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Posts Tagged ‘reação’

Este não é um blog de um assunto apenas, logo, ocuparei hoje o espaço com um papo menos leve, mas necessário.

Rolava no programa de maior audiência dentre as rádios de uma grande cidade do interior do Rio Grande do Sul uma noite especial de entrevistas. O objetivo era alertar e educar a população local sobre a real dimensão do problema que representa o avanço do crack na sociedade. O crack é a droga da vez.

O interior deste estado tem lá as suas peculiaridades. Cada município exibe forte os traços do povo que o colonizou. O ritmo de vida também é mais brando, as famílias, em geral, estão mais próximas de seus filhos durante a sua criação, a criminalidade apresenta quadros menos agressivos, em suma, ainda são grupos blindados dos problemas das grandes metrópoles, mas um dia eles chegam. Os entrevistados do programa daquela noite, um médico, um policial, políticos, a mãe de um usuário lutando contra o vício e um sociólogo, iam expondo as mazelas que esse sub-produto provoca, enquanto grande parte da população escutava atentamente.

E num determinado momento liga para o estúdio o traficante local, pedindo para entrar ao vivo no programa, assim, sem cerimônias, e consegue. “Aqui é fulano de tal, distribuo maconha e cocaína na região, estou ouvindo o programa e gostaria de avisar que estou junto nesta campanha. No que depender de mim e de minha equipe, o crack, aqui, não terá vez.”

Muitos devem pensar, e com razão, que tenha sido um absurdo este cidadão ter recebido este espaço e ter tomado esse papel na sociedade, mas vamos analisar de um outro modo. Naquele momento ele se mostrou um homem com a mão para o negócio e de forte espírito empreendedor…

Um traficante vive do lucro sobre o vício dos outros. Tanto na cidade grande quanto na pequena. Só o que muda é o tamanho da clientela. Pois o crack é uma droga tão destrutiva e barata, que em poucos meses o usuário já não existe mais, por isso nem o “dono da boca” da cidade pequena o quer por perto.

Ele é produzido a partir da pasta podre que sobra da produção da cocaína mais a adição de bicarbonato de sódio, para depois ser vendido em pedras. O seu nome resulta do som feito pelo composto durante a sua queima. Para seu consumo, basta apenas um cachimbo ou mesmo lata de refrigerante adaptada.

O efeito no corpo humano é devastador. A droga atinge o cérebro em até 15 segundos, provocando dependência imediata. Em organismos fortes, a submissão ao vício ocorre em até quatro contatos. A droga provoca euforia descontrolada por no máximo 15 minutos, depois disso, a sensação experimentada é a de vazio e depressão.

O usuário passa a viver em função dos próximos 15 minutos de euforia, caso ele demore a conseguir a droga, ansiedade e agressividade se farão presente. Os danos desta droga, seis vezes mais potente que a cocaína, são irreversíveis para o usuário. Danos neurológicos, lesões cerebrais, abalo do sistema respiratório, falto de fome e sono, fraqueza do coração, tudo somado, deteriora a saúde do usuário, que em curto prazo está liquidado.

Também por ser uma droga barata e de rápido consumo, atinge de forma descontrolada todas as camadas sociais. O que assusta é que essa massa atingida já está perdida. Poucos sobreviverão à sua experiência. Ao contrário da maconha, heroína, cocaína e outras drogas, o poder destrutivo do crack dará pouca abertura para uma segunda chance ao usuário.

Os que sobreviverem, trarão no corpo reflexos do organismo corroído, danos que provavelmente os deixarão separados da sociedade. Com o crescimento que temos hoje no consumo, cada vez mais perceberemos o vazio das vidas que ele tirará ou limitará.

Enquanto o traficante da cidade pequena não quer o crack matando os seus clientes em potencial, eu não quero nenhuma droga nefasta chegando de maneira fácil e moendo a vida daqueles que optam por este caminho, realimentando o círculo vicioso que, em algum momento, pode atingir quem me rodeia.

Quem tem o dever e os meios para combater o tráfico de entorpecentes é o estado, e a demora para entrar de vez nesta briga custará caro futuramente. Talvez por já perceber isto é que escrevo e publico este texto no meu blog, mesmo com a sua minúscula audiência cativa, porque minúsculo não deve ser o nosso papel na sociedade.

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