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Posts Tagged ‘Conto’

O amarelho voltou ao abrigo com cara de poucos amigos, exausto, todo descompassado. Ainda tonto pelo enorme sol que encontrara, olhou para os diversos companheiros inquietos e também cansados, observando a tudo desalentado.

Verde e roxo, quase sumidos, aproveitavam suas últimas horas de vida útil jogando forca após enfrentarem uma ave exótica. Enquanto tentavam esquecer a dura jornada, ouviam o marrom espalhando as últimas novidades do lugar: “O laranja dedurou a chegada de um suposto novo conjunto na gaveta, coisa fina, rosa púrpura é 4B parece(…)”.

O vermelho, muito impaciente e cheio de ideias, subiu em um resto esquecido de borracha e passou a bradar fortemente, completamente inspirado pelo Manifesto Cartunista ao qual vinha fazendo marcações: “Camaradas, essa opressão tem que terminar! Gastamos nossa energias para colorir o jardim dos outros! Fomos afastados do campo para nos desgastarmos até o fim aqui na cidade! Camaradas, só temos nossa cor para vender! Uma revolução se faz necessária!”

O azul, do outro canto, respondia igualmente aos gritos: “Colaboradores! Precisamos fazer o sistema funcionar, ele deve se reproduzir! A mão-nada-invisível deve nos utilizar até o nosso esgotamento para que então um novo conjunto seja aberto e passe também a colorir!”

Branco, nunca utilizado, fazia um ar blasé de quem nada compreendia – olhava fixamente para o competente apontador metálico enquanto tomava seu anti-depressivo com risco de tinta nanquim. E o cor-de-pele, causando ainda mais alvoroço na cena descrita, tentava organizar uma marcha para conscientizar a todos da herança racista que carrega…

…e o amarelo coitado, ainda tonto, a tudo olhava e apenas pensava: “maldita seja essa interminável moda dos livros de colorir!”

pencils

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LesMisBarricade

Pedro transformou-se em Pierre. E, apesar da torrente de suor que descia pela testa, viu-se atento, esguio e ágil, empreendendo forte luta armada. À semelhança do que seria um perfeito sans-culotte, trajes rotos e empoeirados, ele corria entre homens exaustos tendo em sua cabeça – realçado pelas chamas que atingiam um dos flancos da Grande Barricada – um típico barrete avermelhado.

Eau! Couvertures! Sand! Gritos de comando eram lançados aos montes atrás do imponente colosso, barreira com engenharia aperfeiçoada no passado recente em que os seus construtores eram amotinados fervorosos incendiando Paris. Barricada erguida rapidamente como parte de uma série de bloqueios criados para impedir o acesso à Assembleia Nacional e proteger a massa de Guardas Nacionais e de vários outros miseráveis que, no momento, apagavam os focos de incêndio e reforçavam as estruturas – homens que defendiam apaixonadamente as grandes conquistas populares dos anos anteriores, soltando na atmosfera a fé de que se repetisse a mesma eficiência que outrora transformou os bairros parisienses em espaços fechados de resistência. Ah! Aquela Revolução! …desses eventos que resultam em ruptura, mudança de rumo – por vezes são ruins, mas aquela foi boa!

Vindo ao encontro de toda essa massa, os invasores. Pedro, ardendo em febre, se contorce na cama sob forte delírio. O suor agora banha as roupas e chega aos punhos que se cerram. Em direção da Grande Barricada que uns tantos Pierres defendem – como uma torre cruzando a linha de um tabuleiro de xadrez imaginário erguido em plena Champs-Elysées – a Bastilha em escombros marcha sedenta de vingança. Sua torre surge no outro lado da murada, e apenas ela impede o passado odiado de desconstruir a nova ordem. E a resistência delirante fraqueja no primeiro golpe da Bastilha ao paredão, que recebe o improvisado reforço ombro-a-ombro de seus defensores.

E a odiosa instituição, já derrubada, sem poder, sem prisões, sem vigias ou paióis carregados, busca reaver o antigo espaço através de diversos golpes que se repetem teimosos… E o delírio ganha ares anacrônicos: outros chegam para somar ao cerco, formando um bloco desejoso em tomar de assalto as conquistas de tantos outros Pierres. E um rei do Antigo Regime, seguido de seus fiéis aristocratas, empurra a Bastilha em direção à Grande Barricada; e atrás desses aristocratas um Diretório corrupto faz sua parcela de força contrarrevolucionária, seguido de um Bonaparte derrotado e humilhado com seu exército imaginário dentro de um chaveiro de Santa Helena; e a Inglaterra imperial passa a colocar suas chaminés acinzentadas e suas máquinas a vapor ao trabalho, também para derrubar a Grande Barricada; e os burocratas perfeitos de Hannah Arendt se juntam a empurrar, enquanto fazem chover propagandas e panfletos ilusórios sobre as cabeças dos perseguidos Pierres; e um gelado exército vermelho de armas defasadas se soma à força, seguidos por incontáveis contingentes de homens de pescoços vermelhos e uniformes verde-oliva, todos procurando no céu outro Enola Gay que voe em direção à resistência, todos empurrando a massa disforme enquanto arrastam carroções carregados de produtos chineses.

E Pedro acorda, encharcado e exausto, exatamente 30 minutos antes do horário usual do seu despertador tocar. O mal-estar que o acompanhava durante a noite anterior agora deu lugar a uma fome que desde muito tempo não aparecia nessas horas da manhã. No canto do quarto, repara nos apontamentos da aula que aprontou para o dia organizados na escrivaninha. Uma classe de alunos o espera, embora o sonho delirante não lhe saia da cabeça – enquanto empurram contra, forçam passagem e tentam destruir as conquistas e os direitos adquiridos, lutam seguidamente as novas gerações em busca de preservação, fortalecendo as antigas e construindo muitas novas barricadas.

de rendre à l’antique esclavage!

Rafael Dias Santos, 05/06/2014.

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Quem entra naquele estacionamento não demora a perceber que ali existe algo estranho. Entre as sessenta vagas existentes, uma ficou fora das últimas duas reformas do local; pintura da parede encardida, chão com vegetação alta, um Del Rey estacionado.

A cápsula do tempo, que volta para o início de 1988, época em que o carro foi desligado pela última vez, não é nada discreta. Externamente aparecem sinais da distância com o ano em que José Sarney começou a presidir o Brasil – talvez um observador mais atento e curioso perceba o jornal amarelado, com Marco Van Basten e sua Bola de Ouro, no banco traseiro. A ação do tempo sobre o imponente Ford é cruel.

O luxuoso  três-volumes do ano de 1984, na cor champagne-metálico, apodrece dignamente em meio aos seus nômades e frios colegas modernos. Ferrugem e  poeira são abundantes em toda a extensão de sua lataria, alinhada, com todos os frisos pedindo polimento, assim como os seus pneus murchos pedem por ar.

Mesmo quem apenas passa os olhos sobre o sedan nota, por culpa do cenário preservado, o respeito do dono do estacionamento por aquele veículo. E ele faz questão de contar para qualquer novo cliente sobre os curiosos anos de imobilidade do fordinho no seu pátio, e sobre alguns causos que o cercam.

E conta sobre como certa vez uma senhora, dona de um Fiat Prêmio vermelho que estacionava na vaga ao lado, descuidada abriu muito uma das portas, batendo no Del  Rey com força. A tinta vermelha marcou por um tempo a porta do carro, como um ferimento aberto que cicatriza; o Prêmio, dias depois, foi atropelado quando estacionado no centro da cidade por um Ford 11000, sem freios e carregado de brita.

Conta também da quantidade de pedreiros que se afastaram dos trabalhos para cuidar de ferimentos durante obras da primeira reforma do local. Uma pá caiu sobre o pé de um quando este tentava empurrar o carro para fazer o piso, outro caiu do telhado enquanto trocava a cobertura; hoje, nem a lâmpada queimada mais próxima é trocada, nem mesmo os cães do pátio se aproximam do Del Rey quando algum gato gordo foge para baixo dele.

E sempre fala que a mensalidade é depositada de forma exemplar, sem um dia de atraso.

O que ele não conta é que existe uma chave reserva daquele carro no seu escritório, e que nos tempos do Collor ele entrou nele para bisbilhotar. Encontrou um interior impecável, bancos praticamente novos, painel sem marcas ou riscos, 51100 km marcados no hodômetro e, no porta luvas, um mistério escrito à mão, guardado dentro do manual do proprietário:

1000km –  revisão

5000km  – revisão + balanceamento + alinhamento e rodízio

7500km – troca de óleo

15000km – Revisão + bateria + troca de tapetes de borracha (cortesia Ford)

(…)

31000km – Lua de Mel em Garopaba

(…)

45000km – Busquei o primeiro filho na maternidade

(…)

51100km – Restauração integral – lataria e mecânica.

Aquele carro espera o seu dono.

***

P.S.: O estacionamento da foto fica ao lado da minha casa. Aquele Del Rey está parado há muito, muito tempo.

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