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Posts Tagged ‘esporte’

A nossa qualidade

Motor de combustão interna, elétrico, carro movido pelo vento, carrinho de lomba no declive. Um veículo sobre rodas, uma equipe batalhando para deixá-lo mais veloz e confiável que os outros, pilotos disputando quem terminará em primeiro na corrida, seja ela qual for.

Gostar realmente de automobilismo não se resume em acompanhar a categoria máxima, acomodado no sofá, para depois confrontar os veículos de comunicação e seus comunicadores. Isto é muito pouco.

Existe uma história para ser estudada. Os principais cenários, fatos, carros e equipes. Quais foram às referências dos pilotos atuais, quais foram os diferenciais de cada um. Quem gosta, fuça.

Existem diversas categorias. Muitas atraentes, outras nem tanto. Com disputas corpo-a-corpo ou contra o relógio. Provas de longa duração, Rally de regularidade, de velocidade, monopostos, protótipos, turismo, categorias amadoras ou não. Quem gosta, acompanha.

Existe o cheiro de borracha e combustível queimado, o barulho do motor, do deslocamento de ar, do incentivo da torcida, do contato do veículo com o solo. Quem gosta, vai ver in loco. Se possível, até participa. Sai de casa, da comodidade. Vai à campo, vive o esporte.

Exatamente como no futebol, onde a camiseta de última geração, que faz o atleta transpirar menos pela metade do peso, a chuteira colorida feita com algum material exótico, que potencializa o chute, o tapete verde que é o gramado da arena que vira estádio coberto em dias de chuva. Estas e outras “bio-tecno-novidades”, nenhuma o representa verdadeiramente.

Na rua sem tráfego, no campo de várzea, na série C, com bola de meia, com uma surrada perdendo gomos, num campo marcado com riscos de tijolo, na trave montada com pares de calçados, no bate-bola com o filho num domingo no jardim; quem gosta de futebol não se contenta com a televisão.Vai à campo, vive o esporte.

Quem diz que torce apenas para a seleção nacional em Copa, por exemplo, não gosta deste esporte.

A internet facilita a vida de todos. Ela possibilita que todos nós acompanhemos em tempo real os eventos que a televisão não transmite, ou que o carro da nossa família não alcance. Nela existem os portais especializados, independentes ou não, com equipes que buscam cobrir o esporte, e as suas histórias.

Quem se prontifica a fazer uma cobertura, não pode reduzir o mundo do seu trabalho a apenas uma categoria, ou pior, captar a audiência através da torcida pelos patrícios, nem sempre eles existirão.

Não só no automobilismo, mas também na vida, gostar realmente de determinado assunto sempre leva a observação e ao estudo; esse processo resulta na qualidade das opiniões próprias. Cabe a cada pessoa filtrar o material que tem acesso, descartar o que não acrescenta, procurar alternativas e querer aprender sempre mais. Assim nos preparamos para a vida, aprendemos uma profissão, e através desta mesma fórmula realizamos diversas tarefas menores do nosso dia-a-dia.

O telespectador que conhece bem o assunto veiculado tem noção da qualidade das informações que nele chegam. Ele ridiculariza quem as manipula, quem não dá créditos para fontes, quem tenta formar ídolos na marra ou ignora outros. Ele sabe também que o responsável pelo produto veiculado, os patrocinadores, merecem total reconhecimento.

Automobilismo é um esporte rico, amplo e global. Este último, com “g” minúsculo.

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Na efervescente Inglaterra da década de 60, romper de forma juvenil aos padrões que a sociedade impunha significava entrar para o time liderado por Brian Epstein. Jovens do sexo masculino, espelhando-se nas capas dos vários singles lançados pelo quarteto mágico, gastavam horas ao espelho, munidos de uma tesoura, até alcançarem um perfeito penteado Beatle.  Apenas assim eles teriam a atenção das garotas que gastavam por sua vez horas decorando letras do Please Please Me, sonhando com o nariz do Ringo e ensaiando os berros que usualmente chegavam antes dos Beatles, onde quer que eles fossem.

Todos queriam ser o quinto Beatle!

E ele surgiu naturalmente no futebol inglês. Irlandês, para ser mais preciso.

O meu ídolo no mundo das quatro linhas era um meia ousado, rápido, driblador e carismático. Jogador de um dos times mais populares da Inglaterra, o Manchester United.  George Best tinha todas as características de uma estrela inglesa, era boa pinta, irreverente, diferenciado no que fazia, possuía o indefectível cabelo Beatle, que ao passar dos anos cresceu para os ombros, como cresceram as barbas, e os abusos…

O maior ídolo da torcida dos Red Devils nunca teve uma postura de atleta. O seu talento para se destacar dentro de uma partida de futebol era proporcional ao número de mulheres que o acompanhavam e ao consumo de bebida fora dele. E como se destacava em campo!

Boêmio convicto, Best seguidamente não comparecia ou se atrasava aos treinos, mas compensava com arrancadas que levantavam a torcida e aterrorizavam os marcadores.

“Em 1969, eu abandonei as mulheres e o álcool. Foram os 20 piores minutos da minha vida”

O alcoolismo matou George Best, mas enquanto teve saúde para jogar, seu talento se destacava frente aos demais.

A categoria máxima do automobilismo tem um passado recheado de histórias e heróis. Costumamos chamar de “fase romântica“  a época em que tudo que hoje seria absurdamente perigoso e inconcebível acontecia.  E eram tempos maravilhosos esses onde charutinhos cravejados de rebites desafiavam cortantes guard rails. Onde depois inventivos garagistas procuravam o caminho da inovação ao invés da imitação, criando coloridos e heterogêneos carros em grids de corridas que fizeram o esporte ganhar dimensão mundial. E onde os riscos e as perdas fizeram o bom senso buscar diminuir as chances de algo errado acontecer nesse esporte.

Um dos últimos expoentes da fase romântica da Fórmula 1 era um típico ídolo inglês da década de 70.

Com o som e a atenção de George Harrison, Lauda e Fittipaldi viram esse inglês cabeludo vencer o campeonato de 1976 e freqüentar o paddock mantendo um estilo de vida similar ao do quinto Beatle Irlandês que já não brilhava tanto nos campos ingleses.

James Hunt era mulherengo, fumante não apenas de cigarros, gostava de festas e bebidas. Tal como Best, ele chegou à condição de ídolo admirado pelo seu talento durante o exercício da sua profissão, independente de ser ou não modelo de comportamento.

Não vejo o esporte apenas como ferramenta de desenvolvimento e modelo para a juventude, pelo menos não quando excessivamente unido ao politicamente correto.  Mais do que isso, tenho um atleta como um ser humano buscando superar seus concorrentes e seus limites próprios, mas não deixando de ser um ser humano, como eu.  Acho falso e irritante querer que os expectadores e consumidores se identifiquem com pessoas sem defeitos, sem vícios, com máquinas de treinar e vender produtos na televisão.  Não somos e nunca seremos assim.

Claro que tenho uma capacidade muito maior do que um pré-adolescente buscando referenciais em diferenciar o que prejudica uma pessoa em sua vida, mas os atletas que são coerentes com as suas personalidades e as expõem de forma honesta, conquistando seu espaço frente aos demais pelo talento acompanhado da figura humana, sempre me serão mais interessantes que os enlatados e insossos preferidos da mídia e dos patrocinadores.

A importância de seguir a cartilha que dita às relações com os patrocinadores tem tirado dos atletas a espontaneidade frente às câmeras, criando uma relação falsa do fã com seu ídolo. Deve ser sempre um desconforto querer regrar a personalidade perfeita do esportista padrão quando aparecem anti-heróis que cativam e se destacam, sem que para isso deixem de mostrar a pessoa que brilhou pelo talento antes que por sua imagem e/ou comportamento.

Talvez por isso eu tenha lamentado tanto a saída de Kimi Raikkonen do esporte que aprendi a amar olhando para o seu passado. Kimi, além de ser um dos melhores pilotos quando nos seus dias, é dono de um impagável mau humor, personalidade forte e não disfarça a sua atração por bebidas destiladas. Kimi se destaca nesse mundo, ele fará falta dentro e fora das pistas da Fórmula 1.

George Best era o quinto Beatle, Kimi Raikkonen corre com o pseudônimo de James Hunt, que George Harrison adorava; todos especiais, únicos e marcantes.

Meus ídolos, apesar de imperfeitos.

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