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E se pudéssemos voltar aos nossos anos dourados? Renascer?

E se, ao fazê-lo na época em que vivemos, mantivéssemos em mente as nossas lembranças, experiências de vida, erros, acertos e aprendizados?

Poderia ser o fim definitivo de uma das maiores mentiras da humanidade, um dos maiores refúgios que a nossa espécie já criou: No meu tempo é que era bom!

Medicina, ciência, tecnologia, distâncias, informações, conhecimentos, traumas, costumes… Poderíamos perceber que somos produto de um determinado contexto, um tempo nem melhor nem pior que, noves fora os avanços humanos naturais, é apenas diferente. Que somos moldados por experiências ao longo de complicada caminhada que, volta e meia, é interrompida para uma olhadela ao redor e aquela reflexão cansada sobre como nos são saudosos os nossos primeiros passos. Um refúgio. Tão bem construído que aqueles que hoje são jovens repetirão a mesma frase em alguns anos. No meu tempo é que era bom!

E se nós pudéssemos voltar aos nossos anos dourados? Renascer?

Bem, as roupas seriam certamente diferentes.

simca

 

O amarelho voltou ao abrigo com cara de poucos amigos, exausto, todo descompassado. Ainda tonto pelo enorme sol que encontrara, olhou para os diversos companheiros inquietos e também cansados, observando a tudo desalentado.

Verde e roxo, quase sumidos, aproveitavam suas últimas horas de vida útil jogando forca após enfrentarem uma ave exótica. Enquanto tentavam esquecer a dura jornada, ouviam o marrom espalhando as últimas novidades do lugar: “O laranja dedurou a chegada de um suposto novo conjunto na gaveta, coisa fina, rosa púrpura é 4B parece(…)”.

O vermelho, muito impaciente e cheio de ideias, subiu em um resto esquecido de borracha e passou a bradar fortemente, completamente inspirado pelo Manifesto Cartunista ao qual vinha fazendo marcações: “Camaradas, essa opressão tem que terminar! Gastamos nossa energias para colorir o jardim dos outros! Fomos afastados do campo para nos desgastarmos até o fim aqui na cidade! Camaradas, só temos nossa cor para vender! Uma revolução se faz necessária!”

O azul, do outro canto, respondia igualmente aos gritos: “Colaboradores! Precisamos fazer o sistema funcionar, ele deve se reproduzir! A mão-nada-invisível deve nos utilizar até o nosso esgotamento para que então um novo conjunto seja aberto e passe também a colorir!”

Branco, nunca utilizado, fazia um ar blasé de quem nada compreendia – olhava fixamente para o competente apontador metálico enquanto tomava seu anti-depressivo com risco de tinta nanquim. E o cor-de-pele, causando ainda mais alvoroço na cena descrita, tentava organizar uma marcha para conscientizar a todos da herança racista que carrega…

…e o amarelo coitado, ainda tonto, a tudo olhava e apenas pensava: “maldita seja essa interminável moda dos livros de colorir!”

pencils

Vai ter Copa

Charge genial de um jornal dinamarquês

dinamarques

LesMisBarricade

Pedro transformou-se em Pierre. E, apesar da torrente de suor que descia pela testa, viu-se atento, esguio e ágil, empreendendo forte luta armada. À semelhança do que seria um perfeito sans-culotte, trajes rotos e empoeirados, ele corria entre homens exaustos tendo em sua cabeça – realçado pelas chamas que atingiam um dos flancos da Grande Barricada – um típico barrete avermelhado.

Eau! Couvertures! Sand! Gritos de comando eram lançados aos montes atrás do imponente colosso, barreira com engenharia aperfeiçoada no passado recente em que os seus construtores eram amotinados fervorosos incendiando Paris. Barricada erguida rapidamente como parte de uma série de bloqueios criados para impedir o acesso à Assembleia Nacional e proteger a massa de Guardas Nacionais e de vários outros miseráveis que, no momento, apagavam os focos de incêndio e reforçavam as estruturas – homens que defendiam apaixonadamente as grandes conquistas populares dos anos anteriores, soltando na atmosfera a fé de que se repetisse a mesma eficiência que outrora transformou os bairros parisienses em espaços fechados de resistência. Ah! Aquela Revolução! …desses eventos que resultam em ruptura, mudança de rumo – por vezes são ruins, mas aquela foi boa!

Vindo ao encontro de toda essa massa, os invasores. Pedro, ardendo em febre, se contorce na cama sob forte delírio. O suor agora banha as roupas e chega aos punhos que se cerram. Em direção da Grande Barricada que uns tantos Pierres defendem – como uma torre cruzando a linha de um tabuleiro de xadrez imaginário erguido em plena Champs-Elysées – a Bastilha em escombros marcha sedenta de vingança. Sua torre surge no outro lado da murada, e apenas ela impede o passado odiado de desconstruir a nova ordem. E a resistência delirante fraqueja no primeiro golpe da Bastilha ao paredão, que recebe o improvisado reforço ombro-a-ombro de seus defensores.

E a odiosa instituição, já derrubada, sem poder, sem prisões, sem vigias ou paióis carregados, busca reaver o antigo espaço através de diversos golpes que se repetem teimosos… E o delírio ganha ares anacrônicos: outros chegam para somar ao cerco, formando um bloco desejoso em tomar de assalto as conquistas de tantos outros Pierres. E um rei do Antigo Regime, seguido de seus fiéis aristocratas, empurra a Bastilha em direção à Grande Barricada; e atrás desses aristocratas um Diretório corrupto faz sua parcela de força contrarrevolucionária, seguido de um Bonaparte derrotado e humilhado com seu exército imaginário dentro de um chaveiro de Santa Helena; e a Inglaterra imperial passa a colocar suas chaminés acinzentadas e suas máquinas a vapor ao trabalho, também para derrubar a Grande Barricada; e os burocratas perfeitos de Hannah Arendt se juntam a empurrar, enquanto fazem chover propagandas e panfletos ilusórios sobre as cabeças dos perseguidos Pierres; e um gelado exército vermelho de armas defasadas se soma à força, seguidos por incontáveis contingentes de homens de pescoços vermelhos e uniformes verde-oliva, todos procurando no céu outro Enola Gay que voe em direção à resistência, todos empurrando a massa disforme enquanto arrastam carroções carregados de produtos chineses.

E Pedro acorda, encharcado e exausto, exatamente 30 minutos antes do horário usual do seu despertador tocar. O mal-estar que o acompanhava durante a noite anterior agora deu lugar a uma fome que desde muito tempo não aparecia nessas horas da manhã. No canto do quarto, repara nos apontamentos da aula que aprontou para o dia organizados na escrivaninha. Uma classe de alunos o espera, embora o sonho delirante não lhe saia da cabeça – enquanto empurram contra, forçam passagem e tentam destruir as conquistas e os direitos adquiridos, lutam seguidamente as novas gerações em busca de preservação, fortalecendo as antigas e construindo muitas novas barricadas.

de rendre à l’antique esclavage!

Rafael Dias Santos, 05/06/2014.

Inside Llewyn Davis

InsideLlewynDavis-DaveVanRonk_LlewynDavis

O mais recente trabalho dos irmãos Coen, Inside Llewyn Davis (2013), ficou bem interessante.

Contada de forma não linear e tendo como cenário o pulsante Village da Nova York do início dos anos 60, trata-se da história de Llewyn Davis – uma espécie de Sal Paradise do músico Dave Van Ronk, em busca do reconhecimento e da realização profissional através do folk; porém a falta de rumo e de dinheiro, alguns junkies, artistas concorrentes e até gatos (esses bichanos que ronronam), aparecem a todo momento na caminhada do herói.

Encontrei no filme uma celebração interessante e cheia de referências da cultura que emergiu daqueles bares de palcos abertos, que eram preenchidos por questionadores do estado de coisas que o período apresentava – bares que antes abrigaram os beatniks e sua verborragia, onde Allen Ginsberg, tal como na Six Gallery da San Francisco de 1955, fez a plenos pulmões a leitura do polêmico poema Howl, onde Kerouac de Ozone Park bebia e bebia e ouvia jazz e bebia; e onde então aconteceria um resgate da música tradicional daquela sociedade que começava a encarar alguns de seus fantasmas mais nefastos – o racismo e a segregação social escancarada, por exemplo. (há negros na narrativa?)

Bom divertimento!

 

 

Deux Chevaux

O cenário é o seguinte: um jornalista acostumado a disputar corridas e a fazer curvas no limite durante seus testes com carros esportivos nos mostra seu novo brinquedo. Citroen 2cv, seu sonho de infância, antítese de todos os carros que já mostrou em vídeo.

Chris, um dos integrantes do canal petrolhead Drive, do youtube,  apresenta e convida para um passeio no seu 2cv. Pouca velocidade, adrenalina e emoção; muitos detalhes e diversão.

Vai curtir a tua aposentadoria, mas não some do mundo.

Um dia te compro.

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