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O Portal

riverraid

Outra lembrança: a chave seletora “tv – videogame”  que ficava atrás da televisão. A caixinha, pendurada por duas conexões quebradiças, era uma espécie de portal de entrada para outra dimensão – ela separava os programas que a minha família assistia das minhas aventuras no Atari.

A chave corria em uma canaleta direto para a posição correta, fazendo com que a imagem do cartucho do videogame fosse projetada no canal da tv. Caso algum ajuste fino fosse ainda necessário, existiam no meu aparelho de 14 polegadas os controles do “vertical” e “horizontal”, pois algumas televisões cortavam partes das telas dos jogos – geralmente onde ficavam as contagens de tempo e a pontuação.

Certa vez entrei num dilema, e só esta caixinha mágica podia me ajudar. Acontece que ia passar um episódio imperdível da Super-Máquina  (compreendam, todos eram), e eu havia finalmente ganho o cartucho do Hero – que tanto jogava quando ia na casa daquele vizinho que não emprestava suas coisas. Para sair dessa, minha mente bolou a seguinte estratégia: colocando a chave seletora no meio do caminho entre as posições “tv” e  “videogame” eu certamente conseguiria dividir a minha tela e fazer as duas coisas ao mesmo tempo! Claro!

Triste ilusão. Devo ter perdido uns 10 minutos tentando. Ah, o fracasso. Desliguei tudo, coloquei videogame e cartuchos no rack, peguei minhas coisas e me mandei pra rua brincar. Naquele tempo a gente – pasmem – brincava na rua; porém, hoje vocês podem dividir a tela das televisões sem complicações. Estamos empatados?

caixa-seletora

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P.s.: Esse texto saiu depois que o @e001 publicou em seu twitter a sua primeira compra de 2014, um Atari. Verdade ou não, afinal troll não tem coração, o textinho surgiu.

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Aprendi o que é liberdade no alto do Morro do Osso, subindo uma estradinha ao lado da casa em que morei nos meus 12 primeiros anos de vida.

O terreno onde ela foi construída era exageradamente grande, eu nunca podia brincar do lado de fora do espaço murado. Do portão gradeado via as casas dos vizinhos, carros e  a piazada jogando bola – Aquela estradinha que subia pro nada começava depois de uma goleira.

Um dia meu pai apareceu com varetas, papel, barbante, cola e outras coisas que eu via na hora da bagunça, no intervalo da creche. Devia ser feriado, devia estar marcando chuva. Acompanhei todo o processo que transformou os materiais em uma pandorga, certo de que um dia faria a minha. Naquela, o meu “Graal” das pandorgas, apenas colei um R decorativo – Eu e meu pai temos nomes que começam com a letra “r”.

Num daqueles dias seguintes a cola já tinha secado e não havia mais o que conferir no projeto. Felizmente não estava nos planos do pai brincar com ela no pátio de casa, isso me deixava tremendamente excitado. Tudo em mãos, portão aberto, poucos passos e descobria que, depois de onde improvisavam a goleira do futebol, vinha uma subida de 10 minutos – No começo de dezembro os pinheiros de Natal saíam lá de cima para acabar na sala da casa.

Como zumbia o vento no nylon! A pandorga voava mesmo, incrível. Em poucas horas ela tomou forma na cozinha e foi virar brinquedo, num lugar perto de casa onde não havia pressa, medo, muros nem grades. Só vento – Enchi um saco com recortes de jornal, colocava eles na linha e o vento tratava de levar até lá na pandorga.

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Engraçado. Lembrei disso tudo ao ver o projeto abaixo, uma beleza de carrinho de fundo-de-quintal, com motor VW 1200cc e Kit Okrasa. Varetas, papel, barbante, cola e outras coisas que eu vejo na hora da bagunça.

Será que o dono tem filho? Será que ele acompanha o projeto? Aonde será que os três vão zumbir com o vento?

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Nas minhas leituras me deparei certa vez com uma frase que marcou: ’’Um povo sem memória do passado é um povo sem futuro’’. Essa frase, que infelizmente não achei a autoria, pode ser perfeitamente adaptada para um indivíduo em formação que vê as primeiras cores do mundo que o cerca, tira dos adultos os exemplos, filtra o que é bom do que não presta e assimila essas informações na formação do seu caráter; um ser humano construindo seu caminho.

Sou de uma geração privilegiada, ainda não éramos bombardeados por novos e aprisionadores produtos eletrônicos a cada nova semana. Cresci nos anos 80, não mais época dos brinquedos artesanais feitos com latas e muito esmero pelos avôs artistas e que enfeitavam as estantes dos netos mimados, mas ainda tinha muito das gerações anteriores. Éramos crianças com brinquedos de criança. Nos anos 90 houve uma ruptura, triste ruptura.

Montei meus carrinhos de rolimã, empinei pipa-caixão, jogava taco no meio da rua, perambulava com calças de moleton e suas joelheiras de couro para tapar os furos; andava sobre ki-chutes com garras gastas em virtude das intermináveis freadas sem freios ABS. Meus pais tinham também condições de me dar caprichos como o moderno e caro videogame Atari, mas ele não exigia exclusividade. Foi uma infância equilibrada.

Das muitas lembranças que ficaram deste tempo, guardo com saudade as reuniões dos amigos em torno de uma brincadeira que aprimoramos.

A minha turma descobriu um jogo de corrida de tampinhas de garrafas de vidro na base do peteleco. As tampinhas eram impulsionadas numa pista feita com a lateral do chinelo arrastada na areia das pracinhas e era recheada de obstáculos desafiadores.

Em pouco tempo, num estalo de pura criatividade e engenharia, as tampinhas foram substituídas por carrinhos montados a partir de prendedores de roupa (pregadores).  Cada ‘’piloto’’ montava na sede de sua escuderia – seu quarto – os seus projetos.

Os meus eram feitos com todo o capricho. Escolhia os melhores prendedores do varal (motivo de cascudos maternos), montava, pintava com canetinha e acrescentava o diferencial (sempre devemos buscar um), de colocar cera de vela na sua superfície inferior. Ficava uma beleza, deslizavam ágeis pelas retas. Por questões de segurança muitas vezes acrescentava ainda um útil aerofólio de palito de picolé.

A brincadeira toda era um evento. A construção da pista feita em conjunto dividia opiniões,gerava discussões e criava a expectativa de tirarmos vantagem dos trechos onde sabíamos que nossos carrinhos eram melhores. Os leves nos saltos, os pesados nas retas, os largos bloqueando os trechos estreitos.

As regras eram simples. Por sorteio escolhíamos a ordem de largada. Um peteleco para cada jogador por vez. Saindo da pista se voltava para a posição original e batendo em outro carrinho, voltávamos um palmo do jogador batido na posição que ele determinasse.

Minha equipe teve uma história bonita e vencedora. Comecei minha carreira com o Raf-1, carrinho de desenho simples, muito leve e baixo. Adorava enterrar a sua dianteira na areia fofa.

Logo o troquei pelo Raf-2, réplica da Benneton de um alemão que surgia nas pistas reais, com seu bico de tubarão, em uma altura do campeonato que eu já beliscava minhas primeiras vitórias.

A equipe seguiu se aperfeiçoando e logo nascia o imbatível Raf-3, uma Williams estilizada que conquistou inúmeras e memoráveis vitórias. Foi meu melhor formulinha.

Na medida em que a brincadeira se desenvolvia, aumentava a competição entre os participantes pelo carro mais bonito, marca que eu humildemente alcancei com o Raf-4, uma releitura do Raf-1, mas com design campeão. Réplica quase perfeita de um monoposto real, ele exigiu uma tarde de trabalhos na oficina de meu avô.

Com ele não obtive o mesmo sucesso que o Raf-3, eu já estava em idade de dar peteleco nas meninas que só olhavam para rapazes mais velhos, mas foi o carro mais bonito que eu conduzi. Meninos mais novos o imitavam para depois se gabar orgulhosos para outros ainda mais novos.

Certa vez em dia de prova de português entrei no colégio com o bravo Raf-3 estacionado no bolso da surrada calça de moleton quando me deparo com uma pista muito grande, feita com dedicação pelos alunos dois anos mais velhos do que eu. Meus olhos brilharam, Spa me veio à mente. Sim, tinha uma Eau Rouge, ao menos a minha imaginação viu uma.

Os desafios da prova de português foram trocados pelos desafios daquela pista. E eu larguei mal. Meu peteleco era mais fraco que o dos rivais mais velhos, mas o Raf-3 era valente. Era minha vez de jogar e eu estava em quarto, à frente uma reta daquelas que meu carrinho devorava fácil com uma boa petelecada, um morrinho e uma ponte feita com um sarrafo de madeira.

Com concentração e ousadia eu mirei a borda e dei o comando. Raf-3 deslizou calçado no assoalho plano turbinado com cera de vela, ultrapassando os três ponteiros e aterrisando maroto sobre a ponte. Olhares incrédulos e admirados me atingiam, não esbocei nenhuma reação com medo de levar uma surra. Um a um os carros tentaram passar a ponte bloqueada e, ao bater no meu carrinho estacionado tal e qual Schumacher em Mônaco, ganhavam uma bela penalização de um palmo. Administrei a vantagem me valendo da experiência adquirida na pracinha do meu prédio e levei pro currículo a maior vitória do Raf-3.

Lembro de ter tido pouco tempo para fazer aquela prova de Português, mas o esporte amador é cheio de dificuldades no nosso país.

Hoje tenho saudade daquele meu grupo de amigos unidos em torno da brincadeira com os Formulinhas, colocando os joelhos na areia e passando agradáveis horas envolvidos numa atividade completamente saudável e segura. Nunca mais vi crianças brincando disso, deve ter sido o trauma pela perda do Senna… Algo aconteceu, o jogo é apaixonante!

O fato é que hoje os prendedores de roupa estão seguros, cumprindo a sua função ímpar de prender roupas nos varais das casas dos pré-adolescentes cujos dedos dão petelecos em botões de jogos eletrônicos. Quanto aos meus carrinhos, hoje todos descansam imponentes numa caixa metálica; Raf-4 com o piloto-cabeça de fósforo decapitado, conseqüência de alguma disputa à Gilles-Arnoux, todos carregados de histórias.

Não existem mais remendos de couro nos joelhos das calças de moleton.

P.s.: Tive como inspiração para este texto esta postagem do Flavio Gomes:

http://colunistas.ig.com.br/flaviogomes/2010/01/06/meus-botoes/

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