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Posts Tagged ‘São Paulo’

Indy na Marginal

O Grande Prêmio Itaipava Armarinhos Fernando Magazine Luiza São Paulo Indy 300 Balas Dadinho Nestlé foi como um belo texto recitado por um grande gago. Bom e irritante ao mesmo tempo.

A corrida foi movimentada, as bandeiras amarelas ajudaram a criar variáveis, o primeiro “s” cumpriu sua função de causar tumulto e a pista estava bonita, bem sinalizada. O grande problema foi mesmo o despreparo da equipe de transmissão de imagens em fazer um trabalho fluido e organizado. Os cortes de imagens aconteciam nas horas erradas, para lugar nenhum, disputas não eram mostradas e as repetições não tinham todo o acontecido – sem contar a chatice do “super-slow” e a troca de nomes durante a narração.

Mas o texto lido pelo gago foi bom. Ah, foi. Os brasileiros remaram muito no chove-não-molha, os da equipe KV um tanto mais com suas táticas incompreensíveis. Aliás, Takuma Sato largou em último e chegou à terceira colocação graças justamente a sua tática, e por – milagrosamente – ter terminado a prova.

Bia Figueiredo foi combativa, merece muito mais, tem muito talento.  Castroneves terminou no quarto posto, e não tem do que reclamar o nosso brasileiro melhor colocado.

Will Power venceu com sobras, lidera a temporada com 180 pontos, seguido de Castroneves com 135. A próxima etapa será a monstruosa Indy 500, todos ao Templo!

Ah. Como cereja do bolo, não havia quem conseguisse abrir as garrafas de champanhe levadas ao pódio. Supimpa.

P.S.: A foto é de Bruno Terena/Agência Warm Up

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Sampa no Walkman

Sou gaúcho de Porto Alegre, nascido em 1982 no Hospital de Clínicas, morador desde sempre da zona sul da capital. O bairro Tristeza sempre foi a minha casa, apenas mudei de rua; Dona Paulina, Pereira Neto e atualmente Dr. Barcelos. Cada vez mais perto do Guaíba.  O “rio” e seu característico pôr-do-sol são magnéticos.

Não me considero um cara bitolado, apesar da imagem provinciana da cidade em que cresci ser uma auto-propaganda apaixonante, sempre fui ciente das qualidades e dos defeitos dela, e, estudando o seu desenvolvimento, sei o quanto as coisas pioraram nos últimos 40 anos, mesmo assim, temos uma bela capital.

Como todo morador de fora do eixo sudeste, cresci com a imagem de São Paulo que a mídia mostra. O estereótipo, nesses casos, é uma via de duas mãos, pois, o mesmo acontece com todo o resto do Brasil em relação ao distante Rio Grande do Sul.

Sobre São Paulo, a canção de violência, sujeira, trânsito caótico e gente descortês, cantada repetidamente num sotaque carregado à Faustão, abafa facilmente qualquer voz que mostre o lado bom e gostoso da cidade, de longe, as coisas negativas cada vez mais se sobrepõem.

Sempre tive muita curiosidade em passar alguns dias por lá, conhecer, sem pressa, essa cidade que tomou gosto pelo crescimento desenfreado, e, tudo o que ele trouxe de bom e de ruim para seus habitantes. E parecia que nunca deixaria mesmo de ser uma mera curiosidade, até que amizades e um empurrão das redes sociais ajudaram, e pessoas incríveis me receberam durante um período de férias, também me ciceroneando pelos quatro cantos de Sampa.

Vindo de uma breve estada na linda Joinville, desembarquei curioso na rodoviária de São Paulo, e, de dentro do táxi que rumava para a casa da família que muito gentilmente me recebeu, tive a primeira amostra de que as minhas ideias em relação às coisas de São Paulo não condiziam com a realidade. “ –O Playcenter ali, lembro bem dele…” ‘’- O Playcenter não está com nada, decadente, existem outros melhores.” Quando eu era menor,  sonhava com as máquinas do Playcenter, enquanto comprava as fichas de fliperama no centro de Torres.

Os paulistas têm seus hábitos peculiares, entre eles, o de fazer da ida a padaria um evento. As padarias de São Paulo são um mundo. O café da manhã acompanhado de uma comanda eletrônica e o tanto de opções típicas de um supermercado colocou o turista acostumado a pedir pão, frios e leite no seu devido lugar.

E como turista que fui, conheci  diversos locais da cidade. Caminhei pela Av. Paulista e perdi bons minutos no MASP. Gostei do astral do MASP, mais do pátio do que do interior, que é lindo. Mas o pátio não parece fazer parte daquele contexto, me senti muito bem vendo a parte de baixo do museu, vendo os casais descolados, olhando o movimento da avenida além das estátuas de bronze, e entre elas, um homem, que calmamente enfileirava bitucas de cigarro ao longo do pátio, tudo isso ali, na Paulista.

A cidade exagera nas possibilidades. Os Paulistas comem e bebem bem, tem diversas opções de restaurantes, lojas e programas noturnos. Adorei o Mercado Municipal, com arquitetura externa que lembra o de Porto Alegre e interior mais aconchegante. O sanduíche de mortadela do mercado é um mundo, e o chopp vira ritual em cada local que a gente para.

Na frente do mercado me chamou a atenção o prédio abandonado chamado de “Treme-Treme”, o Edifício São Vito. É uma construção bonita, devia encher os olhos nos seus bons tempos, mas perdeu-se no tempo. Outrora invadido por “sem-tetos” e viciados, hoje aguarda a demolição, imponente, carregado de informações. Uma frase em cada andar, janelas tapadas, quebradas, vãos vazios, um meio arco no alto, entrada vedada, de certa forma o “Treme-Treme” me atraiu, vou me lembrar disso tudo quando ler que ele foi finalmente  implodido.

São Paulo cobra bem pela diversidade de opções que possue. O custo de vida lá é mais pesado que em outras capitais que conheci. A cada débito no meu cartão notava que gastava em média o dobro que na minha cidade natal. Mas como Sampa é um mar de gente, se o serviço é bom ou diferenciado, tem público consumidor. Eu consumi.

Conheci uma capital bonita, diferente. Com as regiões bem divididas, Armênia, Liberdade, Vila Madalena, Freguesia do Ó. A proibição da poluição visual ajuda a notar-se as silhuetas dos prédios, e como eles se multiplicam. Algumas vezes com aparência cansada, restaurada, junto deles, os modernos espigões. Um passeio noturno pela maioria das avenidas da cidade parece uma volta numa loja de árvores de natal com o teto pintado de cinza claro. Não existe breu em São Paulo.

Essa cidade que não escurece me colocou no meu lugar também com a sua rede de transporte público ferroviário. O metrô foi uma grande surpresa. Grande, limpa e bem cuidada surpresa. Por uma extensa malha, que deve ganhar novas linhas nos próximos anos, a população transita de forma rápida por todo o subsolo das principais regiões, vez por outra sobre as avenidas. Mas o volume de pessoas que trafegam pelas estações é grande, e, mesmo com uma boa freqüência de trens, o empurra-empurra é grande nos horários de pico.

Em alguns trechos, todo o sistema é aéreo, e isso me fez pensar na quantidade de melhorias no dia-a-dia do porto alegrense que três simples linhas destas trariam a capital gaúcha. Imaginei uma grande estação na área central da minha cidade, com um generoso estacionamento público ao seu redor, de onde partiriam três rotas. Uma para a zona sul, outra para a zona norte e terceira para final da Av. Ipiranga, cada um com seus grandes estacionamentos públicos nas estações mais movimentadas. São Paulo dá a dica para Porto Alegre.

São Paulo também dá os seus avisos. A falta de gramados nas casas e calçadas eleva a temperatura e judia da população. Senti o mormaço da Avenida em que trabalho em Porto Alegre caminhando em ruas simples, coisas do excesso de cimento nas calçadas e pátios, que colabora para as freqüentes enchentes.

Evidente que os problemas crônicos da cidade, só os moradores sentem. É na correria do dia-a-dia que eles surgem. A violência urbana, que não tem hora para aparecer, mostrou-se o grande trauma das pessoas com quem conversei. Escutei muitas histórias de assaltos, sequestros e outras ações criminosas. Mas Sampa, que não é mais a terra da garoa, ela cai em outra região, e nem do Carandiru, no lugar hoje existe um parque, não pode se entregar as consequências da desigualdade social e do descaso com a segurança pública.

Voltei  para minha terra natal, feliz pela oportunidade que tive, pelas pessoas que conheci, pelos momentos que passei e passeios que fiz. Agora tenho a minha opinião própria sobre Sampa, e sei que nunca vou esquecer a primeira vez que pisei em Interlagos, e tudo que lá aconteceu, mas isso merece um texto inteiro.

Parabéns paulistas por sua capital, não se curvem à violência.

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