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Posts Tagged ‘vício’

Tenho uma colega de trabalho que fuma bastante. Entre uma escapada e outra ao longo do dia, e ritualmente após o almoço, lá está ela soltando a sua fumacinha.  Minha colega certamente nunca ouviu falar de Goethe, pensador e cientista alemão. Ela conhece a avenida de Porto Alegre, mas não o escritor que recebeu a homenagem e que nas suas linhas cravou a afirmação: “É mais fácil matar o monstro do que remover-lhe as entranhas”.

Ela é jovem e já mãe de um menino nos seus quatro anos de idade. E jovem do seu jeito já está sentindo que alguns aspectos de sua saúde pioram gradualmente. Recentemente escutei que nela não há mais prazer em fumar, mas o hábito está solidificado na sua rotina, tão natural quanto alimentar-se, cuidar de sua aparência (toda mulher é vaidosa) e dos estudos do seu filho, está também levar os cigarros à bituca pelas escapadelas do seu cotidiano.

Produto com saída, vício persistente. Mesmo quando não há mais prazer, segue vivo. A indústria do cigarro aproxima-se do pensamento de Goethe. Ela é como o conjunto de entranhas de um monstro que lutará até o fim por sua existência. Mesmo démodé em muitas regiões, segue vivo e forte na liberdade sadia que cada um têm de fazer as suas escolhas; vivo, mesmo com suas entranhas expostas de forma indigesta e o seu mantra repetitivo.

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A indústria do cigarro enriqueceu através da pompa e do status que ele trazia. Logo, onde havia apelo ao público consumidor, lá estava ela estampando seus produtos. Com o aumento do conhecimento de seus males, e maior divulgação das suas conseqüências, o charme foi sendo perdido, mas o dinheiro investido em visual já estava devidamente enraizado.

Um dos esportes mais ricos da atualidade anda alinhado com essa indústria desde que descobriu como é rentável levar um adesivo de marca em seus carros. A Fórmula 1 ajudou a fixar patrocinadores de uma maneira impressionante, a ponto de hoje os cigarros terem deixado as equipes (muitos países proíbem as suas propagandas), mas as equipes não conseguirem deixar os cigarros.

No começo dos anos 70 a John Player abraçou a equipe Lotus. Seus carros, antes com o verde inglês tradicional e depois com o marcante layout da Gold Leaf (cigarros), entravam em uma parceria longa e vencedora. Os Lotus modelo 72 de Fittipaldi, 78 de Andretti e 97T de Senna cravaram o preto e dourado como a pintura definitiva da equipe.

Em 2011, em meio a uma disputa pelo direito de levar o nome Lotus nas pistas, o padrão de pintura que remete ao cigarro volta a dar as caras, enfatizando qual a verdadeira através das cores vencedoras.

A Marlboro entrou na Fórmula 1 através da equipe BRM, em 1972. O desenho na carteira transformou-se em um belo conjunto quando na carenagem de um monoposto. Em 1974 lá estava Fittipaldi eternizando a imagem na grande McLaren, parceria também vencedora e marcante com Senna 14 anos depois. Após o período na McLaren, começava então a destruidora união Ferrari/Marlboro/Schumacher.

Nos dias de hoje, basta olhar para o carro da equipe italiana , lá está ela e sua subliminar “gravatinha” num fundo branco.

A Rothmans estampou a equipe March durante boa parte dos anos 70 e início dos 80. Neste período ela ampliou seu alcance para outras categorias, motociclismo, turismo e rali. Nos anos 90 voltou à Fórmula 1 juntando-se a equipe Williams e seu projeto para receber Senna. Com Senna, tragédia, mas com Damon Hill e Jacques Villeneuve, os títulos desejados.

Hoje a Williams reforçou na sua pintura para 2011 o desejo de retornar aos tempos de vitória, sair do pelotão intermediário. E, ao trazer uma imagem vencedora nos traços, trouxe junto a indústria do tabaco.

E até a Hispania, sabe-se lá porque, ao mostrar o que pode vir a ser o seu carro, fez todo mundo lembrar da Lucky Strike, antiga patrocinadora da BAR. A marca de cigarros que fez um trabalho forte no motociclismo e depois entrou na Fórmula 1 pela porta errada, mas mesmo assim, foi marcante pelas belas pinturas dos seus carros.

Vício difícil de se largar, é esse dos cigarros

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Este não é um blog de um assunto apenas, logo, ocuparei hoje o espaço com um papo menos leve, mas necessário.

Rolava no programa de maior audiência dentre as rádios de uma grande cidade do interior do Rio Grande do Sul uma noite especial de entrevistas. O objetivo era alertar e educar a população local sobre a real dimensão do problema que representa o avanço do crack na sociedade. O crack é a droga da vez.

O interior deste estado tem lá as suas peculiaridades. Cada município exibe forte os traços do povo que o colonizou. O ritmo de vida também é mais brando, as famílias, em geral, estão mais próximas de seus filhos durante a sua criação, a criminalidade apresenta quadros menos agressivos, em suma, ainda são grupos blindados dos problemas das grandes metrópoles, mas um dia eles chegam. Os entrevistados do programa daquela noite, um médico, um policial, políticos, a mãe de um usuário lutando contra o vício e um sociólogo, iam expondo as mazelas que esse sub-produto provoca, enquanto grande parte da população escutava atentamente.

E num determinado momento liga para o estúdio o traficante local, pedindo para entrar ao vivo no programa, assim, sem cerimônias, e consegue. “Aqui é fulano de tal, distribuo maconha e cocaína na região, estou ouvindo o programa e gostaria de avisar que estou junto nesta campanha. No que depender de mim e de minha equipe, o crack, aqui, não terá vez.”

Muitos devem pensar, e com razão, que tenha sido um absurdo este cidadão ter recebido este espaço e ter tomado esse papel na sociedade, mas vamos analisar de um outro modo. Naquele momento ele se mostrou um homem com a mão para o negócio e de forte espírito empreendedor…

Um traficante vive do lucro sobre o vício dos outros. Tanto na cidade grande quanto na pequena. Só o que muda é o tamanho da clientela. Pois o crack é uma droga tão destrutiva e barata, que em poucos meses o usuário já não existe mais, por isso nem o “dono da boca” da cidade pequena o quer por perto.

Ele é produzido a partir da pasta podre que sobra da produção da cocaína mais a adição de bicarbonato de sódio, para depois ser vendido em pedras. O seu nome resulta do som feito pelo composto durante a sua queima. Para seu consumo, basta apenas um cachimbo ou mesmo lata de refrigerante adaptada.

O efeito no corpo humano é devastador. A droga atinge o cérebro em até 15 segundos, provocando dependência imediata. Em organismos fortes, a submissão ao vício ocorre em até quatro contatos. A droga provoca euforia descontrolada por no máximo 15 minutos, depois disso, a sensação experimentada é a de vazio e depressão.

O usuário passa a viver em função dos próximos 15 minutos de euforia, caso ele demore a conseguir a droga, ansiedade e agressividade se farão presente. Os danos desta droga, seis vezes mais potente que a cocaína, são irreversíveis para o usuário. Danos neurológicos, lesões cerebrais, abalo do sistema respiratório, falto de fome e sono, fraqueza do coração, tudo somado, deteriora a saúde do usuário, que em curto prazo está liquidado.

Também por ser uma droga barata e de rápido consumo, atinge de forma descontrolada todas as camadas sociais. O que assusta é que essa massa atingida já está perdida. Poucos sobreviverão à sua experiência. Ao contrário da maconha, heroína, cocaína e outras drogas, o poder destrutivo do crack dará pouca abertura para uma segunda chance ao usuário.

Os que sobreviverem, trarão no corpo reflexos do organismo corroído, danos que provavelmente os deixarão separados da sociedade. Com o crescimento que temos hoje no consumo, cada vez mais perceberemos o vazio das vidas que ele tirará ou limitará.

Enquanto o traficante da cidade pequena não quer o crack matando os seus clientes em potencial, eu não quero nenhuma droga nefasta chegando de maneira fácil e moendo a vida daqueles que optam por este caminho, realimentando o círculo vicioso que, em algum momento, pode atingir quem me rodeia.

Quem tem o dever e os meios para combater o tráfico de entorpecentes é o estado, e a demora para entrar de vez nesta briga custará caro futuramente. Talvez por já perceber isto é que escrevo e publico este texto no meu blog, mesmo com a sua minúscula audiência cativa, porque minúsculo não deve ser o nosso papel na sociedade.

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