Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘Saudade’

“Vai ao quarto dos fundos e escolhe os livros que tu queres, separo e depois te mando.”

O garoto escutou, pensou, soltou um “tá bom” tímido e se pôs corredor adentro.  No curto trajeto desenhou-se em sua mente uma estranha corrida de revezamento, aquele cara que passa o bastão não ía atrás e nem ao lado dele… Jogo besta, pois.

Dentro do quarto, tudo ainda familiar e completamente em ordem. A presença – existência de algo em determinado lugar – também se dá nas lembranças.

Na pequena estante começou um ato de zelo e respeito, apenas o que realmente seria importante entraria nas suas escolhas. Logo sete volumes estavam empilhados, estes não seriam pegos apenas por capricho. Ao lado, nos dois criados-mais-mudos-do-que-nunca, nada.

Sentou-se na escrivaninha, ligou a lâmpada. Da prateleira em frente mais um livro se juntou aos sete eleitos, outros tantos poderiam sair de lá apenas por capricho – melhor não.

Da gaveta surgiu uma caixa, da caixa, medalhas. Agora todas sobre o tampo. A primeira conhecia de fotos, sempre no quepe, era da ONU. Homenagens, brasões e patentes, cada uma com suas histórias… Ali estava um relicário codificado que só fazia ou tinha sentido e valor para aqueles que conheciam os ritos militares; o garoto conhecia.

No fundo da caixa ficara esquecida uma fita verde. Dessas de se amarrar no corpo, fazer pedidos, apelar pro invisível, singela. O garoto nunca a tinha percebido, um tanto desfiada, não sabia como nem por que estava ali.

Dias depois, a caixa de medalhas seguia naquela gaveta, era o seu lugar. Oito livros, porém, estavam a caminho da casa do garoto que, no tornozelo direito, ˝Lembrança de Santa Madre Paulina˝, trazia atada a presença com um nó de escoteiro.

Read Full Post »

Exemplos caninos

Difícil compreender a grandeza e o valor dos laços de amizade formados entre seres ao longo das suas vidas. Seja por afinidades ou por quaisquer outras convergências, não existe máquina no mundo capaz de dar a alguém um gesto espontâneo e necessário típico de um bom amigo.

Nem sempre eu fui uma criança de apartamento, pelo contrário, até os doze anos morei em uma casa com amplo pátio. Nesse pátio eu inventei muito com meus brinquedos. Carrinhos, Comandos em Ação… quando não era com isso, me divertia jogando bola ou andando em um Bugue de pedal.

Pois lá pelos meus oito anos de idade o pai trouxe um filhote de cachorro para morar no pátio. Era um pastor capa preta, pequeno, peludo e com umas patas de respeito. De cara todo mundo percebeu que o cachorro ia crescer muito, mas como era filhote, e muito bonito, ficou.

Pois naquela época só dava a Guerra do Golfo. Era Hummer sendo jogado de helicóptero, poços de petróleo incendiando e mísseis Tomahawk cruzando o céu da televisão durante a janta; o nome dado ao filhote foi Saddam, todo mundo adorava o pequeno Saddam.

De todos lá em casa, era eu que passava mais tempo com ele. A Kombi do tio Antônio ligava o pisca lá na esquina para me deixar em casa, após a creche, e já começava uma festa no pátio. Durante o tempo que estava em casa tentava ensinar coisas para o meu capa preta – adestrar é uma arte quando se tem menos de dez anos – mas foi apenas quando percebi que ele se derretia por um amendoim que meus comandos passaram a ser correspondidos e repetidos.

Rapidinho o Saddam sentava, dava a pata, rolava, tapava os olhos com vergonha… Eu me sentia gênio e o pote de “amendoim para acompanhar chimarrão” da minha avó sumia. Era o preço do sucesso, Saddam animava um churrasco como ninguém. Caprichava por amendoins, o show quando o cheiro de gordura da carne pingando no carvão em brasa invadia a garagem era fenomenal.

Eu adorava aquele pastor alemão que, de repente, fez jus ao tamanho de suas patas e cresceu, sem parar. Pouco mais de ano, se bem me lembro, e ele já era um gigante desengonçado e amável. Um monstrinho que quando não estava brincando comigo, e comendo amendoins, estava destruindo os canteiros do pátio, roendo a mangueira e tudo mais que conseguia, pendurando-se nas roupas do varal, caçando passarinhos e riscando as portas da casa.

Minha avó não se importava em repor o nível do pote de amendoim, mas quando o meu capa preta passou a pintar o sete, as coisas ficaram difíceis. E assim deram o Saddam para o amigo de um conhecido de um tio meu – que ganhou a minha antipatia e depois me comprou com um jogo completo de futebol de botão; eu me vendi por um grenal.

Uns quatro anos se passaram e eu já dificilmente lembrava daquele animal. Até que um dia o pai me levou para passear e aproveitou para lavar o nosso Chevette branco – na empresa do meu tio, aquele. E foi só eu descer do carro no pátio da lavagem para começar um carnaval por detrás de um portão de ferro. Latidos, batidas, unhadas, choro…

“Sabe quem é? Vai lá”

O Saddam me deu naquele dia uma das maiores demonstrações de amizade e carinho que já recebi em vida, e que até os dias de hoje ainda não aprendi a repetir com meus iguais. Cachorros são animais especiais, fiéis, merecem bons cuidados, não foi o que aconteceu com meu inesquecível capa preta.

 

Read Full Post »