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Posts Tagged ‘mistério’

Povos de outros tempos deixaram marcas ainda presentes nos dias atuais, mas infelizmente grande parte de suas crenças e costumes seja hoje desconhecida, principalmente por nós ocidentais.

Há 5.000 anos o mundo era diferente, menor. A percepção do cotidiano por parte dos indivíduos, e a sua religiosidade, também. A história era vista de forma cíclica e não linear, como num círculo, num traçado oval, as coisas retornariam na manhã seguinte para o ponto de partida.

Aquelas sociedades, lideradas por reis-sacerdotes, temiam a perda da manutenção da ordem dos acontecimentos e utilizavam-se das relações com um panteão de deuses para explicar o inexplicável – catástrofes, pragas, doenças, desastres. Sumérios, acádios e babilônicos tinham os seus, cada um representando um evento da natureza, das relações humanas e das suas atividades:

Enlil, senhor dos ventos, próximo a Abad, deus das tempestades; Samash, deus solar; Zabada, deus guerreiro, submisso a  Ishtar – deusa da fertilidade e da guerra; alguns nomes dentro de toda uma mitologia criada para explicar os mistérios que cercam tudo o que acontece no mundo.

Talvez JR Hildebrand, pobre JR Hildebrand, tenha sido neste último final de semana mais do que um infeliz acidentado. Talvez ele seja um escolhido. Instrumento de uma manifestação cruel de um esquecido Enlil, que escolheu um evento cíclico para demonstrar seu descontentamento. As coisas estão muito diferentes de 5.000 anos atrás, Enlil deve estar inconformado com o ostracismo.

Ou talvez JR Hildebrand, pobre JR Hildebrand, que tinha nas mãos a vitória da centésima edição de uma das provas automobilísticas mais importantes no panteão das provas automobilísticas do mundo conhecido. Que bateu na última curva, cruzando depois os ladrilhos da vitória aos trancos e barrancos, sendo ultrapassado nos últimos metros por um afortunado Wheldon… Talvez, sei lá, ele tenha profanado um zigurate, tirado uma lasca do Código de Hamurábi, esquecido a Porta de Ishtar aberta num dia frio e irritado a deusa do amor. Quem sabe ele não tirou uma onda da tiara de chifres que Naram-sin usa nas suas representações?

Algo inexplicável aconteceu e nem a mitologia dá conta. O automobilismo é fascinante.

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Nas últimas semanas meus dias encurtaram. A faculdade de História, que comecei no mês de março, acabou com as noites desocupadas em que criava textos para este blog e estudava para, vejam só, voltar à faculdade.

Durante essa época eu também ligava o meu fusquinha 1969 regularmente. Essa rotina não posso mais manter e sempre soube que, a partir do momento que ele ficasse mais dias desligado, as incomodações de todo carro carburado logo chegariam.

Mas não imaginei que fosse ser tão logo. Meu carro não estava pegando e quando pegava, engasgava ao ganhar velocidade. Distribuição revisada e os problemas continuavam; foco na carburação.

Hoje tive, enfim, um tempo para me dedicar apenas ao carrinho. Munido de uma garrafa de solvente e um esguicho “bengalinha” maior do que a que estava no mecanismo (45 e 60), mais um kit de reparos do Solex 30, mãos na massa.

Culpado encontrado. A gasolina, danada, não estava indo da cuba para a admissão. O diafragma estava bom, o problema era uma bucha de borracha que, no meu, existe na haste que liga o acionador do diafragma ao eixo do carburador (próximo ao marcado na foto). Essa bucha corrige o pouco de folga existente no meu eixo.

Acontece que, com o calor do alternador, a borracha perdia as suas propriedades e saía da posição, impedindo o diafragma de trabalhar. Bucha encaixada, carro ligado ainda queimando um bocado de solvente e a alegria de dirigir um 1300cc esperto de volta.

Hoje ganhei meu dia. Agora como estudar o meu polígrafo sobre a Mesopotâmia sabendo que a bucha de borracha segue lá, próxima ao alternador?

Se fosse fácil, não teria a mesma graça. Logo terei que meter a mão na massa, novamente.

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Quem entra naquele estacionamento não demora a perceber que ali existe algo estranho. Entre as sessenta vagas existentes, uma ficou fora das últimas duas reformas do local; pintura da parede encardida, chão com vegetação alta, um Del Rey estacionado.

A cápsula do tempo, que volta para o início de 1988, época em que o carro foi desligado pela última vez, não é nada discreta. Externamente aparecem sinais da distância com o ano em que José Sarney começou a presidir o Brasil – talvez um observador mais atento e curioso perceba o jornal amarelado, com Marco Van Basten e sua Bola de Ouro, no banco traseiro. A ação do tempo sobre o imponente Ford é cruel.

O luxuoso  três-volumes do ano de 1984, na cor champagne-metálico, apodrece dignamente em meio aos seus nômades e frios colegas modernos. Ferrugem e  poeira são abundantes em toda a extensão de sua lataria, alinhada, com todos os frisos pedindo polimento, assim como os seus pneus murchos pedem por ar.

Mesmo quem apenas passa os olhos sobre o sedan nota, por culpa do cenário preservado, o respeito do dono do estacionamento por aquele veículo. E ele faz questão de contar para qualquer novo cliente sobre os curiosos anos de imobilidade do fordinho no seu pátio, e sobre alguns causos que o cercam.

E conta sobre como certa vez uma senhora, dona de um Fiat Prêmio vermelho que estacionava na vaga ao lado, descuidada abriu muito uma das portas, batendo no Del  Rey com força. A tinta vermelha marcou por um tempo a porta do carro, como um ferimento aberto que cicatriza; o Prêmio, dias depois, foi atropelado quando estacionado no centro da cidade por um Ford 11000, sem freios e carregado de brita.

Conta também da quantidade de pedreiros que se afastaram dos trabalhos para cuidar de ferimentos durante obras da primeira reforma do local. Uma pá caiu sobre o pé de um quando este tentava empurrar o carro para fazer o piso, outro caiu do telhado enquanto trocava a cobertura; hoje, nem a lâmpada queimada mais próxima é trocada, nem mesmo os cães do pátio se aproximam do Del Rey quando algum gato gordo foge para baixo dele.

E sempre fala que a mensalidade é depositada de forma exemplar, sem um dia de atraso.

O que ele não conta é que existe uma chave reserva daquele carro no seu escritório, e que nos tempos do Collor ele entrou nele para bisbilhotar. Encontrou um interior impecável, bancos praticamente novos, painel sem marcas ou riscos, 51100 km marcados no hodômetro e, no porta luvas, um mistério escrito à mão, guardado dentro do manual do proprietário:

1000km –  revisão

5000km  – revisão + balanceamento + alinhamento e rodízio

7500km – troca de óleo

15000km – Revisão + bateria + troca de tapetes de borracha (cortesia Ford)

(…)

31000km – Lua de Mel em Garopaba

(…)

45000km – Busquei o primeiro filho na maternidade

(…)

51100km – Restauração integral – lataria e mecânica.

Aquele carro espera o seu dono.

***

P.S.: O estacionamento da foto fica ao lado da minha casa. Aquele Del Rey está parado há muito, muito tempo.

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