Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘Ícaro’

“O bico da ave que voa, é a proa da nave que voa…”

Vem da Mitologia Grega o relato da primeira relação do homem com um par de asas, o desejo de voar partiu da necessidade de escapar de um labirinto.

Dédalo era um grego de alma imunda que, enciumado pela presença de espírito de Talo ao criar uma serra a partir de uma espinha de peixe, empurrou o pobre grego de um penhasco. Os deuses gregos, sentindo a morte estúpida que Talo teria, o transformaram em pássaro durante a queda. Talo bateu asas, livre, enquanto Dédalo foi aprisionado com seu filho Ícaro na Ilha de Creta, do rei Minus.

Minus ordenou que Dédalo criasse um labirinto para aprisionar Minotauro, figura metade homem e metade animal, fruto de uma relação extraconjugal da esposa real Pasífae com um fantástico touro branco como a neve, enviado pelo deus Posídon para legitimar o trono de Minus.

Dédalo criou o labirinto pedido, onde o Minotauro foi aprisionado. Porém, ajudou a rainha Pasífae a manter encontros com a criatura mutante no labirinto, o que fez um furioso Minus o aprisionar dentro da nova construção, junto de seu filho Ícaro. Pobre Ícaro.

Dédalo, inspirado no modo como os deuses livraram Talo de uma morte estúpida, criou um par de asas para seu filho, utilizando madeira, penas e cera. Ícaro voou, mas quando livre e bastante entusiasmado, o jovem esqueceu os conselhos de seu pai para voar em uma altura média, onde o calor do sol não derretesse a cera e nem a umidade do oceano aumentasse o peso das penas.

Ícaro subiu mais do que podia, derretendo a cera que prendia as penas na estrutura de madeira, caiu e desapareceu para sempre nas águas do oceano.

**********

” As vigias da nave que voa, são os olhos da ave que voa…”

O sonho de voar perseguiu as mentes mais engenhosas, de Leonardo da Vinci até desconhecidos malucos com desapego as suas vidas e muita vontade de testar as suas máquinas. Diversas tentativas para manter no ar estruturas mais pesadas que ele, capazes de se sustentarem no céu através da passagem de ar por suas asas, anulando a gravidade, foram feitas. Mas os aviões, invenção disputada nas vírgulas pelos Irmãos Wright e por Alberto Santos Dummont, só emplacou mesmo com a Primeira Guerra Mundial.

Do ano de 1914 até os dias de hoje, os aviões vêm sendo estudados e aperfeiçoados com interesse. Esse  estudo alavancou avanços em diversas outras áreas, trazendo novas tecnologias e aplicações de suas ciências.

**********

“O coração da ave que voa, é o motor da nave que voa…”

No final dos anos 60 o automobilismo era novamente um esporte em crescimento e a Fórmula 1 uma categoria afirmada. Os projetistas começaram a aplicar nos bólidos o conceito invertido das asas dos aviões, para aumentar a força de atração dos carros à pista de corrida.

Na época em que os bólidos com asas ainda engatinhavam em experimentalismos, a Força Aérea Americana já enchia seus porta-aviões com os lindos caças F14 Tomcat, que podiam fechar ou abrir o ângulo das suas para possibilitar maiores velocidades, principalmente em mergulhos.

**********

“As asas da nave que voa, são as asas da ave que voa…”

Seguiu-se de forma paralela o desenvolvimento dos aviões e o dos carros de corrida até os dias atuais, com uma evolução monstruosa na técnica de usar o fluxo do ar nos carros. No ano de 2008, um monoposto de Formula 1 era o ápice dos apêndices aerodinâmicos; um empilhamento de asas que tanto grudavam o carro no asfalto como impossibilitavam qualquer tentativa de ultrapassagem por parte de quem vinha atrás, tamanha a turbulência gerada pelo carro a frente.

No ano de 2008, um dos caça mais avançado da Força Aérea Americana era o F22 Raptor, muito parecido visualmente com o F14 Tomcat, aquele lá do final dos anos 60. A evolução maior ocorreu nos materiais, propulsores e na tecnologia embarcada. Para os olhos de um observador pouco entendedor do assunto, o desenvolvimento ao longo desses 40 anos não resultaram em grandes mudanças.

**********

“A alma da ave que voa, é a alma do homem que voa.”

A tecnologia nas corridas de automóvel correu atrás do atraso, mas, em relação ao domínio das forças aerodinâmicas, houve um exagero no desejo de “voar baixo” nas pistas. A contra-medida para o estágio em que era quase impossível para um piloto ultrapassar um carro bem mais lento veio nas limitações impostas quanto ao uso destes apêndices, medida que trouxe os estranhos carros de 2009 e suas imensas asas dianteiras.

Mas o fascínio pelos brinquedos aerodinâmicos parece não ter fim, e o que mais é comentado durante os primeiros treinos livres para a temporada de 2011 de Fórmula 1 têm sido as asas traseiras ajustáveis. Agora os pilotos poderão, em alguns trechos das pistas, após autorização prévia da torre de controle, acionar pelo volante um mecanismo e facilitar o fluxo de ar na asa traseira de seus carros.

A intenção é possibilitar um ganho de velocidade que facilite uma manobra de ultrapassagem. Parece-me mais uma extravagância passageira desta categoria de corrida de carros.

Na minha mente, a habilidade de um piloto ou o seu melhor conjunto mecânico deveria fazer às vezes desse aparato aerodinâmico, que só pode ser visto semelhante nas ruas em veículos de altíssimo desempenho. Mas o regulamento possibilita aos engenheiros ganhar desempenho explorando o uso do ar, e eles são mestres nisso.

Não compreender o perigo no uso extremo das asas matou o pobre Ícaro na Mitologia Grega, e vem aos poucos matando a graça das corridas de automóveis.  Botões abrindo e fechando comportas na traseira de uma barata não me atraem nem um pouco, mas talvez fascinem um jovem Ícaro jogador de vídeogame. Pobre Ícaro

**********

Trechos utilizados da música “Vôo”, do grupo Secos e Molhados

A imagem do funcionamento da asa traseira da Ferrari F150 foi retirada do site http://hotsites.atribuna.com.br/atribuna/f1/blogdaf1/

Read Full Post »