Um dos grandes mitos dentro dos festejos juninos é a Barraca do Beijo. Não existe beijo de prenda bonita em troca de míseros cobres; ou talvez eu tenha freqüentado os arraiais errados – de família, alheios a momentos fugazes.
O condomínio em que eu moro costumava promover festas juninas. Os preparativos envolviam os antigos vizinhos na função das pizzas e cucas, fogueiras e barracas, bandeirolas e quentão flambado; a cadeia funcionava enquanto a fogueira ardia.
O clima para a criançada era muito bom. Aliás, junho deveria ser também o mês das crianças; não se faz outra coisa nessas festas senão brincar. A minha mesada, sagrada, contada, coitada, ia para o espaço feito balão. Meus cobres preciosos eram todos gastos em comida e nas barracas de jogos.
Até a abertura da festa o estoque das barracas era uma espécie de Segredo de Estado, era na casa do síndico que os prêmios eram escondidos. Aliás, deve existir um código caipira que determina a hierarquia dos prêmios em disputa nas barracas: Tiro ao Alvo com Bola de Meia e Latas de Azeite, prêmios pouco atrativos – jogo de lápis, giz de cera, cadarços, bonés de loja de material de construção; Jogo das Argolas, prêmios medianos – shampoo, prendedor de roupa, sabonete, perfume, camiseta das últimas eleições; Barraca da Pescaria, abençoada seja – kit de maquiagem para elas, bola de futebol para eles, copos, canecas, cerveja, vinho, livros.
Aprendam, pequenos caipiras: os melhores prêmios saem na pescaria. Anzol de arame, vara de taquara, peixes de cartolina numa caixa de areia; foi em uma dessas que pesquei o meu.
No final da festa presume-se que o quentão está menos flambado e que os melhores prêmios já se foram, mas após pegarem o meu peixe, a surpresa: Veio do estoque um disco de vinil – sem arranhão, papelão perfeito, capa em preto e branco com um dirigível – tinha 14 anos e pela primeira vez escutaria Led Zeppelin, disco de 1969.
“(…) O balão vai subindo, vem caindo a garoa. O céu é tão lindo e a noite é tão boa. São João, São João..”

P.s.: Para a pequena Mari, que viaja no balão de chumbo.