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Posts Tagged ‘MegaDrive’

Nos dias chuvosos daqueles anos, a sala da minha casa virava o palco de corridas virtuais, corridas um pouco mais sérias que as dos dias chuvosos dos anos que vieram antes. Embora a logística ainda permanecesse igual, o brinquedo havia mudado. Brincar de Enduro com o escanteado Atari já não fazia mais sentido, aliás, eu não era uma criança tola. Sabia que tinha algo de errado na interminável estrada do Enduro.  Nunca tinha visto da janela do Chevette Hatch do meu pai mudanças tão bruscas de asfalto para a neve, da neve para a grama, da grama para a lama, da lama para a noite…

Mas agora, nós tínhamos a disposição o novíssimo Super Mônaco GP do Mega Drive. Trazíamos a maior televisão disponível, por vezes de algum vizinho convidado, para a sala de casa. Abastecíamos os potes com pipocas e os copos com refrigerante, e assim as horas da tarde chuvosa passavam ligeiras e bem alimentadas.

O jogo do Mega Drive me apresentou ao mundo dos simuladores. Agora eu poderia correr em pistas reais com equipes inspiradas nas reais. Começava a minha carreira com a fraquíssima Minarae, a Minardi, e através do meu desempenho no campeonato, ia evoluindo de equipe em equipe até chegar na fortíssima Madonna-Mclaren. Esse joguinho, hoje bobo, me fez gostar de assistir corridas. Além do símbolo da marca de cigarros que ele mostrava, eu sabia agora também o contorno das pistas de cabeça e a ordem delas no campeonato.


E dele veio também a minha adoração por Mônaco, além de um problema no dedo polegar da mão direita. O lugar que dava título ao meu jogo, que estava nos filmes do Herbie e do 007 que eu via, deveria ter algo de especial.

Mônaco é um principado de apenas dez bairros, distribuídos em dois quilômetros quadrados, situado no sul da França. Entre um rochedo e o Mar Mediterrâneo esta localizado um dos maiores paraísos fiscais do mundo, com seus cassinos e sua grande atividade imobiliária.

As corridas por lá já aconteciam bem antes da criação da Fórmula 1. O clube do automóvel de Mônaco queria independência do clube Francês, e para tal, passou a organizar os seus eventos em 1929, data da primeira corrida pelas ruas do principado. Partindo de um evento para convidados, Mônaco cresceu em importância, figurando como evento fixo do circuito europeu de corridas.

Desde que um Bugatti ganhou em 1929 a primeira corrida por lá disputada, ela continua fiel às suas origens. Parando durante os períodos de guerra e vez por outra em alguma briga política, as suas curvas guardam a história do automobilismo mundial e também dos seus principais personagens. A arquitetura antiga e elegante, hoje abafada pelos arranha-céus, ainda observa os bravos pilotos de hoje enfrentarem os mesmos desafios que os de outrora.

E é quando as suas estreitas ruas são fechadas para o tráfego normal e ganham novamente status de pista de corrida, que fica claro o quanto as coisas pouco mudaram ao longo dos anos na estrutura da sua pista. Na Sainte Devote e sua pequena área de escape, no desnível antes da Mirabeau ou no cotovelo do Grande Hotel, em que a tomada da televisão mostra um belo conjunto de três curvas.

O túnel, esse sim mudou, ganhou iluminação e muradas, a estrada que costeia o mar também ganhou as suas, e iates, muitos iates. No final do túnel, um dos poucos pontos de ultrapassagem antes do ˝S do Wendlinger˝, depois as piscinas em que Senna segurou um puto Mansell, e a Rascasse, o parking-free de Schumacher.

Estava quase tudo lá para  Nuvolari, Fangio, Moss, Hill, Stewart e Senna, e sempre estará para os pilotos contemporâneos.

Por mais que a Fórmula 1 evolua, ao sabor dos ventos tecnológicos e das vontades de Bernie Ecclestone, a força de sua tradição manterá alguns de seus elos vitais sempre unidos. As pistas do velho mundo têm uma carga de importância e identidade que nunca os novos traçados feitos pelo Hermann Tilke, nos tigres asiáticos ou emergentes afins, atingirão.

Naqueles tempos, enquanto eu juntava meus amigos para jogar Mônaco GP, tentando vencer o G. Ceara na sala da minha casa, Nelson Piquet resmungava que correr por lá na vida real era como andar de bicicletas pela sala da casa dele.  E Ayrton Senna deve ter chegado rápido na de seu apartamento, após jogar uma vitória fácil nas mãos de Prost, batendo a apenas 800 metros de sua morada em 1988. Isso, se ele realmente tiver tomado o rumo dela.

Bibliografia para a confecção deste post:

http://blog-do-ico.blogspot.com/ , a grande maioria das fotos.

http://pt.wikipedia.org/

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