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Posts Tagged ‘Maximus’

(Se possível, ver o vídeo antes de ler o texto)

Era o brinquedo dos sonhos de qualquer guri daqueles anos oitentistas. Ciente disso, a Estrela, no mês anterior ao Natal, preparou uma mega-propaganda, a isca perfeita, que ia mais ou menos assim:

Um garoto como qualquer outro caminha por uma praia, com seu short curtinho, e, na cabeça, as preocupações de praxe que qualquer garoto daqueles anos tinha. Não perder o episódio dominical da Super-Máquina, do Esquadrão Classe-A ou do Águia de Fogo, perfeito seria ver os três logo, em ritmo de jazz.

E ele vai, no andar arrastado dos pés que deslizam na areia dura, fazendo desenhos de canaleta com o dedão cravado, como qualquer garoto que caminha em qualquer praia de qualquer ano sempre faz. E o foco fecha então no rosto do garoto, mostrando a transformação de semblante que se segue.

A cara, que antes era de Trakinas, aquela da bolacha, de quem provavelmente escondeu a caixa de chocolates surpresa da irmã caçula, transforma-se em dois olhos arregalados e curiosos. Ali, parado na areia, em frente a ele, vermelhinho, imponente, está um Maximus.

E o garoto se ajoelha ao lado, olha para os lados. “De quem será?` Agora é meu!”

E foi só esticar as mãos para o ágil brinquedo se mandar. Começa a perseguição menino-objeto de desejo, mostrando as virtudes off-road do carrinho de controle remoto mais caro do mercado.

E o menino corre atrás, se joga, mas o Jerry rádio-controlado sempre dá um jeito de escapar. E agora, sapequinha, se exibe aos pés de uma linda andante com seu biquíni asa-delta. Afinal, esperta a Estrela, quem paga pelo Maximus é o pai do telespectador-mirim.

Mas o protagonista não tem olhos para a moça, e num afã, consegue encurralar o carrinho. Mas o Maximus, num salto à Gordini e seus 40 HP’s de emoção, passa por cima do obcecado Tom pré-adolescente, caindo aos pés do adulto, o sádico algoz, munido de seu controle remoto.

A isca estava lançada, era o brinquedo mais desejado pelos portadores das caras de Trakinas, que agora escreviam suas cartinhas ao bom velhinho, prometendo, angelicalmente, menos travessuras no ano seguinte. Politicagem pura.

Não era um brinquedo novo, eu já tinha o meu, ganhei de um dindo no ano anterior. E sempre que assistia à propaganda, lá ia eu retirar as rodas, colocar óleo de máquina de costura nos rolamentos, deixar os pneus pretinhos, mimar o brinquedo.

Mas aquele brinquedo me afastava dos meus amigos. Talvez por isso o tenha, até hoje, quase novo, e na caixa. Sempre que eu o levava para a rua, atraía muita gente, todos me olhando de longe, distantes. Os meninos da minha idade, assim como eu, tinham poucas condições de ter um carro daqueles, então, mal se aproximavam. Um que outro pedia para brincar, sentir como é controlar um motorzinho com rodas. Mas muitos apenas olhavam mesmo, e eu me sentia só, e a bateria acabava, e o carrinho voltava para a sua caixa, não sem antes ser limpo novamente, e lá está até hoje.

Pois ano passado eu senti muita vontade de ter algo especial, algo meu, que me tirasse da mesmice em que estava, e que pudesse aproximar meu pai da brincadeira. Resolvi seguir o coração e iniciei um belo projeto.

Sempre gostei de história, e de coisas que carregam histórias. Decidi comprar um carro que sempre me despertou muita simpatia, passei, então, a procurar um fusca da década de 60, o chamado oval, ou goleirinha.

E eu achei o meu, o “Almôndega”. Este projeto, que está apenas começando e promete ser longo. Pois o carrinho que me escolheu estava, provavelmente, fadado à morte. Bonito por fora, com muita mecânica e interior por fazer, virar doador de peças e ter baixa no DETRAN, ou nem isso, deveria ser o destino dele.

Pois vejam, meu Fusquinha 1969, no momento, não apresenta segurança nenhuma para rodar nas ruas. Preciso refazer os freios, a suspensão dianteira, trocar o setor da direção que tem a famosa folga, colocar o forro de teto original que comprei e o courvin marfim nos bancos, e claro, um belo bagageiro com ripas de madeira no teto. Então, no ritmo que meu dinheiro permite, vou fazendo meu brinquedo.


Mas antes de decidir pará-lo, eu fiz com ele alguns passeios por Porto Alegre, e, em cada nova volta, tive uma confirmação de que fiz algo que me fazia bem. O carrinho é macio, gostoso de dirigir, a pintura brilha, vai interagindo com o trânsito, confrontando as suas mesmices, sendo um refresco para aqueles que o compõem, pessoas que construíram umas histórias, e, de dentro de seus prateados de plástico, veem um pouco dela passar na mesma pista, vivo, bem cuidado, com aquele barulhinho característico do motor boxer.

Ninguém resiste a um simpático Fusquinha, eu não resisti.

Cada pessoa tem a sua definição de felicidade, e, no dia-a-dia, batalha pelo que acredita para chegar a ela. Comigo, claro, não é diferente. Mas por ver felicidade em coisas simples, como no meu Fusquinha pronto, do jeito que eu quero, com amigos dentro e um CD dos Beatles nos falantes, rumando ao litoral, me sinto, por vezes, muito deslocado do padrão que vejo quem me rodeia seguir.

E por estar fora do padrão, alguns me olham de longe, distante, feliz com meu brinquedo, mas diferente. E eu, enquanto cumpro lentamente as etapas da minha reforma, quase no passo do menino no começo do comercial, vou me sentindo como quando ainda novo brincava com o Maximus aos olhos dos outros, mas sei que agora é diferente.

Quando esse projeto estiver concluído, me sentirei vencedor. O carrinho certamente já me é caro, mas terá um valor inestimável. Através dele eu já fiz, e venho fazendo muitas amizades e isto deve aumentar, assim que com ele estiver indo aos encontros e passeios que planejo, ou mesmo cruzando Porto Alegre num trajeto cotidiano, ele saberá retribuir o tempo, a paciência e o dinheiro que estou destinando para ele.

E quem sabe em um desses passeios, em uma ironia que apenas eu entenderei, levo no bagageiro de teto, bem amarrado por nylons, o Maximus, dentro da sua caixa.

P.S.: Este texto é dedicado ao Douglas  e ao rodrigo Lombardi, que se ligam num Maximus, e ao DuCardim, que está obcecado pela Caloi Ceci da minha irmã.

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