junto dele, com faróis fortes e ofuscantes, dois carros de uma equipe estrangeira formavam uma incomoda companhia.


Curvas 1 e 2 vencidas, um Lotus da Team Palma de Portugal, aproveitando-se da velocidade em reta, encosta na traseira daquele Mark I, trazendo junto de si o outro carro da equipe, um Porsche 911.

Descendo a reta oposta, rumando a tangência da Curva 3, o luso em território quase desconhecido leva seu Lotus  para a parte interna da pista, era a deixa para o brasileiro, malandro, ligar uma chave sob o painel de seu carro.

O piloto português, ao ver as luzes de freio do carro amarelo vermelharem, desce marcha, exige dos freios, e o Porsche passa zunindo ao seu lado, ainda acelerando. Faltava um bom trecho para a tomada correta da Curva 3, os dois portugueses descobriam, assim, um dos segredos daquele piloto brasileiro, que perdia um perseguidor.

O piloto do Porsche que agora o seguia, e de muito perto na Ferradura, via respeitoso e admirado a lateral do esguio carro amarelo, que numa manobra controlada, jogava a traseira adiante, contornando de lado a fechada curva. Na lateral era possível ler: Bird Clemente,22.”

O roteiro por mim criado, um fantasioso encontro em pista de Bird com dois carros vindos de Portugal, desenrola-se durante as Mil Milhas de 1967, edição que teve a sua primeira participação internacional. A Team Palma veio do velho continente com um Ford Cortina, um Porsche 911 e dois Lotus Europa. As atrações brasileiras também eram fortes, o Fitti-Porsche, a carreteira do Camillo, Karmann-Ghia Porsche e Alfa GTA, entre outros.

Mas a dona da prova foi a equipe Willys, já sob controle da Ford. Brilharam as Berlinetas que ocuparam as duas primeiras colocações, descaracterizadas pela nova matriz, mas com as mesmas qualidades e características em pista. A prova foi vencida pela dupla Luiz Pereira Bueno e Luiz Terra, seguidos de Bird Clemente e Marivaldo Fernandes. Na terceira colocação da corrida os bravos portugueses Nogueira Pinto e Andrade Vilar, a bordo de um Porsche 911.

No meu delírio tupiniquim, Vin Diesel é Bird Clemente, Mitsubishi Eclipse é Bino Mark I e show de drift é coisa para português ver.

Bibliografia para este post:

http://www.interney.net/blogs/saloma/ , de onde colhi a foto da linda Lotus.

Mil Milhas Brasileiras – 50 anos , Lívio Oricchio

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Domingo foi ao ar a entrevista que Galvão Bueno fez com Emerson Fittipaldi para o seu programa “Histórias com o Galvão”, e o bate papo com Emerson foi muito bom.

Era a segunda vez que eu via o programa. Na primeira, a entrevistada era a heroína Maria Esther Bueno, nossa tenista pioneira que desbravou Wimbledon no início dos anos 60. Neste dia a conversa passeou sobre diversos e bons assuntos:  O começo, a ida para a Europa, a luta para superar a lesão no ombro que abreviou a sua carreira, o estilista que pensava as saias ousadas que instigavam suspiros dos cavaleiros sessentistas, fãs do ainda hoje elitizado tênis, entre outros. No geral, o resultado foi muito positivo.

Não costumam me atrair programas de entrevistas que exploram as lágrimas dos entrevistados, também acho desnecessário convocar o estúdio a bater palmas, não estariam merecendo o espaço dado se elas não viessem ao natural. Mas nesses dois casos, Maria Esther e Emerson, todos os excessos foram compreendidos.

A entrevista com Emerson foi um apanhado dos principais momentos de sua carreira. A importância do seu pai, o início no automobilismo brasileiro dos anos 60, a chegada na Fórmula 1 e a também pioneira ida para a Indy americana.

Foi interessante ouvir do próprio Emerson como as coisas aconteceram no intenso ano de 1970, principalmente na corrida de Monza.

Nela foi pedido para Emerson amaciar o carro do líder do campeonato Jochen Rindt para a corrida do dia seguinte. Colin Chapman  retirou a asa traseira do Lotus para que ele utilizasse o setup de Rindt. Num descuido admitido na época para Colin e no programa para o público,  Emerson errou o ponto de freada e destruiu o carro do Austríaco.

Chapman deu então para Rindt o chassis de Emerson e neste carro Rindt teve o seu acidente fatal. A Lotus se retirou em luto por duas corridas e no retorno, em Waltkins Glen, Emerson conquistou a sua primeira vitória na Fórmula 1, dando com ela o título póstumo para Jochen Rindt.

Toda a emoção é justificada. O período em que Emerson brigava por títulos foi também uma das fases mais perigosas do automobilismo. A luta dos pilotos para melhorias da segurança nos carros e nas pistas era acompanhada de novas fatalidades, e elas foram listadas no programa.

A entrevista seguiu com o sucesso da Lotus 72D, depois na McLaren e a bonita história da Copersucar, sempre à frente do seu tempo. A posterior conquista dos Estados Unidos, Indianápolis e a decisão de encerrar a carreira. Tudo colorido por cenas de arquivo e do documentário “O fabuloso Fittipaldi”.

Espero que nos próximos programas  outros heróis do nosso automobilismo tenham também a chance de contar a sua história neste espaço criado por Galvão. Nelson Piquet e Bird Clemente, por exemplo, surpreenderiam gerações mais novas com seus testemunho, basta lhes ser dado o espaço.

Após a entrevista decidi digitalizar um pôster do final dos anos 70 que tenho do Rato, e disponibilizar aqui. Em um lado o lindíssimo monoposto brasileiro Copersucar FD-04 (FD = Fittipaldi – Divilla), do outro uma caricatura do nosso simpático herói.

P.s.: A entrevista de Emerson pode ser facilmente encontrada no Youtube, dividida em seis partes.

P.s.2.: Um errinho de nada que passou batido durante a entrevista. Galvão comentou que Emerson vinha com sua turma assistir corridas em Tarumã e depois retornava para São Paulo. Na verdade ele vinha ver o Grande Prêmio Cidade de Porto Alegre, no circuito da Pedra Redonda, onde ele fez sua última corrida antes de partir para a Europa. Tarumã foi inaugurado em 1970.

P.s.3.: Piquet dando uma entrevista dessas para o Galvão? Sonhar, não custa nada…Mas quem sabe?

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