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Posts Tagged ‘Maurício Gugelmin’

Aquela morena, acostumada a virar pescoços por onde passava, andava agoniada. É que Vanessinha não mais encontrava a sua tão apreciada marca de bala de anis para comprar.

Linda como só ela, pela cidade com seus cabelos ondulados, olhar forte, barriga malhada, dois gatinhos tatuados, um em cada lado da cintura fina. Na sua pele sempre úmida, volta e meia, trilhas de suor desciam e levantavam pêlos; ela sentia muito calor.

Pois poucas coisas causam insegurança ou desconforto em Vanessa, a falta da sua bala preferida na bolsa é uma.  Nada a ver com código de cores ou afins. Embora a bala azul, sim, lhe trouxesse um pouco de calma. Em Minas era galo, todas as paredes de sua casa eram brancas, é nova demais para saber quem são os smurfs e dentre suas roupas de malhar, nenhuma era dessa cor.

Ocorre que Vanessa passou boa parte de sua adolescência enfrentando fortes cólicas. As balas de anis, com seu poder da erva-doce, viraram vício passeando na boca da morena e melhorando seus males físicos e espirituais.

As crises voltaram fortes e as balas sumiram do mercado.

As coisas também não andavam boas para o Jorge. Luthier de profissão, desiludido de ocasião. É cada vez mais raro alguém mandar fazer seus instrumentos musicais, e instrumentos musicais raramente quebram. Muito mais prático e rápido comprá-los prontos, mesmo que montados dentro de fórmulas pré-estabelecidas. “Artistas sem alma…” Resmungava.

Final do horário de almoço, no restaurante. Ao pagar a conta com a sua última nota de R$ 20,00, afasta o rock progressivo dos ouvidos para escutar de um constrangido funcionário:

Posso lhe dar o troco em balas? …é que fomos assaltados, o caixa está vazio…

Já em pé, na parada de ônibus, não tinha onde colocar as mãos. Num bolso da calça um Walkman, no outro, R$ 6,00 em bala de anis. As últimas da cidade, recebidas assim.

Olhando desanimado para o nada, achincalhando os deuses, reparou sem reparar na bela morena que parou do seu lado, suspirou, tirou uma bala do bolso e a abriu.

Vanessa estremeceu junto de suas cólicas . O cheiro, anis! Ela sempre conseguia o que queria, com sobras, então pediu uma, u-ma-zi-nha, para aquele estranho.

E sua bolsa pesou com aqueles R$ 6,00 em balas azuis.

E a tarde/noite daquele luthier desiludido foi inesquecível.

**********

O ano de 1988 teve uma temporada de Fórmula 1 que é lembrada com carinho pelos brasileiros. Senna vencia a briga com Prost na Mclaren Mp4/4, correndo longe do resto do pelotão e vencendo o campeonato mundial. O domínio da equipe inglesa era tamanho que obteve 15 vitórias em 16 provas. Berger levou o GP da Itália para a sua Ferrari.

Nesse ano comecei a acompanhar corridas de automóvel junto do meu pai. Era um barato começar a tomar gosto por elas desse modo. O grid da Fórmula 1 era bem povoado, colorido, havia a vibração natural pelo Senna, mas o carro que chamava a minha atenção era um pintado de azul.

A March afastara-se da Fórmula 1 em certas temporadas dos anos 70 e realizou um forte trabalho em categorias menores e na Fórmula Indy, com muito sucesso. No ano de 1987 retornou com força à principal categoria, tendo o aporte de uma imobiliária japonesa e utilizando uma adaptação do seu chassis de F3000 para o motor Cosworth V8. Aos trancos e barrancos a equipe dava novamente as caras com um único piloto, Ivan Capelli, e reforçava a sua identidade visual.

Era linda a combinação do tom de azul com o simpático logo da equipe.

Se nessa primeira temporada o time teve em pista apenas 1 ponto conquistado num sexto lugar em Mônaco, nos bastidores o trabalho para 1988 era forte.

Adrian Newey criava um dos carros mais belos que a categoria já teve, o March 881. Com motor Judd num sensual e envolvente desenho. Esse carrinho me fez torcedor fiel do time até o seu fim.

A bala de anis do colorido e cheio grid de 1988 trazia como pilotos o italiano Ivan Capelli, que entrava no seu segundo de cinco anos no time, e o brasileiro Maurício Gugemin. O motor Cosworth dava lugar ao competente Judd V8 de 3.5cc e aspirado, acomodado no chassi criado por Newey.

Na pista o carro chamava a atenção pelo lindo layout e por um belo estilo “garrafa de Cola-Cola”. Mas agora também havia bom rendimento e resultados em pista. A belezura incomodava a concorrência.

Vejamos. Capelli fechou a temporada na sétima colocação, tendo uma temporada regular e como melhores resultados a terceira posição na Bélgica e a segunda em Portugal. Gugelmin fecharia o ano na décima-terceira colocação, vivendo seu ponto alto em um quarto posto na Inglaterra.

Mas o carro de Newey tinha lá os seus problemas. Projetado em túnel de vento, de fora para dentro, deixava o piloto em apuros. No vídeo abaixo vemos Jackie Stewart avaliando, sem papas na língua, o carro para um programa de tv. O espaço para o piloto no habitáculo era mínimo, acomodar braços e pernas era um martírio, a ponto de membros ficarem dormentes durante a corrida. Tudo relatado pelo escocês, que concluía ser impossível retirar tudo que o carro podia dar de performance nessas condições.

Com beleza, velocidade e lá os seus defeitos, esse carrinho trouxe uma legião de fãs para a simpática equipe que, infelizmente, não emplacou e ficou pelo caminho no início dos anos 90.

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