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O meu Saramago

Saramago partiu.

O escritor, que afirmou que a pior coisa da morte é o não mais estar, faleceu, aos 87 anos de vida.

Saramago foi daqueles seres que, em vida, ganharam dimensões extraterritoriais, atemporais, muito maiores que as do seu corpo velho, que tanto em vida produziu.

Tornou-se cidadão do mundo, pelo alcance e influência de sua obra. Nunca mais Saramago do Distrito de Santarém, Saramago do mundo! Da mesma turma dos não mais Quintana de Porto Alegre, Drummond das Minas Gerais, Cervantes da Espanha… Todos, patrimônios culturais, acima das fronteiras desse mundo.

E sem fronteiras, Saramago viveu nesta nossa época de rápido deslocamento físico pelos continentes, e de informação, pelos meios que dispomos. E, como cada um de nós, fez uso das ferramentas disponíveis.

Conectou-se na rede através de um blog , defendeu as suas ideologias políticas em fóruns e palestras mundo afora, e, talvez,  toda essa contemporaneidade de atividades, para muitos, o tenha restringido como aquele escritor ateu, comunista, pessimista e de longas frases,  saído de Portugal.

Triste estereótipo, aceito apenas por quem nunca o leu, ou, por aqueles não tenham a capacidade de retirar de um texto mais do que as letras ditam, no seu preto no branco.

Eu ingressei, alguns anos atrás, na Faculdade de Engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Chegar lá foi uma luta, era o meu êxito e a realização de todos os meus familiares. Mas, a vivência do curso, o dia-a-dia dos estudos, cada nova cadeira, tudo, era uma nova confirmação de que estava fora do meu lugar.

E, em meio a esta frustração que era a minha realidade, resolvi passar os intervalos vagos entre as cadeiras dentro da biblioteca do campus. Lá, encarei o meu primeiro grande livro. Com o Jesus Cristo humano e questionador de Saramago, com o Deus de um plano imperfeito de “O evangelho segundo Jesus Cristo”, eu, nada ateu, nada comunista, longe da idade e do brilhantismo no autor, entendi que a minha cruz não deveria ser carregada por aquele caminho, e o mudei, e o estou mudando, desde então.

Faleceu o nosso Saramago, mas ele sempre estará por aí. Vivo, influente e desafiador, nas linhas que escreveu.

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A primeira parte do meu conto canastrão você encontra aqui.

(…continuação)

Não é você que escolheu o seu carro, seu carro que escolheu você.

Cinco dias avançaram na semana, o movimento da lavagem estava de bom para ótimo, e os sócios eram só elogios para o seu gerente, ou para o pró-labore seguinte deles.

Um relaxado Beto, sentado na sala de seu apartamento, relembrava da primeira cliente da semana, que trouxe, além da prosperidade, uma profusão de confabulações.

Aquela Chevy tinha capota marítima, não estava rebaixada, e estava toda embarrada. A morena devia utilizá-la em estradas ruins, de chão batido, e não desejava sujeira no que carregava na caçamba. Deveria trabalhar com entregas, quem sabe flores, ele pensava.

O carrinho, apesar da sujeira que chegou naquela segunda, estava alinhadinho, íntegro, e em poucos minutos de pensamento, a morena já era batalhadora, humilde, zelosa com seu meio de transporte, e, ao mesmo tempo, seu ganha-pão.

Zelosa também com a sua aparência. E lembrou-se dos cabelos soltos, de um preto que brilhava, em total sintonia com cor da armação dos óculos, que enfeitavam o rosto dela. E também da saia que voava lépida e leve, das pernas de quem provavelmente deveria malhar, e aquela tatuagem que a telinha da câmera, infelizmente, não destacou. ‘’Seria mesmo um mapa incompleto ou o lavador viu errado?’’ E pela câmera não se sente cheiro. ‘’Ela ainda estava cheirosa. ’’ Realmente, era daquelas mesmo de se apresentar para a mãe com gosto.

E Beto riu, já tendo pensamentos similares aos do seu funcionário. E logo procurava sair do mundo dos sonhos e entrar no dos planos para o final de semana. Quem sabe dar um pulo no litoral gaúcho, conseguindo ainda gastar um pouco de dinheiro com ele, cortar os cabelos, comprar roupas, um bom perfume, procurar um carro mais jovem, e como não tinha família, talvez uma caminhonete, com uma bela capota marítima. E riu novamente.

Aquele final de semana passou mesmo devagar, cada hora rendendo ao máximo.  Como todos os finais de semana daqueles que estão sem grandes preocupações na vida, eles sempre passam mais devagar dos que os daqueles que batalharam dia após dia abaixo de mal tempo, e, quando se dão conta, já é segunda feira novamente; como dois copos que estão ao relento, sendo que apenas um enfrentou uma pancada de chuva no dia anterior, ele será, pois, o primeiro a transbordar sob o sereno, na calmaria da noite.

E a segunda semana de maio começou cedo. Beto, como sempre, foi o primeiro a chegar. Mas alterou a ordem das suas atitudes. Ligou o computador e, enquanto preparava o mate matutino, conferia seguidamente a imagem das câmeras de controle, ainda mostrando um estacionamento vazio e sem movimento, afinal, nem os funcionários haviam aparecido ainda no local.

E o circo começou a funcionar, quarenta minutos depois, o mate amargo já subia pela bomba de Beto, os funcionários já estavam aos seus postos, ou falando das aventuras reais do final de semana ou inventando algumas imaginárias, pois, num grupo de lavadores de carro, não se pode sair limpo de uma roda de papo furado.

E Beto olhava tudo através do computador da sala de seu escritório, ansioso, esperando matar a curiosidade sobre o primeiro cliente da semana. Seria ela?

Não foi. Após vinte minutos de conversa, agora os funcionários tinham um nada atraente sedan Toyota preto para limpar, de uma nada atraente, porém simpática, senhora. “Carros pretos sempre voltam”. Pensou Beto, enquanto calculava as férias de um funcionário. Logo entra o segundo carro da semana. E o Del Rey champanhe indicava que ela começava de forma, ao menos, coerente.

Aquela manhã passou rápida. A visita inesperada do representante comercial da empresa de esponjas, e a reunião que se seguiu, ocupou boa parte dela, terminando na churrascaria, cortesia do fornecedor.  Do almoço Beto partiu para seu apartamento, tomou um banho, reviu os gols da rodada do final de semana e retornou ao emprego.

Ao chegar percebeu, de cara, a traseira da Chevy, já  em processo de lavagem, e decidiu nunca mais comprar aquelas esponjas. Pelo barro que escorria pelas laterais e se acumulava na brita do pavimento, imaginou o estado que o carro chegara, dessa vez, ainda mais suja que na semana anterior.

Circulou algumas vezes ao redor do carro, pensando se recebia a cliente ou não, e foi ao escritório, mas antes uma vez mais fez a higiene bucal. A fez pensando em alguns discursos, em como a abordar, simulando defronte um espelho, para depois voltar para sua mesa de trabalho.

Na metade da tarde o estacionamento era um mar organizado de carros. Em fila indiana os que aguardavam, por ordem de chegada. Sob as rampas os que estavam fazendo a lavagem completa, ao lado destes, no solo, os que recebiam a lavagem simples, e, num estacionamento, como se fossem parte da vitrine de uma joalheria, os reluzentes carros lavados.

E entre eles, uma radiante Chevy 500 branca, com pretinho nos pneus, os deixando no mesmo tom de cor da capota marítima, calotinhas pretas no centro das rodas ainda originais, vidros verdes, um ideograma japonês na tampa traseira, luz de neblina no spoiler dianteiro e toda a atenção de Beto, que do seu escritório a namora, pela câmera de vigilância, e pensa em que atitude tomar quando a morena chegar.

Mas acontece um movimento diferente, e Beto voa ao encontro daquela Chevy.

Beto vê pela câmera um homem baixo, magro e mal vestido, chegar da calçada e caminhar em direção à caminhonete. Ele faz duas voltas ao redor dela, abre a porta do motorista, entra e rapidamente Beto já está ao seu lado, na janela.

‘’Posso ajudá-lo?’’

‘’Não, ela ficou uma beleza. ’’

‘’O senhor seria o dono do carro?’’

O rapaz abre pacientemente parte da porta, levanta-se, era realmente baixo, deixa metade do corpo fora do carro, estende o braço sobre o teto e responde:

‘’Na verdade eu dei esse para a minha esposa. Vim apenas retirá-lo, a lavagem já foi, inclusive, paga por ela. ’’

E Beto, frustrado, e com medo das conclusões óbvias que seu olhar poderia passar, abaixou a cabeça, dando de olhos com uma aliança na mão esquerda do baixinho. Voltou ela então para o céu, e, durante o novo trajeto, no pulso repousado sobre o teto branco, descobriu um mapa do Rio Grande do Sul incompleto, e também que, aquele baixinho, completava o quebra-cabeça criado por seu funcionário.

‘’Malditas tatuagens de casais felizes. ’’ Pensou.

Sorrindo amarelo, desconcertado, falso, desejou uma boa semana para aquele que tanto invejava. Voltou depois devagar ao seu escritório, querendo novos desafios no seu começo profissional, talvez correr mais riscos, em um emprego onde realmente aplicasse algo que aprendeu na sua faculdade.

E sorriu debochado. ‘’Acho que vou comprar mais esponjas na próxima visita daquele representante. ‘’ Pensou, desta vez, agradecido.

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Chevy 500 (1/2)

Em uma quadra do bairro Bela Vista, zona norte de Porto Alegre, próximo ao primeiro e ainda bem conceituado Shopping Center da cidade, fica, entre árvores altas e verdes, defronte um grande canteiro central, a lavagem de carros onde Beto, há pouco, tinha assumido a gerência.

Jovem, recém formado em administração, fez da amizade com um dos sócios daquela rede de lavagens porto-alegrense o drible necessário na falta de experiência. Agora ele tinha um bom primeiro emprego, mas sem grandes desafios. A clientela era boa, fiel e caprichosa com seus carros.

O serviço era bom, e se cobrava bem por ele. Beto rápido percebeu que pouco do que foi aprendido no seu curso superior seria aplicado na gerência daquela lavagem automotiva. O público já tinha sido fidelizado, o ponto era ótimo e os funcionários que davam problema já tinham sido excluídos do quadro funcional.

Beto, nas primeiras semanas, pensou num modo de manter a equipe de lavadores motivada, pensou também em pacotes promocionais para clientes com mais de um carro na garagem, pesquisou produtos de limpeza mais baratos que os antes utilizados e tentou implantar uma frustrada mecânica para economizar água.

Mas no oitavo mês de trabalho o tédio já rondava nosso gerente. Já não havia ali novos desafios, o trabalho era uma rotina em torno do ar condicionado do escritório, bate-papo com clientes ao sabor de um café, um que outro puxão de orelha em um funcionário, e o tradicional chimarrão no final da tarde.

E aquela primeira semana de maio não parecia começar diferente. Beto chegou cedo, como todo bom gerente, abriu o estacionamento, separou as contas de luz e água, e, enquanto chegavam os funcionários, pensou em providenciar um chimarrão, estava frio naquela segunda-feira.

Enquanto o computador da sua mesa de trabalho ia ligando, carregando automaticamente as câmeras de vigilância e controle de lavagens, Beto preparava caprichosamente o mate na sua cuia de estimação, devidamente curtida durante os estudos da faculdade e nas rodas de truco com amigos no parque Redenção, e, com ela em mãos, ele viu entrar, então, através da câmera que apontava para a entrada do estacionamento, aquilo que mudaria o andar das suas horas nos próximos dias.

Primeiro gole, ele observa a dianteira de um Chevette parar na calçada, esperar um casal de idosos passar em trajes de caminhada, e acelerar pátio adentro. Vê então que o Chevette era, na verdade, uma Chevy. O primeiro cliente da semana chegava numa caminhonete bastante embarrada e era, agora, orientado por um funcionário do devido lugar para estacioná-lo.

A boca se enche do segundo gole de água amarga, na temperatura de morna para quente, e os olhos notam agora que, na verdade, quem estaciona o carro é uma motorista. Um bocado de cabelo moreno resolve voar pela janela, vidros baixos para enxergar melhor o retrovisor, e ganham a atenção do gerente.

Pela câmera Beto vê a morena descer da Chevy, mostrando um corpo magro, atraente, e o tirando, por alguns minutos, da percepção do tempo. Ela usava óculos de armação escura, da cor do cabelo, saia na altura dos joelhos e bolsa a tiracolo. Mulher de óculos sempre foi um de seus tantos fracos, a panturrilha era linda, marcada, e a bolsa, tanto faz, tanto fez, só as mulheres dão importância para ela. E como se visse a cena de um filme, ele a acompanhou.

Viu-a conversando com o lavador, depois verificando se não esqueceu nenhum pertence dentro do acanhado carro, e depois sair, com seus passos decididos, pelo mesmo caminho por onde antes entrou a bordo de, quem diria, uma embarrada Chevy.

E a manhã retornou ao seu ritmo normal, o telefone tocou pela primeira vez na semana, alguns clientes vieram ao escritório conversar, enquanto a caminhoneta começava a ser lavada.

Saindo mais cedo para almoçar, querendo pagar logo contas agendadas e poder tomar um banho antes de voltar ao trabalho, Beto abriu mão de ver novamente a morena, pois ao retornar para o turno da tarde, o carro já havia sido entregue.

Perguntou ao funcionário se tinha corrido tudo em ordem, se ela saiu satisfeita, e recebendo as respostas prontas, virou-se ao escritório, pronto para voltar à sua rotina.

‘’ Bonita a dona, né, patrão?“

“ A da caminhonete? Nem reparei. Como ela era? “

“ Morenona, daquelas de apresentar pra mãe com gosto. Boazuda, cheirosa, sorridente, dentes branquinhos, e uma tatuagem no pulso, agora é moda, né, patrão…“

“ O que ela tinha tatuado no pulso?“

“Um mapa desses do mundo, faltando pedaço, patrão. “

E agora, sim, os passos rumavam ao escritório, o telefone tocava, e a imaginação trabalhava.

(…segue)

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