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Posts Tagged ‘Jack Kerouac’

O filósofo e professor alemão Nietzsche criticou a industrialização quando essa modernizava e acelerava o mundo. Seus alunos estavam perdendo a imaginação, ficando menos inventivos – doavam mais tempo às máquinas bitolantes do que aos livros.

Ler, ler, ler…desde a antiguidade poucas atividades liberam mais a mente do que uma boa história. Intimamente, cada leitor molda seus personagens à trama proposta, desenha seus heróis e seus vilões, pinta o cenário, viaja no enredo – Nietzsche se surpreenderia ao ver como a imaginação tem vencido as seguidas modernizações, mesmo depois dos “dois mil”.

Imagina, Homem-Tempo*. Tu que sopras o teu sax sem medo, de bar em bar pela década de 40, tendo como estrada uma base bop de um conjunto de jazz maroto e nela deixando a imaginação criar de improviso frases e solos, senhor do tempo, do ritmo e do compasso; imagina pois ter o teu melhor solo tocado em outra época, num outro contexto – por outro artista, com outro instrumento – difícil funcionar, né?

Admiro a coragem do ótimo Walter Salles em abraçar o projeto de levar Jack Kerouac às telas do cinema, mas On the Road não deu certo. Talvez porque exista um Kerouac na mente de cada leitor – seu texto é pura imaginação; talvez porque não parece possível que uma reprodução de um improviso de jazz soe autêntica – o texto é um longo solo; ou simplesmente porque o resultado da minha leitura é mais denso e recheado que o produto que vi no cinema.

Achei o filme cheio de belas imagens, mas superficial e raso naquilo que realmente me fisga na obra – a reflexão de se estar em busca de um norte tendo diversos ímãs confundindo a bússola.  Marcante nas páginas do manuscrito, quase nada na tela do cinema.

* Homem-Tempo é o apelido que um músico virtuoso, Rollo Greb no livro, recebe quando os personagens do filme o observam no palco.

” (…) Quero ser como ele. Ele nunca se atrapalha, é capaz de entrar em qualquer uma, põe tudo pra fora, saca qual é a da vida, não tem nada a fazer senão seguir o ritmo. Cara, ele é o máximo!”

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Resignado, não verei Dylan amanhã.

Eu me conforto por aqui. Lembrando que em breve On the Road estará correndo, numa grande tela, para uma grande audiência.

 “Nos intervalos, corríamos até o Cadillac e tentávamos descolar umas garotas, rodando para cima e para baixo pelas ruas de Chicago. Nosso carro enorme, cheio de cicatrizes, profético, as aterrorizava. Em seu frenesi descontrolado, Dean dava marcha a ré de encontro aos hidrantes e ria como um maníaco. Pelas nove da manhã o carro era uma ruína completa; o freio já não funcionava, os párachoques estavam destroçados e o câmbio rangia. (..) Parecia uma velha bota enlameada e não uma limousine flamejante. Pagara o preço da noite. (…) Já estava na hora de devolver o Cadillac para seu dono. (…) Dirigimos até lá e enfiamos um troço arruinado e enlameado no seu respectivo boxe. O mecânico nem reconheceu o Cadillac. (…) Tínhamos de cair fora imediatamente. Caímos”

Na trilha provavelmente não haverá Dylan. Mas Changing of the Guards poderia tocar o filme todo.

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Cadillac Fleetwood Limousine – 1954

Este é o carro usado pela dupla de Kerouac, em seu grande livro, na mais insana de suas viagens.

“…o último dos rios encantados passou num lampejo, e então vimos a fumaça distante de Chicago no fim da estrada. Tínhamos vindo de Denver a Chicago, passando pelo rancho de Ed Wall – são 1880 quilômetros, exatamente em dezessete horas, sem contar as duas horas na valeta, três no rancho e duas na polícia, em Newton, Iowa, uma média de 120 por hora, com um motorista apenas. O que é alguma doida espécie de recorde .”

Não leu On the Road ainda?

Sempre é tempo.

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Ritmo Beat


Surpreso. Passadas 135 páginas, aproximadamente 1/3 do livro, assim estou na medida em que avanço na leitura de On the Road, de Jack Kerouac.

Surpreso porque o livro publicado em 1957 é incrivelmente contemporâneo. Evidente que a vontade de colocar uma mochila nas costas e pegar a estrada não tem época, mas as situações, os causos, as reflexões e o conjunto de dificuldades que vão norteando o narrador/personagem, tudo isso é tão atual quanto cativante.

Kerouac criou esta sua história  num ritmo empolgante, de se ler em pé, andando em círculos. Frases longas, movimentadas, com descrições bem encaixadas, bom humor, tiradas inteligentes, desgraças…e essas frases vão empilhando-se em uma seqüência absurda.

A obra surgiu quase sem pausas, em aproximadamente três semanas de trabalho. Usando grandes bobinas de papel presas na sua máquina de escrever, para não ter quebrado o seu embalo mental ao trocar as folhas, preenchidas ao som de Coltrane e afins, e é justamente neste compasso que a saga vai sendo desenrolada.

“…tinha comigo um livro que havia roubado num quiosque em Hollywood, Le Grand Meaulnes, de Alan-Fournier, mas preferia ler a paisagem americana enquanto seguíamos em frente. Cada saliência, cada colina, cada planície mistificava meus anseios. Cruzamos o Novo México na escuridão da noite; numa aurora descolorida estávamos em Dalhart, Texas; na desamparada tarde de domingo rodávamos pela monotonia de uma cidade atrás da outra de Oklahoma; ao entardecer era o Kansas. O ônibus rodava solto. Eu estava indo para casa em outubro. Todo mundo vai para casa em outubro.

Nesta batida ritmada o Sal Paradise do autor vai me fazendo companhia ao longo destes dias. Recomendo a leitura, o jazz e o uísque, mas não sumam de casa após o ler por completo como fez Bob Dylan.

No vídeo abaixo, o próprio autor lê um trecho de On the Road ao som de Jazz. E fica claro o modo como ele foi escrito.

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