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Posts Tagged ‘talento’

  • Patrick Depailler, no ano de 1976, nos leva para uma volta em Mônaco, a bordo da única Tyrrel P34.

Frente grudada no chão, traseira chicoteando aos impulsos do Cosworth DFV V-8. O trabalho de Patrick, livrando o carro das lâminas metálicas do principado.

Um belo passeio

  • David Gilmou levou para a festa dos 50 anos da Fender Stratocaster o ítem mais valioso de sua coleção. Trata-se da Stratocaster #0001, a mais antiga das Strato conhecidas, guardada no seu barco-estúdio junto com outros instrumentos de seu acervo.

No concerto realizado em 2005, Gilmour se juntou a outros guitarristas para homenagear o modelo. Lá, tocou essa canção instrumental chamada “Marooned”, presente do disco pós Roger Waters  “The Division Bell”, de 1994.

Gilmour tem um estilo próprio. Sem grandes firulas, ele despeja linhas harmoniosas e agudos precisos, sempre usando de efeitos para dar novas cores para seus os solos.

Outro belo passeio

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Como todo garoto que achava já ter passado da fase das brincadeiras com carrinhos e bonecos, mais ou menos pela pré-adolescência, eu também comecei a sonhar em ter uma guitarra.

Nesse período, o lindo e antigo Giannini que antes teve meu pai como dono, corpulento e de ótimo acabamento, foi o instrumento utilizado no aprendizado de notas e escalas.

Com alguns meses de dedicação o violão, que andava adormecido sobre o maleiro do quarto grande, já emitia novamente notas com pestanas, sem trastejar; as bases das músicas preferidas já eram, nesta altura, fielmente repetidas, ao custo de alguns calos nos dedos.

O próximo passo requeria mais campo de ação no braço do instrumento, para atingir as notas mais altas, aquelas próximas ao começo do braço. Esse passo seria o aprendizado dos solos. Aquele violão era pouco para a vontade deste pré-adolescente, mas instrumentos musicais sempre foram muito caros por essas bandas.

Pelos meus vinte anos veio o primeiro salário, guardei quase tudo. No segundo mês, descobri que um companheiro de estágio ia colocar fora duas guitarras do modelo Les Paul no lixo. Resgatei as duas, trouxe para casa, desmontei tudo, e, das duas, fiz uma.

O braço fino estava empenado, tive que usar o outro, com os trastes altos e feitos de plástico. O corpo que não estava rachado era feio, fiz nele uma colagem imitando a bandeira da Inglaterra, já a parte elétrica, era uma desgraça. Soldei a fiação sem imaginar o que estava fazendo, mas no fim, ligada na entrada auxiliar do aparelho de som da sala, ela emitia seus sons por um dos dois captadores.

Era a minha Les Paul.

Aprendi a reproduzir os solos que mais gostava, ou algo próximo deles, nesta aberração mutante. Apenas anos depois, com mais dinheiro no bolso e um certo domínio do instrumento, comprei uma Fender Strato original e um amplificador. Conquistava tudo o que tinha sonhado na minha adolescência.

Sei que eu nunca serei um bom músico, talvez conseguisse virar um guitarrista de mediano para ruim, mas, fechado no meu quarto, som no “talo”, a minha Les Paul toda desgraçada (Amy Winehouse), ou a minha linda Strato (Liv Tyler), fazem uma bela dupla comigo. Completamo-nos quando plugados, eu não imagino a Amy pendurada no pescoço de mais ninguém.

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Uma das coisas mais pessoais que existe no nosso contato com alguma arte é o conjunto de relações feitas a partir deste contato. No nosso universo particular de ídolos e atividades de interesse, costumamos fazer ligações onde sentimos que houve a tal da “liga”, uma espécie de empatia ou afinidade entre o artista e o meio utilizado para expressar seu talento.

Quando acontece isso, passamos a ligar diretamente tais “instrumentos” com aquelas pessoas; ambos tornam-se complementares.

Guitarras e carros de corrida, em especial, fixaram diversas destas “relações” na minha mente.

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As guitarras são objetos complexos, de personalidades fortes e bem distintas. Existe todo um universo de modelos, mas são três os principais: Telecaster, Stratocaster e Les Paul.

Os modelos “Tele” são os mais simples. Seu clássico desenho entalhado num corpo sólido surgiu nos anos 50, dando aos músicos um instrumento leve e preciso. Caracterizada pela pouca presença de timbres graves, o som “magro” e estridente desse modelo é uma de suas marcas mais marcantes.

Possui dois captadores, geralmente de corpo simples. Um próximo ao braço do instrumento, com som mais seco, estalado, e, o outro, próximo ao apoio inicial das cordas, com um som bem anasalado; esses captadores são ligados por uma chave de três posições. Através dela, o instrumentista pode escolher entre o uso de cada um isolado, ou os dois em conjunto.

Entre os guitarristas que utilizam esse modelo, dois em especial me chamaram a atenção pela sintonia com ela. Muddy Waters, um bluseiro de voz marcante e um modo particular de solar, e Keith Richards, lendário guitarrista dos Stones, que fez do clássico som aberto da guitarra junto de uma afinação peculiar, suas marcas registradas.

A “Strato” é o modelo mais versátil e popular. Seu desenho clássico, inspirado em um baixo da linha Fender, proporciona um apoio confortável e é quase tão leve quanto a sua antecessora Telecaster. Mas é na vasta possibilidade de sonoridades que os seus três captadores simples proporcionam que a Stratocaster mais se destaca.

O captador de corpo simples, localizado próximo ao braço, proporciona um som aveludado. O central tem característica seca e estalada, semelhante ao obtido na Telecaster, e o da ponte (onde apóiam-se as cordas), despeja um som anasalado e agudo.

Outro grande diferencial da “Strato” é a sua chave de cinco posições de seleção dos captadores ativos. Além dos três já citados, o músico pode também combinar os dois primeiros ou os dois últimos, criando um timbre particular, tendo ainda uma alavanca de distorção como recurso para alcançar mais efeitos no som tocado.

Entre os guitarristas que marcaram o uso deste modelo, tenho dois em especial. Steve Ray Vaughan, americano que nos anos 80 fez o Blues ressurgir, com o seu um estilo agressivo e virtuoso de tocar, com forte influência de Hendrix, e David Gilmour, guitarrista do Pink Floyd, que explora em suas linhas melódicas e bem construídas os agudos do instrumento, usando também a sua versatilidade em prol da sonoridade psicodélica e progressiva característica do som da sua banda.

As Les Paul surgiram como uma resposta da Gibson e suas então semi-acústicas as novas Telecaster. É um modelo robusto e de acabamento bem feito. Dotada de dois captadores duplos, tem um som mais grave e encorpado que os dois modelos falados anteriormente. Estes dois captadores são selecionados por meio de uma chave no topo do corpo, com ajuste semelhante ao das ”Teles”. É um modelo de grande apelo, devido à popularidade dos músicos que o utilizam e da escolha em músicas mais pesadas.

Entre os músicos, ligo dois em especial a ela. Jimmy Page, guitarrista do Led Zeppelin, faz uso do modelo para dar corpo ao som pesado, fazendo os solos e melodias terem tanta presença quanto seus riffs. E Slash, que despontou com o Guns n’ Roses junto com o “boom” dos videoclipes nos anos 80. O chapéu e a Les Paul em punho passaram e ser as marcas do artista, que além do apelo visual, possui grande habilidade e domínio do instrumento.

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Carros de corrida também são objetos complexos, de personalidades fortes e bem distintas. O seu comportamento em uma pista está diretamente ligado a uma série de fatores. A localização e a potência do motor no chassi, o tipo de tração, as dimensões da rodas e o tipo de pneu utilizado, a quantidade de combustível no tanque; muitas variáveis somadas determinam um conjunto de reações que o veículo entregará ao piloto.

Cabe a ele, piloto, converter esse conjunto de reações do seu carro no melhor desempenho possível, usando a sua sensibilidade para adaptar-se ao veículo conduzido e as mudanças que ele apresenta durante a corrida.

Como em outras artes, existem casos onde ocorre o casamento perfeito das características do artista com o seu “instrumento”, e assim, criamos um conjunto de referências, passando a ver ambos como complementares.

Ao longo da evolução dos carros da Fórmula 1, alguns conjuntos formaram, em cada época distinta desta evolução, um resultado tão harmônico que passei a relacioná-los como bandeiras de seu tempo.

Na década de 50, o automobilismo ganhava uma categoria de vanguarda, que aceleraria o desenvolvimento da tecnologia dos carros e levaria aos principais sítios interessados as suas disputas. Neste período, os veículos que disputavam a Fórmula 1 defendiam as cores de seus países, além da supremacia tecnológica nas pistas. Eram veículos altos, com grandes motores dianteiros e tração traseira, rodas raiadas estreitas e péssimo sistema de freios a tambor.

Do meu contato com os primórdios da Fórmula 1, através de filmes e documentários, me impressionou uma câmera on-board de Fangio testando a Maserati 250F num circuito italiano. O modo truculento como eram reduzidas as marchas, a grande altura do carro, o piloto exposto e os finos pneus em contato com o solo acidentado me fizeram gravar a imagem de Fangio naquela Maserati, brigando contra a traseira nas curvas truncadas, sem nunca alterar a expressão tranqüila do rosto.

Na década de 60, os carros já levavam os motores na traseira e apresentavam uma altura bem mais próxima do solo. O chassi era construído como uma espécie de canoa de metal, onde eram armazenados radiadores, piloto, tanque de combustível e muita cavalaria.

Conheci os ”charutinhos” melhor quando assisti ao documentário Nine Days in Summer. Nele, todo o desenvolvimento do Lotus 49 era mostrado. O motor Cosworth V8 que apoiava os braços traseiros de suspensão, as largas e belas rodas, os cromos e a linda pintura, manejados por Jim Clark num Nurburgring molhado, todas essas cenas me cativaram, a Lotus 49 e Jim Clark representam, na minha memória, a Fórmula 1 dos anos 60.

Nos anos 70 os carros ganharam velocidade e apêndices aerodinâmicos. As pistas ainda eram as das décadas anteriores, mas os riscos haviam disparado. Nessa época colorida e inventiva, surgiram carros belos e grandes pilotos. A imagem da Lotus 72D de Fittipaldi lutando contra o Tyrrel de Stewart faz parte de qualquer bom documentário sobre a época. Mas além do 72D, outra cria da criativa Fórmula 1 da década de 70 me é forte, a condução de Patrick Depailler com o seu Tyrrel P34 nas ruas de Mônaco.

No final dos anos 70, os carros asa e seu efeito solo nortearam os projetos da categoria. Neste período, Gilles Villeneuve levou sua Ferrari além dos limites tanto de velocidade quanto de resistência, brigando contra carros mais rápidos e fazendo da sua vontade de chegar na frente dos adversários um combustível inconseqüente. Os expectadores deliravam, e ainda hoje o estilo de Gilles cativa novos fãs .

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Gilles e a Ferrari 312 , Steve Ray Vaughan e sua Stratocaster, outros tantos exemplos acima citados ou que freqüentemente são relembrados ou descobertos. Em cada época surgem novas e belas relações  entre artistas e seus instrumentos de trabalho, como se um fosse a extensão da personalidade do outro, e assim, unidos, permanecerão no imaginário de fãs atentos ao seu legado.

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Todos iguais, mas uns mais iguais que os outros

De forma ocasional, enquanto organizava alguns materiais para estudar ao longo da semana, esbarrei em pequenas coisas que me chamaram a atenção e me fizeram perceber, quase como uma revelação,  algo que já deve ser uma verdade evidente para muitos.

Ultimamente venho tendo a felicidade de conhecer e trocar ideias com pessoas incríveis, todas elas de regiões, idades, profissões e rotinas muito diferentes umas das outras. Chato que sou, certamente ainda de maneira ingênua, tento aprender o máximo com aqueles que tem mais bagagem;  seria muito burro da minha parte não “bancar  a esponja” durante essas conversas.

Eis que, enquanto organizava as minhas coisas, achei algo que ando bolando para colocar futuramente no retrovisor do carro que estou reformando. Passatempo puro, vou prendendo em uma espécie de cordão os ingressos dos shows que já fui na vida, para depois, talvez, pendurar no retrovisor do carrinho já reformado.

Pensando nessas coisas que ocupam o tempo livre, me chamou a atenção a existência de algo em comum na vida das pessoas mais legais que ando conhecendo nos últimos tempos. Todas elas apresentam um projeto paralelo, um hobby que envolva um certo comprometimento, todas trabalham também para si em determinadas horas da semana.

Nascendo a vontade

Deve ser muita pretensão achar que as individualidades se contentarão com um dia-a-dia todo voltado para atividades que trarão benefícios apenas para terceiros, um salário frio e a virada para o mês seguinte. Ainda mais se for num contexto de rotina maçante, com bem pouco bem-estar.

Essas mesmas individualidades, cada uma do seu modo, procuram algo gratificante para ocupar o tempo livre. Seja uma coleção de gibis, um álbum de figurinhas, montagem de carrinhos em miniatura ou a reforma de um antigo de verdade. Na escolha do hobby vai muito da personalidade das pessoas, obtida durante a sua formação.

O carro com que o avô levava a criança para a escola, um trauma pelo álbum de figurinhas nunca completado em alguma Copa passada, a arte gráfica de um gibi, uma coleção de motos inspiradas no filme Easy Rider. Filme que pode ter sido assistido anos atrás depois da aula, com um gibi esquecido na mão, comprado com a grana que deveria ser usada em um pacote de figurinha do álbum da Copa, aquela. Quem disse que um hobby apenas é a lei?

Comprando a ideia

Partindo da premissa que aquilo que é feito de bom grado e por iniciativa própria é executado com o máximo de esmero, todo projeto paralelo tem o seu valor, sempre superestimado por quem se dedica a ele, claro. Essa relação de comprometimento e troca começa no momento que abraçamos uma causa, e ela é mantida sabe-se lá por quanto tempo.

Nenhum dinheiro deste mundo compra, por exemplo, a pujante coleção de ímãs de geladeira da mãe de um amigo. Cada simpático objeto traz recordações de viagens e momentos, a ponto dela se animar e começar a criar os seus próprios. Os artesanatos, comprados ou criados, transformaram aquela porta branca de metal numa espécie de relicário aberto, multicolorido, um dos orgulhos da Tia Neide.

Curtindo o resultado

Nada que desmereça esta história, mas todo trabalho realizado com dedicação e carinho, para que se chegue ao resultado de algo único e desejável, é feito também com o intuito de ser mostrado. Todo dono de um hobby é, no fundo, um grande exibido.

Existem aqueles que realizam essas obras com tanto talento que elas naturalmente viram atividade de trabalho, fonte de renda e reconhecimento. Objetos artesanais, artes gráficas digitais ou não, textos, poesias… Quando algo que começa como um passatempo torna-se coisa séria, é porque a vocação foi posta a prova e confirmada.

O que vale, no final das contas, é a escapada constante da rotina, o momento de trabalhar para si, crescer como pessoa. Não existe terapia melhor que correr atrás de um projeto pessoal, seja ele simples ou não. Estudar, comprar materiais, trocar idéias e experiências, fazer o máximo para que aquilo que tanto pode ter começado como uma paixão arrebatadora, ou uma coceira despretensiosa, torne-se uma prazerosa maneira de enriquecer o cotidiano, para depois, a obra pronta ser mostrada com muito orgulho.

Em que pé anda o seu hobby da vez?

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