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Vai ter Copa

Charge genial de um jornal dinamarquês

dinamarques

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Salvo você ter cabulado essa aula, a física nos ensinou, nos tempos de colégio, que as ondas são perturbações que se propagam por alguns meios, levando energia, mas não matéria.

Ela ensina também que as partes da onda que não vibram, os chamados nós ou nodos, ao se encontrarem, criam as interferências destrutivas.

Durante as próximas linhas, contarei uma passagem dessa semana que me fez comparar realidades e desconstruir por completo o estudo de ondas que tive no colégio.

Dezoito horas da tarde, fim do expediente. De barriga cheia e corpo quente me desloquei, numa vibração positiva, para a parada de ônibus.  Cabeça nas nuvens pelas compras para meu carro, feitas pela internet minutos antes, e também pelas músicas do último do Vitor Ramil; agora elas também povoam o meu mp4, que desde ontem, quer trocar o “mp” pelo “Iphone” no seu nome.

Em uma rápida caminhada de alguns estribilhos, lá já estava eu em pé, no meio de muitas outras pessoas e suas respectivas vibrações. Na minha direita, em determinado momento, uma fila impaciente aguardava alguém descer da porta de entrada de um coletivo, para, então, poder tomar o seu rumo.

Do frio de treze graus, vi sair corrido daquele ônibus um garoto que deveria ter por volta de catorze anos. De chinelo de dedos, bermuda, e camiseta de mangas compridas, ele deslocou-se para uma região menos povoada da estação, retirou da mochila que carregava nas costas uma caixa de sapatos cheia de tubos de balas de goma, sortidas, daquelas que todos compram por causa das vermelhas. As balas de goma eram a matéria que aquele garoto trazia, e, tentaria vender com a sua energia para aqueles que, como eu, aguardavam o seu ônibus.

De canto de olho, acompanhei algumas abordagens dele pela minha direita.  Vi que era simpático o rosto sofrido do guri, os pés brancos me lembraram do frio que fazia, o vento o trazia junto de um pouco de cheiro de cola. Sim, o garoto trazia consigo cheiro de cola.

O guri chegou então a mim, de frente, olhos meio perdidos, me encarou. Sem pensar em nada tirei os fones, desarmado, para ouvir:

”Tio, compra uma balinha? Para me ajudar…”

De pronto veio à mente algumas lembranças. Nos meus catorze anos, na minha turma, ainda poucos amigos tinham computador. O Geovani do 101, companheiro de artes aprontadas, tinha um pc com Windows 3.11. Aquela máquina rodava tudo que existia na época. Para mim, tudo que existia na época em matéria de informática eram os jogos que vinham nas revistas, após passar pelas páginas dos consoles.

Para adquirir esses jogos, fazíamos vaquinhas para comprar caixas com quinze disquetes. Depois, pegávamos os classificados de domingo, escolhíamos o jogo do mês e íamos até algumas galerias do centro rechear aqueles disquetes. Cada jogo custava tanto quanto o número de discos que ele ocuparia, assim, Prince of Percia  foi um jogo barato de um disquete, enquanto Monkey Island  custou o valor referente a seis. Tudo isso era um luxo para a época, e eu tive esses luxos.

Hoje, teríamos algumas dificuldades para lidar com a (falta de) tecnologia de dezessete anos atrás. Internet engatinhando, fila de espera para telefone fixo, celular tão grande e pesado quanto caro…

Esse garoto que me abordou representa um atraso pré-histórico até mesmo para o garoto de catorze anos que eu fui, com meu conforto classe-média baixa e todas as minhas oportunidades, e falo isso no ano de dois mil e dez.

Não comprei as balas. Nunca compro nada e nem ajudo alguém que me aborde em sinais vermelhos e afins. Não cabe a mim prover um dinheiro mínimo, que certamente não alterará em nada a vida do cidadão que está pedindo. Isso é tarefa daqueles que agora, empurram com a barriga o começo das obras para um futuro evento internacional no nosso país, já pensando em mais verbas futuras e menos controle nos gastos, pois, certamente, assim que a coisa ficar realmente feia, um plano emergencial para a Copa do Mundo será instituído.

Naquele momento houve em minha vida, diferente das ondas que viajam em um meio, um encontro de dois nós, ou melhor, dois de nós, que provocou, sim, uma interferência construtiva. Me fez refletir.

Como será a vida daquele garoto nestes próximos quatro anos de “investimentos”, dos Pac’s, dos novos estádios e das prometidas mudanças de infra-estrutura e mobilidade?

E nós com isso?  Grandes chances de, em breve, sermos atores perante os olhos estrangeiros, escondendo a sujeira embaixo de um tapete novo e, muito provavelmente, super-faturado.

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