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Cegonhas

Na região sul do país, e não sei se é igual no resto, chamamos de “caminhão cegonha” os veículos que transportam carros, geralmente das fábricas para os revendedores.

No começo da produção automotiva em larga escala o transporte férreo, mais barato, era amplamente utilizado. Porém, com o passar dos anos, ágeis e versáteis veículos foram sendo desenvolvidos para entregá-los, principalmente nas áreas afastadas das linhas férreas.

O aperfeiçoamento da tecnologia embarcada nos automóveis, e em tudo que com eles se relaciona, sempre foi estimulado pelas pesquisas nas pistas de corrida. Tão logo as máquinas de correr passaram a representar a imagem das marcas e o seu poderio perante os concorrentes,  ganharam importância e receberam mais valor.

Transportar estes bens passou a ser uma tarefa tão importante quanto tirar, em pista, os resultados satisfatórios. Segurança no embarque e desembarque, conforto, aproveitamento de espaço, agilidade e aparência, as “cegonhas” dos carrinhos de corrida tiveram uma bela evolução ao longo dos anos.

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A Mercedes-Benz sempre foi um referencial para a concorrência e fonte de orgulho para o povo alemão. Na década de 20, o seu desempenho em competições como a italiana Targa Flório divulgava Europa afora o nível de sua engenharia. Nas duas imagens abaixo, do ano de 1924, vemos a adaptação de um grande sedan Mercedes tipo 28/95 para o transporte de carros. No caso, um Mercedes 2 Litros que fez fama nas pistas de corrida dos anos 20, com seu motor de 8 cilindros.

A Alemanha da metade dos anos 50 erguia-se da destruição e do atraso causado pela segunda guerra mundial. Nas pistas de corrida os carros prateados levavam, nas mãos de Moss e Fangio, entre outros, toda a tecnologia de ponta do supercarro de rua da época, o 300-SL “Gull Wing” (asas de gaivota). Para o translado desses veículos foi criado um espetacular e único espécime. Trata-se do Mercedes-Benz Rennabteilung, de 1954.

Esse super-veículo combinava, ao longo de seus 6,75 metros de comprimento por 2 metros de altura, características mecânicas e visuais do super-carro da fábrica, resultando numa linda caminhonete/carro.

Impulsionada pelo motor de seis cilindros em linha do esportivo 300 SL “asa-de-gaivota”, tinha um desempenho espantoso. Compartilhando também diversos ítens de acabamento com ele, bem como o padrão de estofamento, o Rennabteilung era utilizado como uma sofisticada e futurista ferramenta de marketing, atraindo a atenção de expectadores encantados. Foi aposentado em 1967, restaurado ao longo de 7 anos durante os anos 90, e, hoje, repousa no museu da marca.

Nos dias atuais a Mercedes volta a apresentar seus carros prateados na fórmula 1. O paddock mudou muito desde os anos 50, e agora, toda a logística é feita com caminhões que, além do transporte dos carros, ferramentas e dos veículos de apoio, convertem-se também em nababescos motorhomes escritórios. Neles, a marca é trabalhada, negócios são feitos e muito dinheiro circula. O charme e a ousadia, estes se encontram hoje no museu da marca.

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Os italianos sempre foram apaixonados pela velocidade. Essa paixão desenvolveu-se muito em função de bandeiras que rivalizavam nas estradas do país. Ferrari, Maserati, Lancia e seus pilotos inflaram o orgulho italiano.

Na imagem abaixo, de 1935, vemos duas figuras emblemáticas dentro desse processo. Sob a caçamba de um caminhão da Shell, repousa um carro da equipe Alfa-Romeo, então comandada por Enzo Ferrari. Na foto, ao lado de Enzo, está Tazio Nuvolari, que venceu neste ano Nürburgring-Nordschleife, mesmo com um carro inferior ao dos concorrentes.

O resultado da saga de Enzo Ferrari ao fundar a sua marca e a trajetória dos carros vermelhos nas pistas trouxe dinheiro e investimentos. No começo da década de 60 a escuderia já acumulava quatro títulos mundiais de pilotos e, com o bonito e inovador 156 F1, partia em busca do quinto.  Com as restrições de um novo regulamento, a equipe utilizou a experiência acumulada na Fórmula 2 para construir um carro com motor v6 traseiro de 1,5 litros, de desenho limpo e muito bonito de carenagem, logo apelidado de “sharknose”.

A escuderia investia pesado também nas provas de turismo, utilizando nelas variantes dos Ferrari 250TR. Cabia a robustos caminhões Fiat 642RN e 682RN a tarefa de levar a esquadra de Maranello, bem como ferramentas de manutenção e itens de reposição para os locais das corridas.

Nos dias atuais a equipe segue o padrão dos caminhões motorhomes que se fundem, virando escritórios e ambientes de recepção móveis. Nada mais apropriado, afinal, equipe nenhuma ganha mais dinheiro e faz mais política dentro deste circo do que a Ferrari. As cegonhas Fiat também ficaram apenas num passado charmoso.

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A inglesa Lotus, quando capitaneada por Colin Chapman, sempre representou revolução e velocidade, sem afastar-se de certa imagem garagista. Nos seus primórdios, Colin vendia kit cars para uso tanto urbano quanto em pistas, e começava a aperfeiçoar-se no projeto de monopostos. Na metade dos anos 60 a escuderia tinha uma estrutura sólida e era uma afirmada bicampeã mundial.

Foi a partir da aproximação com a Ford-Cosworth que o boom se fez. Colin tinha então uma gorda injeção financeira para dar corpo aos seus projetos, patrocínios de forte apelo visual eram angariados e a estrutura do time crescia. A Lotus 49 e suas seguintes versões obtinha sucesso na pista, e boa parte da estrutura era levada  através de um ônibus AEC Swift modificado.

Esse charmoso veículo esteve presente em três fases da equipe, estando pintada de acordo com os carros. O verde característico do time inglês em 1968, o Gold Leaf de 1969 e o preto com dourado da John Player Special, em 1971.

Em 1972 a Lotus era poderosa. A linda 72D começava o seu reinado e a estrutura seguia crescendo. Agora a equipe tinha um avião particular nas cores da JPS e, o velho ônibus adaptado dava lugar a um equipado veículo projetado especificamente para carregar os carros e o ferramental do então rico e ascendente time.

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Os nem sempre ricos pilotos independentes, e também os de categorias menores, sempre buscaram veículos funcionais e que não abocanhassem parte significativa do orçamento. Com o lançamento da Kombi, uma opção barata, ágil e de fácil manutenção passava a ser levada em conta.

O carro abaixo pertence ao americano Pete Lovely. Ele participou de corridas com modelos Lotus 49, compradas diretamente da matriz e utilizou, nos anos de 69, 70 e 71 Pete Lovely Volkswagen Inc. como nome de sua equipe particular. Nunca marcou pontos.

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Carros de corrida. O contraste com os veículos pelos quais são transportados é gigantesco. Mas a parceria, a partir do momento que as disputas afastaram-se do amadorismo, sempre foi necessária. Cada um no seu modo, ambos cumprindo o seu papel, como deve ser dentro de qualquer equipe.

Em nenhum outro local do mundo este contraste fica mais evidente do que na lunar paisagem do deserto de Bonneville, onde delicadas bolhas longilíneas rasgam o solo, em busca da média horária mais alta e, depois, voltam para a caçamba de um robusto e nada aerodinâmico bruto.

Bibliografia para este post:

http://www.racingtransporter.com

As duas fotos do Mercedes-Benz Rennabteilung foram gentilmente cedidas pelo Pierotti.

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