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Posts Tagged ‘Bizâncio’

O gosto por corridas nos acompanha desde muito tempo.

Homero, narrando a sua saga de Troia, colocou uma na história. O Canto XXIII da Ilíada conta os jogos fúnebres que Aquiles organizou em honra de Pátroclo, um dos bons momentos do épico.

A primeira prova dos jogos foi uma corrida de bigas, feitas de ouro e estanho, pela praia onde a força helena estava acampada. Como prêmios foram distribuídos por Aquiles: ao vencedor, Diomedes, uma bela e  “muito hábil” escrava, de “cintura baixa” e uma trípode (suporte com alças); Ao segundo colocado, Antíloco, uma égua vistosa, de seis anos de idade e prenha; O Rei de Esparta, Menelau, ganharia relutante um caldeirão “reluzente” pelo terceiro posto por ele alcançado.

As corridas com bigas deviam despertar na época o frenesi que um “pega” de carros desperta atualmente em nós – houve briga entre os tensos expectadores da prova narrada por Homero. Os romanos começaram a erguer o seu monumental Circus Maximus no Séc V a.e.C., ao lado do famoso Coliseu. Ali uma multidão acompanharia disputas com até 12 carros, bem como espetáculos teatrais.

Na região da Trácia, assim como os romanos, alguns gregos também construíram o seu. O Hipódromo de Constantinopla é objeto desse texto, tanto pela imponência da sua versão mais requintada como também pela importância dos eventos que ali aconteceram.

A Trácia é a região que acolhe o que hoje conhecemos como Istambul, na Turquia. Essa cidade nasceu como uma antiga polis grega, de pouca importância, chamada Bizâncio. Às margens do Bósforo, ela teve sua sorte modificada quando Constantino transferiu a capital do seu Império Romano do Oriente para lá, em 324 e.C.. Ele daria a antiga cidade-estado grega o nome de Constantinopla e a possibilidade de ser o que a Roma decadente já não conseguia: O centro cultural e religioso do mundo.

O hipódromo de Constantinopla teria função chave na nova capital do império, mas foi construído ainda antes da “fundação” de Constantino. Na polis grega ele tinha capacidade para aproximadamente 50 mil pessoas. A cidade cresceu em importância e viu sua população crescer, e também se encher de riquezas, o complexo foi então ampliado para as dimensões aproximadas de 450m x 150m, passando a comportar cerca de 100 mil expectadores.

Essas 100 mil pessoas vibravam em corridas onde até oito bigas podiam se enfrentar, tendo a tração de quatro cavalos cada uma, em provas que aconteciam na pista em forma de “U”.

Acomodados em arquibancadas ou camarotes, esse era um dos locais onde ocorria a interação do imperador com a população. Ele ficava em um espaço reservado, chamado “kathisma”, com acesso direto do seu Palácio. Mas quando dentro do complexo, o  imperador era obrigado a ouvir os gritos da massa – ficar indiferente não ajudava na sua popularidade dentro da cidade.

O crescimento de importância de Constantinopla na política da época se refletia em grandes investimentos nas obras públicas. O imperador Teodósio (379-95), após controlar ameaças externas e pacificar a região, implantou um plano de construções e ampliações dos prédios. Grandes avenidas e praças, muralhas, foro, estátuas, pórticos e uma grande ampliação e embelezamento do Hipódromo.

Trouxe da egípcia Karnak um obelisco do Faraó Tutmosis III, que seria “espetado” no centro da pista de corrida, junto de monumentos. Num deles aparecia junto de sua família observando as corridas e subjugando povos estrangeiros. Outro valioso item que embelezaria o complexo era um ornamento contendo três serpentes enroscadas, presente dos atenienses para o Oráculo de Delfos após a vitória na Batalha de Plateias.

Justiniano I (527-565) também empreendeu um plano de construções para a cidade, que tinha como protetora a Nossa Senhora. Ele procurou ressaltar a sua efervescência cristã, trazendo mosteiros e igrejas como a de Santa Sofia. Os católicos cristãos dessa Sé buscavam ser o centro influente do mundo, estudando culturas clássicas e o oriente, tendo como obsessão o sonho de suceder Roma como eixo de um grande império. Como exemplo disso, era encontrado na praça central da cidade um marco chamado Milion, em forma de Arco do Triunfo, com um mapa do mundo conhecido na época e de onde eram medidas todas as distâncias limites do império.

Como local de encontro da massa, o Hipódromo também foi palco de grandes derramamentos de sangue.

O Imperador Anastácio, aos 80 anos de idade, enfrentou uma disputa com o Patriarca – defensor da moral católica na cidade – em função da sua religião pessoal. Anastácio era monofisista (defendia que Cristo tinha uma só natureza, unindo o divino e o humano). Anastácio depôs o Patriarca e colocou um fantoche, que aceitou inserir frases do monofisismo em tradicionais hinos católicos cristãos, o que revoltou a população local.

Anastácio enfrentou a crise. Diante de um hipódromo lotado, discursou e ofereceu sua renúncia. Os expectadores ficaram abalados com o idoso imperador demonstrando humildade e o aclamaram fervorosamente. Mas tão logo a massa saía do hipódromo, Anastácio ordenaria que os guardas massacrassem a todos – a oposição era assim eliminada.

Havia na cidade fortes facções políticas, chamadas Facções do Circo. Caracterizadas como Verdes e Azuis, essas facções eliminaram outras menores. Os grupos organizavam eventos esportivos, reuniões, assembléias públicas e também inflavam revoltas nas ruas quando alguma medida do governante ia contra os seus interesses polarizados.

Os melhores esportistas defendiam as cores delas, logo, o esporte era também ligado às disputas políticas e à simpatia da população pelos personagens envolvidos. Anastácio mandou construir estátuas homenageando o  líbio Pórfiro, que corria – e vencia – pelos Verdes, facção que apoiava o imperador.

Em uma grande rebelião dos Verdes, a Catedral de Santa Sofia e boa parte da cidade foi tomada pelo fogo. Era a Revolta de Nika, que no ano de 532 fez o então imperador, Justiniano, responder com dura repressão aos rebeldes. Ele mandou sua guarda massacrar 30 mil membros da facção que se encontravam reunidos no Hipódromo, após os atrair para o local, confiscando também todas as propriedades de suas famílias.

Constantinopla foi fortemente pilhada durante a Quarta Cruzada, em 1204. Boa parte dos afrescos e riquezas foi levada para a Europa, principalmente para a Itália. Já em 1453 foi tomada pelos Turcos-Otomanos, que a rebatizaram e remodelaram a cidade com os costumes e estilos próprios do Islã.

Atualmente o Hipódromo de Constantinopla é um grande parque, contendo ruínas e histórias que Istambul herdou. Chamado de Praça Sultão Ahmet, ainda preserva parte das arquibancadas e restos de monumentos da espinha central, tendo o obelisco egípcio em destaque.

Ali heróis venceram e foram imortalizados em estátuas, imperadores enfrentaram o aplauso e a fúria da massa e muito sangue foi derramado em embates muito mais fortes que os atualmente revividos entre torcedores do Galatasaray e do Fenerbahce.

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Bibliografia para esta postagem:

Os Viajantes Medievais da Rota da Seda –  Editora UFRGS, 2012 – José Rivair Macedo

Bizânzicio. A ponte da Antiguidade para a Idade Médioa – Editora Imago, 2002 – Michael Angold

http://pt.wikipedia.org

Fotos de: http://www.arkeo3d.com/byzantium1200/links.html ,onde podemos fazer um passeio pela Constantinopla de 1200 e.c.

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